quarta-feira, 10 de agosto de 2011

a dor de todos nós (ou louise bourgeois)

 explicando ao taxista o que eu ia fazer no instituto tomie ohtake num domingo: "(...) é preciso gostar de arte contemporânea para gostar desta artista". uma imprecisão. a artista em questão era louise bourgeois. esta foi a outra coincidência que me causou espanto. uma exposição de bourgeois em sampa. quando soube, comecei a desconfiar que não era coincidência. e comecei a acreditar no que caetano sempre repete: sampa é o mundo. tudo o tempo todo acontece. amo esta cidade com todas as minhas vísceras. divaguei: viveria numa casinha apertada, como a que estava hospedada, tranquila, só para ter o prazer de vivenciar tal mundo: louise bourgeois. 

a exposição me causou grande impacto. só não chorei mais porque a dor, diante de bourgeois, é sempre uma dor represada. uma dor silenciosa. dor de espanto. mesmo diante do abraço apertado (há  seres que se abraçam), pressentimos que não há ali encontro. a arte de bourgeois é tomada pelo estar só - um estar sozinho visceral, original = que vem da nossa própria origem. seres que choramos quando viemos ao mundo.

os seres pendentes, os seres de panos, os seres com prótese, os seres disformes, as grutas, os quartos, as celas - há aprisionamento em tudo. é difícil atravessar o impacto das imagens, seja das esculturas, seja dos desenhos, seja das frases - de todos os lados, dói. louise bourgeois pode ter se exilado nos estados unidos, mas sua arte é europeia, sem dúvida. em nenhum outro lugar, há tanto frio.

há uma falta de afeto na arte de bourgeois. falta de afeto por quem vê, diga-se. ela não tem piedade pelo espectador. não dá para ficar impassível. como pode? esta cela com este espelho. este corpo numa posição impossível (mas quantas vezes não nos sentimos assim, dilacerados, agônicos, desesperados, numa espécie de dor que é tão psicológica como física?), este ódio a um quarto tão antigo? = todos os nossos traumas estão lá transfigurados por uma beleza transcendente e perturbadora. não é por mim que chorei. não é por ela. é porque há beleza em coisas tão horrendas: nesta aranha a agarrar tudo. é tudo tão abjeto. como a tristeza. a tristeza é abjeta. nus. nus diante de nós mesmos.

e ainda.

era tão tarde. eu sentia muita fome e, mesmo assim, permaneci lá tempo suficiente para os guardas se incomodarem com minha presença, entre uma sala e outra. eu havia me perdido na cidade que vivi por mais de um ano. eu estava com o nariz vermelho. eu queria comprar o catálogo, mas era caro para quem já estava viajando há um tempão (fechei os olhos e comprei, mas, por culpa, como uma criança, fiz questão de dizer ao vendedor que era pobre - em outros tempos, diria que era estudante), eu queria comer naquele restaurante absurdamente caro, mas entre o catálogo e comer, escolhi o catálogo. queria ver minha mãe. e, quando saí, andei, andei, com a minha mochila pesada, com meus pés doendo a cada vez que pisava. queria queria e queria. e pisei forte, muito forte, para sentir a porra dos meus dedos dormentes, olhando ora pro chão ora pra cidade ora pra nada ora pra bem longe. e para me proteger pensei muito no Tatupai. pensei muito no Poeminha. pra lembrar que não estou sozinha. que por ora estou com eles. inteira. ainda que ali, naquele instante, estivesse tão cheia de pedaços espalhados.
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e ainda.
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quem puder ir, não deixe ir. porque de vez em quando é preciso destrancar as dores. no instituto tomie ohtake, até 28 de agosto, grátis, a maior exposição de louise bourgeois já vista no Brasil, uma das maiores artistas do nosso tempo.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Sobre as coincidências (ou Trilhas sonoras de amor perdidas)



Eu gosto dos que têm fome
E morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem 


Estes versos da Adriana Calcanhoto eu bem poderia continuar assim: eu gosto mesmo daqueles que não sabem muito bem o que fazer com esta sede, com esta vontade. Dito de outro jeito: gosto dos desajustados, dos chatos, dos malucos, das belezas, dos que me irritam até o último fio do cabelo, mas que de repente se redimem com uma frase, um gesto.

Em cada canto que eu vou, encontro pelo menos uma "espécime" que cabe nesta definição acima. Devo ter açúcar, sei não. O certo é que aqui em Vilhena há o Bozoca. Ah, o Bozoca, sempre fazendo algo que destoa, com jeito de menino egoísta que nunca vai crescer e capaz de proferir frases tão desastrosas quanto geniais sem mudar de tom.

A literatura também é farta destas gentes, entretanto nunca havia visto uma representação tão perfeita de um ser que conheço como a que encontrei na peça Trilhas sonoras de amor perdidas, do Felipe Hirsch, que fui ver com meu irmão no Sesc Belenzinho*. É como se eu estivesse diante do Bozoca, excetuando a altura de Guilherme Weber, que faz o protagonista. O resto é tudo igual: os trejeitos, as angústias, o deslocamento no mundo, a paixão pela música, sobretudo por uma certa cultura grunge que parece ter desaparecido no tempo, mas que continua aí para alguns. Para Bozoca, falta apenas a cara metade. 

Vivi, então, uma emoção dupla. O tempo todo "via" Bozoca e ria, e imaginava. E também  reencontrei a Sutil Cia. de Teatro, da qual eu já havia visto Educação sentimental do vampiro e Avenida Dropsie. Na Sutil Cia., eu enxergo um trabalho muito bonito sobre o que há de mais complexo no ser humano, sem paliativos e sem julgamentos. Todos fazemos parte de uma época, um lugar e encontramos gentes que nos fazem bem e nos fazem mal e, assim, construímos nossas idiossincrasias, nossos medos, nossas alegrias. E há o amor, a música, a arte para nos ajudar a superar a morte, o medo da morte, para nos manter vivos com mais inteireza. Foi assim que eu vi Trilhas sonoras de amor perdidas. Foi assim que eu senti. 


* Não posso deixar de comentar o quanto fiquei horrorizada com a reforma no Sesc Belenzinho, que virou uma coisa medonha, com cara de clube de nouveau riche sem gosto algum).

terça-feira, 26 de julho de 2011

Instantes de Itamar Assumpção


o amor que devoto a itamar assumpção explica as quase duas horas em que passei chorando ao assistir a um documentário sobre ele no espaço unibanco da Augusta. Uma daquelas coincidências que arrepiam só de pensar - como é que depois de tanto tempo sem ir a São Paulo vou logo na semana em que está passando um documentário sobre este músico que há tanto tempo está em mim? 

Daquele instante em diante, de Rogério Velloso, é um filme para quem sente falta. E para quem a vida e a música, embora dissonantes, são uma aventura das mais viscerais. É uma homenagem, em que os amores de Itamar estão ali para dizer como ele faz falta. Todos que estiveram ao seu redor parecem demonstrar espanto::: espanto porque ele existiu, do modo como existiu. Ninguém diz, mas é como se dissessem: por que este filhodaputa tão adorado foi embora tão cedo? Daí a carga de emoção - emoção agridoce, palavra várias vezes dita. Não há nostalgia, no entanto. É uma saudade quase raivosa. Ou tão delicada quanto raivosa - o que é uma boa definição também para a sua música. 

Como é que pode um homem que cultivava orquídeas! Como é que pode, não é? É o que penso desde aquela tarde, com um aperto no coração. 
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segunda-feira, 25 de julho de 2011

a maluquete amy

que tarde triste. fiquei tão brava com esta maluquete. como é que ela nos deixa com esta batata quente na mão? este mundo ficando cada vez mais careta, tudo encaixotadinho, politicamentecorreto, os guetos cada vez mais acentuados, até os fumódromos ao ar livre desaparecendo, intolerânciamil, as pessoas cada vez mais feias, aí amy inventa de morrer para dar mais munição a esta gente toda policialesca. tristetristetriste.

lembro do dia em que perguntei, desolada: "tatu, por que não tem ninguém para cuidar dela?" talvez ela não tenha deixado. talvez ninguém tenha tentado. como é que se suporta tamanha dor? ou como ter suporte para as loucuras todas? deve ter sido um inferno. e isso estava muito evidente. mas havia ali um mistério. uma beleza. que vinham daquela voz sofrida. daquele corpo desajeitado. 

eu fico com a impressão de que todos morremos um pouco. que o luto encobriu a todos que amamos a música. a arte. e que o mundo ficou ainda mais feio sem a sua tristeza funda. tudo cedo demais.
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sexta-feira, 22 de julho de 2011

das alegrias de São Paulo

Rio de janeiro ficou pra qualquer outro dia. Eu, Manamácia e Pedro, meu sobrinho, viemos de Paraty para São Paulo. Ficamos uma semana. Falei para mana que, não importava nosso itinerário, seria bom do jeito que já estava sendo. E foi. Viajar tem disto: é preciso estar aberta ao inesperado. Como na vida, deixar livres os caminhos. E aprender com as paradas. 

Foi assim que é provável que eu tenha ido a mais shoppings nesta viagem do que durante todo o tempo que morei por "estas bandas". Não que eu não goste. Talvez seja mesmo o contrário. Eu sou compulsiva - e as inúmeras "coisas" que eu gosto de comprar aos montes estão aí para confirmar. Acho que por isso desenvolvi uma resistência em ir às compras. Porque se vou, para usar a expressão da minha amiga Rô, não passo vontade. Então fizemos comprinhas, várias comprinhas, com direito a uma passagem pela 25 de março. Meu irmão Ferdinando se reuniu a nós durante toda a semana. E a sensação de estar com a família, e de ser este um momento raro, tomou conta de mim. 

Antes que eu achasse que a viagem seria um grande shopping, já estávamos envolvidos em outras delícias. Seguimos, então, meu itinerário pessoal - aquilo que, para mim, faz de São Paulo A cidade, com maiúscula mesmo.  E também visitamos o tio e a tia, aqueles que um dia foram meus tios-sogros. E eu gostei demais de ficar ali perto deles, de contar minhas histórias, e ouvir suas histórias. 

Como estava perto da mana que salvou minha vida, brinquei várias vezes::: "ainda bem que não morri". Ainda bem que pude viver esta semana para guardá-la no meu enorme baú de grandes alegrias.
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quarta-feira, 20 de julho de 2011

a macumba antropófaga de zé celso

a nudez do teatro de zé celso martinez não espanta ninguém, porque o modo de sentirmo-nos em comunhão com o ritual tribal do teatro de zé  celso é naturalizarmos a nudez. mesmo quando não temos coragem de arrancar as vestes precisamos de alguma forma nos desnudar. e estando bem perto, sentimos todos aqueles odores de gente, de modo que aqueles cheiros são também os nossos. como numa festa, nos entregamos ao delírio da longa noite, ainda que seja dia. é bonito. muito bonito. ainda aqui, senti-me mais uma vez parte de um momento histórico. não tão decisivo quanto a encenação de O rei da vela, que definitivamente mudou os rumos da recepção da obra de oswald de andrade. uma outra cena, é fato, a da macumba antropófaga, que encerrou a FLIP. mas, ainda assim, arrebentadora.  não esquecerei.






domingo, 17 de julho de 2011

oswald e antonio candido


Homenagear um escritor é criar um factóide. E quando é num evento em que ele mesmo é um factóide, tudo fica meio exagerado. Broches, camisetas, canecas, cartazes, Oswald de Andrade estava em todo lugar em Parati. Ainda com meus botões, eu pensei::: e por que não? e se um factóide criar a possibilidade de um escritor não ser esquecido? e se pessoas, a partir de agora, lerem o Oswald, devido a esse falatório todo? Que mal há nisso? Antonio Candido, na primeira conferência da FLIP, apresentou-se como um sobrevivente. E contou histórias sobre o irrequieto Oswald como alguém que sabe que a morte está mais próxima do que longe. Senti-me parte da História - algo como::: não fui contemporânea de Oswald, mas esta voz me faz próxima de sua beleza agridoce. A primeira lágrima de emoção na FLIP veio daí. Da emoção de ouvir Antonio Candido, que, de forma unânime, é o mais influente crítico literário brasileiro, embora a minha formação não tenha me encaminhado para a veneração unânime que todos têm por ele. Diante da sua voz, isso ficou sem importância, porque veio de chofre a certeza de estar diante de um homem que dedicou toda a sua vida à literatura.
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A aula do meu concurso para ingresso na Universidade foi sobre a prosa de Oswald e Mário de Andrade. E sob o risco de ser questionada pela banca, eu pautei meu discurso defendendo a originalidade de Oswald, tão ou mais transgressora do que a de Mário de Andrade. A ideia que tenho de "moderno" é uma representação clara da figura de Oswald - um criador que é também uma obra. Então, eu me senti em casa nesta "homenagem".
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sexta-feira, 15 de julho de 2011

pola e mãe


A essas alturas, todo mundo que se interessa pela FLIP sabe que valter hugo mãe, escritor português pouco conhecido no Brasil, mas suficientemente reconhecido para ter seu livros publicados pela editora 34 e Cosacnaify, roubou a cena. a sua conversa foi, de fato, muito emocionante. daquelas emoções que tocam em algum ponto muito sensível. que falam do humano que há em nós. ainda não sei se ele é um bom escritor. não li nenhum dos seus livros. mas a confiar no que dizem, e no modo bonito com que ele expressa sua alegria - uma alegria tímida, que mais parece tristeza - de estar na vida, vale a pena ler algum dos seus livros. eu já comprei o(s) meu(s), devidamente autografado. 

depois da emoção, fiquei pensando sobre a reação do público, que, diante de um escritor de tamanha sensibilidade e uma escritora por demais cerebral que dividia a "mesa" com ele - a argentina Pola Oloixarac -, escolheu rapidamente de que lado estava. pois, apesar de ter me emocionado muito com valter hugo mãe, não me vi entre um e outro. achei que eles ocupam lugares diferentes. e que estão em trincheiras que batalham com armas diferentes, não necessariamente opostas. Pola deu a dica: quando hugo mãe expressou sua vontade de ter um filho, ela meio que lamentou a impossibilidade de dizer o mesmo e ter a mesma receptividade do seu colega. Pois uma escritora mulher, ao expressar o desejo de ser mãe, causa mais desconfiança do que acolhimento; o exato contrário do que acontecia ali com hugo mãe. e Pola parece construir literatura desse modo: contra a maré. por isso, a voz na defensiva, as explicações teóricas. as frases frias no jeito tímido. acho que é preciso fazer essas diferenças para acolher um e outro. a literatura de um e outro.
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agora é lê-los. 
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crédito da foto: walter craveiro

quarta-feira, 13 de julho de 2011

longe de casa

longe de casa há mais de uma semana. e longe do meu filho há mais de duas, me vem uma sensação grande de desalento. acordo na noite e fico buscando na mente quantas janelas há na casa da avó e se há telas de proteção. tento afastar rápido o pensamento. desde que me dispus a deixar o Poeminha ficar um mês na casa da avó materna, eu tento "deixar livre" o caminho. já me doeu uma porção de vezes. mas mantenho a serenidade. onde ele está o que não faltam são amor e cuidado. o que assusta, de fato, são os perigos do mundo. o imponderável. como se, perto de mim, eu pudesse protegê-lo de todo e qualquer senão. mas deixei que ele fosse. Poeminha é um garoto extremamente livre, qualquer um percebe de longe. no FALE, ele caminhava entre centenas de pessoas, chamava a atenção de um, de outro, pegava, olhava, subia ali, acolá. a curiosidade a mil: uma lindeza de ver. e quando vejo isso, mais tenho certeza de que é assim que quero ajudá-lo a crescer. dando-lhe a possibilidade, desde agora, de amar outros que não a mim e ao Tatupai. porque gostar de gente ainda é a grande beleza da vida.


poeminha e inildo, a quem ele adora.

com a rosana.

e com a bisa.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Em Paraty

Imaginei que daria para escrever todos os dias enquanto estivesse na FLIP. Por isso, o marcador "Crônicas da FLIP". Ocorreu o exato contrário: não consegui nenhum dia. Fiz duas descobertas interessantes por lá: não seria uma boa jornalista nem uma boa fotógrafa, duas profissões que, em tempos diferentes, já quis chamar de minhas. Para as duas, falta-me a disposição do intervalo. Na FLIP, não quis parar nem para escrever nem para tirar fotografias, esta última agravada pelo fato de que eu e minha supermáquina continuamos inimigas de morte. 

Tentei ver o máximo possível da programação, o que, diga-se, não quer dizer grande coisa: para cada programa que escolhi, deixei de ver outro tanto - algo como não ver Ferreira Gullar porque não tenho o dom da onipresença. 

A FLIP foi, para mim, uma lindeza. Fiquei emocionada em vários momentos.  De chorar. De escorrer lágrima. Não me envergonho: se eu tivesse a predisposição de fazer uma crítica negativa a FLIP, eu não teria ido. Aliás, tenho horror as gentes que olham tudo com enfado, sempre com uma crítica sarcástica e aparentemente muito inteligente, que teria o dom de mostrar o "horror" daquilo que os reles mortais deslumbrados não teriam o poder de ver. Eu até sei que a FLIP é, evidentemente, um evento para gentes endinheiradas ou esforçadas (incluo-me nesta segunda categoria, claro) que se dispõem a pagar os tubos por uma hospedagem em pousadas nem tão confortáveis assim. Sei também que qualquer gesto - positivo ou negativo - dos escritores convidados pode virar um factóide que, no momento imediato, circulará em toda a Internet e, na manhã seguinte, estará nos principais jornais de papel ainda em circulação. A Folha de São Paulo tem uma "casa" por lá. Assim como a Companhia das Letras, o Instituto Moreira Salles e muitos tais. E a livraria oficial da Festa é a Livraria da Vila, que, como já falei por aqui, é muito charmosa, mas cobra bem alto pelo seu charme. 

Eu sei de tudo isso, mas não me esqueço do meu primeiro impulso, que era o desejo de ir, o que,em outras palavras, significa "aceitar as regras do jogo". Foi assim que a trupe de cinco - Rosana, Nilza, Pedro, Manamácia e eu vivenciamos estes cinco dias: com olhos livres, como dizia Oswald de Andrade, o homenageado da vez.
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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Depois da FLIP, sobre a ida para a FLIP

Há uma certa histeria na FLIP, é inegável. Pude sentir bem isto quando tentei comprar os ingressos para assistir às conferências. 40 minutos depois de aberta a “bilheteria” virtual”, praticamente tudo estava esgotado, restando apenas a “Tenda do telão”.  É provável que seja um saco assistir às conferências na tal tenda, mas o fato é que, movida pela histeria, comprei vários ingressos, não só para mim, mas também para quem vai comigo.Não sei bem o que fazer com os tais ingressos, se assistirei realmente às conferências, ou se apenas perambularei por lá, fingindo ser rica (já que tudo, dizem, é o “olho da cara”) e fingindo ter lido todos aqueles escritores, embora eu não conheça a maioria.

Simbolicamente, quero que a FLIP instaure um novo tempo na minha vida. Estou decidida a me voltar cada vez mais para o ato solitário da leitura. Gesto esquisito o meu. Marcar a busca essencial da solidão no meio da multidão. Tem explicação não. Só se explica porque quero voltar, nem mesmo sei se quero ir, para pôr logo em prática minhas novas determinações.  Ser “promoter” de eventos é por demais cansativo. E é assim que me senti neste semestre que findou:  a concepção do FALE é linda, mas a sua realização é estafante e contraditória.

Então, eu vou com o espírito de reclusa, atrás da leitora que a professora universitária me tirou. 
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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Os dias do FALE chegaram. E por isso estou insone, depois de dias e dias e noites e noites... Vai ser bonito do jeito que já está sendo:


domingo, 19 de junho de 2011

Bernardo Carvalho pensa

exausta, sem saber mais exatamente como me manter acordada, ou, na impossibilidade, como me manter sentada com esta dor tamanha embaixo da costela, resultado de dias e dias diante deste computador, vago pela internet atrás de algo que faça qualquer coisa com esta minha vontade - já quase insana - de entrar em off, que se fodam todos os meus compromissos pré-FALE. Encontro, então, esta postagem de Bernardo Carvalho e, de repente, descubro porque continuo lendo seus livros, apesar da antipatia por seu cerebralismo. Adoro esta sacada de que os provincianos são os outros e que temos mais é que ignorar este modo tosco de classificação dos lugares:

"(...) A coisa vai mais ou menos bem (mais para menos do que para mais) quando minha amiga me pergunta sobre as viagens, sobre a urgência de estar do lado de fora, no exterior, sobre a atração pelo estrangeiro como uma forma de estranhamento. E eu caio na asneira de responder com um exemplo recente – que, depois de uma leitura no norte da Alemanha, o mediador me perguntou: “Mas, afinal, onde está o Brasil na sua obra?”. E que isso tinha a ver com um preconceito, pois ele nunca faria a mesma pergunta a um americano ou a um inglês ou a um francês que tivesse escrito um romance sobre o Japão ou a Mongólia. O exótico não pode falar do exótico. É insuportável, não tem credibilidade. Um clichê não pode falar de outro, porque se anula. Prossigo (embora tudo – a começar pela cara da minha amiga – me alerte de que é hora de calar a boca), dizendo que as identidades nacionais também são ficções, mas ficções vividas como religião, como crença, transparência e normalidade, e que a ficção literária, ao mostrar sua construção, sua fragilidade, sua opacidade, pode servir como uma alternativa e um antídoto à crença nas identidades – e não apenas nacionais. É essa a literatura que me interessa, uma literatura desconfortável, cuja força vem da sua fragilidade".

A postagem completa está aqui. Em tempo: Bernardo Carvalho está em Berlim. E uma de suas obrigações de escritor residente é escrever um blog (algo que ele não gosta).
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sábado, 11 de junho de 2011

Álbum de memórias - Canoa Quebrada

Canoa quebrada, no Ceará, é um pequeno pedaço do paraíso. Verdade que não tem o mesmo encanto de Jericoaquara. E eu não sei especificar bem por que. Talvez a distância de Jeri conte a favor. Canoa é bem ali, se estamos em Fortaleza. E quando eu estava ainda bastante doente, minhaPrincesa foi para Fortaleza. E eu achei que não devíamos ficar entre quatro paredes só porque eu não estava bem. Todos eles vibravam de vida, engavetados de tédio. Fomos a Canoa então, bem ali. A viagem foi muito sofrida. Senti cada osso. Mas o que são os ossos, se podemos ainda viver? Se podemos ver um ser muito amado voar? Registrei o voo da Princesa. Quando eu voltar em Canoa Quebrada, prometo, vou voar também.











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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vou pra FLIP



Flip. Desejo antigo. Não sei como é. Mas vivenciar a literatura como uma festa sempre foi uma tentação. Ando em crise com minhas escolhas acadêmicas, já que me roubaram o que de mais precioso eu tinha em mim: a leitura literária. Então vou me dar ao direito de passar um mês no universo da literatura. Vou também para a Abralic falar sobre um escritor que é estranho.  É  estranho e por isso gosto um tanto. Aqui e ali. Joca Reiners Terron.  Vou conhecer Curitiba. Embora. Embora quando pense em Curitiba, penso na Curitiba de Adriane Hernandez, a Driamada, que me fez ver a desumanidade de uma cidade planejada. Poderia lembrar de Paulo Leminski, e sentir Curitiba como a palma da minha pica que não tenho. Mas penso em Adriane. E compreendo bem por que. Qualquer um que morou na casa do Brasil, em Paris, sabe o que há de desumano na “casa planejada”. Para manter o plano, que todo excesso seja contido. Seja restrito ao sótão. 
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Mas vou. E é certo que me deixarei fotografar naqueles lugares tão turísticos. Vou à ópera de arame. E lá me lembrarei de Madri, onde tem uma ópera igual. A daqui, réplica de lá, talvez?  Lembrar daqueles dias de Madri. Ali eu vi Guernica e O jardim das Delícias. E duvido que exista ser no mundo que não se dilacere diante. E eu estava cambaleante nas suas ruas. Como só ficamos quando alguma dor martela. Senti um tanto de dor e um tanto de poesia naquilo que sentia em mim. Noites em claro num bar tão babel - e no sótão. Diverti-me horrores com a minha solidão. Tem um quê de aventura ficar bêbada numa cidade estranha em que apenas um e outro turista como você fala a sua língua ou a língua que agora lhe serve de sua. Algumas experiências são muito libertadoras, e por isso voltam de forma mais constante do que outras. Assim é minha memória de Madri. Mas era da Flip, em Paraty, que eu falavra. E da Abralic, em Curitiba, não?
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A ideia era entre Paraty e Curitiba passar uma semana em São Paulo – a Sampa que eu amo. Mas julho, será? Me deu uma desvontade. Paraty está entre o Rio de Janeiro e São Paulo. E meio de repente deu uma vontade doida de sentir o sol do Rio. O Rio, onde só fui para ser feliz.  Mas agora. Agora eu estou tão institucional. Vou morrer de saudade do meu filho, que não vai. Morrer de saudade do Tatupai, que também não vai. Eu vou. Mas de repente não amo mais São Paulo. Nem o Rio. Nem Curitiba. É assim. É o tempo. O que ele faz conosco. Isso assombra. E ao mesmo tempo é o que nos acalenta. Nos redime.
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terça-feira, 7 de junho de 2011

luz amarela




poeminha é meio água. para ele, tudo é motivo de. e a luz na nossa casa amarela é amarela. amarela como a cadeira. quem diria.
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domingo, 5 de junho de 2011

bicicleta na parede - e sobre o que é bom


a bicicleta foi parar na parede. o bacana é que não está apenas na parede. tatupai procurou, procurou até encontrar a atividade  física que lhe dava prazer. agora já está até fazendo trilhas. acorda cedo aos domingos. ele diz que a paisagem não é de brincadeira - de alumiar. a turma também. há algum tempo a busca pela vida saudável bateu a porta aqui em casa. Poeminha é, em larga medida, responsável pelas mudanças. e nos contagiamos. frutas de todas as cores. refeições balanceadas. e tatupai, pouco a pouco, foi percebendo a necessidade de se cuidar.  sobrepeso, cansaço. logo ele, um cozinheiro de mão cheia. é bom porque os sabores agora experimentam outros sabores. longe da gordura, das massas de todos os dias. é difícil - a começar pelo preço. produtos de qualidade são sempre os mais caros das prateleiras::: ainda mais aqui na mata, em que o monopólio dos supermercados mantém os preços nas alturas. mas não dá para abrir mão. e tenho que agradecer esta "consciência", mais uma vez, às pessoas que tive a sorte de encontrar. ninguém na minha família pensa com amor na alimentação. heranças. de certo modo, comer sempre me pareceu nada mais que uma necessidade fisiológica... até encontrar carla, mariamada, tatupai. não descarto a possibilidade de Poeminha um dia querer viver à base de sanduíches, mas não vai ser aqui em casa que ele vai aprender. todas as noites, eu faço um "resumo" a ele das "delícias" do dia. o abraço apertado. o livro. o filminho. a brincadeira demorada. a ida a  bisavó - e agora a avó que está aqui. o almoço. a bicicleta do pai. o a ida a praça. o jantar - e repito: "filho, a vida é bonita. vale a pena gostar de gostar; você ouviu aquela música em que dancei com você? pluct plact zuum. mamãe chorou porque no tempo dela tudo era falta. agora não, filho. você não tem tudo. nem precisa. mas amor e cuidado não lhe faltam. você sente?" e ele se espalha todo em cima de mim. seguro. inteiro. e às vezes, nesses momentos de ternura, eu lembro daquela longa estrada ao meio dia de muitos desejos. quase nunca satisfeitos. e ainda bem que o tempo passa - tantas vezes ao nosso favor. 

e a bicicleta na parede. a busca pelo saudável. o cuidado com o filho. a parada contrariada, mas necessária. tudo isso faz parte do savoir faire. de um desejo de viver bem - que se concretiza porque a história existe, mas nem sempre perdura. ainda bem. 
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quinta-feira, 2 de junho de 2011

o micróbio do samba da adriana

a música é mais forma do que conteúdo. porque prescinde das palavras. e não há quem duvide disso. porém algumas vezes é preciso abrir exceção para esta lei. quando a novidade é tamanha. desde que ouvi pela primeira vez o micróbio do samba, o novo cd de adriana calcanhoto, pensei nele como uma exceção. e uma exceção muito bonita. vigorosamente bonita. adriana veste-se de samba, invertendo seus sentidos. e o faz dando voz a mulher - uma (in)certa mulher que se apropria do discurso masculino. até aí tudo bem. quem acompanha, sabe que esta apropriação às vezes é vista mesmo como um retrocesso. não neste caso, é certo. muitas cantoras, nos últimos tempos, flertaram com o samba, mas nenhuma com o vigor de adriana::: marisa monte e maria rita talvez sejam os primeiros nomes que vêm à mente. mas tem teresa cristina e martinália, a quem amo desde muito (mas elas não apenas flertaram; elas são o "próprio" samba). só que nenhuma delas incomodou-se de dar voz à submissão da mulher. ou se incomodaram pouco::: o eu lírico reproduziu aquilo lá: a dor, a saudade, o silêncio da mulher. a malandragem, a sedução, a esperteza do homem. o vigor da adriana está neste contrário: aqui a mulher comanda. reiteradamente. música após música é uma mulher forte e linda que comanda seu próprio mundo de desejos. e a singeleza que é seu samba não deixa que essa escolha resvale em nenhum momento para o panfletário. a que canta é a mulher de agora. pode ser eu. e pode ser você, tão lindas para o mundo, no mundo. e não tenho como não me apaixonar por este universo-mulher: pode se remoer/ se penitenciar/ eu encontrei alguém/ que só pensa em beijar. uma mulher liberta dos anseios tão firmemente sedimentados. com tudo aquilo que advém da beleza de ser mulher::: segura livre leve. um risco, claro: te deixo a geladeira cheia e sem promessa/ que findo o carnaval eu tô de volta/ não chora, neguinho, não chora/ ... / tá na minha hora, tá na minha hora. um risco delicioso - com gosto de invenção que veio pra ficar. certeza que qualquer outra cantora que resolva se arriscar daqui em diante no micróbio do samba não vai ignorar a voz - o tom da voz - de adriana. se o homem tiver voz, que se aproprie do que um dia foi a voz da mulher: ... por você seria aquele que você mandasse ser/ nunca chegaria tarde com a barba por fazer/ vem cá, vem ver, vem ver. a voz da tradição está toda aí. mas o tom agora é outro.
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terça-feira, 31 de maio de 2011

palavrinhas

gosto muito de muitas coisas. e de muitas pessoas. marie me liga de paris e disparo a chorar. um pensamento me atravessa: "se tivesse morrido, não ouviria mais a voz de marie". ou não existiria mais a possibilidade de vê-la. a possibilidade de não mais existir é, definitivamente, muito perturbadora. ainda estou assim. o corpo melhora, mas a alma ainda dói. meus dedos dos pés ainda estão dormentes. e de fato não são uma bela imagem. quando minha avó morreu, a mãe do meu pai, por quem eu tinha verdadeiro amor, figura tão miúda, e já estava no caixão há algumas horas, eu toquei nos seus dedos e levei um grande susto ao senti-los duros, petrificados, carne morta. meus dedos dos pés estão assim - curvados e duros como dedos de mortos. isso dificulta um pouco meu equilíbrio. mas muito menos do que antes. agora quase caio porque esqueço de que meu equilíbrio ainda é tosco - o que é um bom sinal. 


amo muita gente, mas paradoxalmente estou muito retraída. planejo telefonar para cada um dos meus amigosamados e dizer-lhes como sou feliz por eles existirem. mas acabo por não fazê-lo. o telefone é sempre uma arma apontada para mim. não. não estou deprimida. estou entristecida. e muitíssimo ocupada. um parafuso em busca da posição mais acertada. volta e meia me pego a pensar que sou uma sobrevivente. e isso é muito incômodo. porque é como se eu tivesse a obrigação de fazer TUDO - mas eu não posso. de tudo o possível - então eu agarro bem forte o meu filho e também o livro que mais quero ler e não posso - não posso! - porque também preciso cumprir meus compromissos. fazer o melhor naquilo que me propus a fazer. e como? como, meu jesuscristinho, não me embrutecer? não entristecer? o que é a vida, quando sentimos que a vida poderia não mais existir? ainda bem que ninguém me pergunta. não saberia responder. também não sei ao certo como agir depois de quase ter morrido.
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voltei para a universidade intempestivamente, porque na verdade não havia saído dela - meus projetos me mantinham bem colada ao seu cotidiano. mas sinto tantos espaços estéreis. talvez por isso me agarro loucamente às mil tarefas. e o anúncio da minha volta?... ah, não falo! tenho humor, sempre tive. gargalhei imaginando que seriam preciso dez anos de análise para superar aquela frieza toda. mas não. não pago um tostão pela falta de emoção do outro. basta que eu sinta como é importante estar de volta, basta que minhas mãos tremam ao anunciar a minha volta. depois... depois não tem importância. manter o foco do que é importante. e lembrar da ternura em volta. o que importa, importa para mim. para o tatu. para meu filho. para minha família. para os amigosamados. e não é isso que importa? isso é tudo. então um dia quem sabe, é o que penso. e será um alívio. para mim, sobretudo. é isso. sou eu, ainda. uma menina. uma mulher que chora ao ouvir a voz da amiga d'além mar. uma amiga que chora ao falar para a melhor amiga: "não mereço". mas mereço. estou aqui. e farei o melhor. nunca, jamais, me entregar ao ódio em volta. ao descaso em torno. à incompetência, à perseguição. sem estoicismo. farei o melhor. e para mim, melhor para mim, porque só amo em volta de mim porque, como já me  disseram, tenho um profundo amor por mim. e estou viva. e é muito bom estar viva. porque o milagre da vida é a própria vida. parece frase de auto-ajuda. mas não é. é a certeza de que, estando aqui, o milagre da vida ainda persiste.   
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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Blog das 30 pessoas

A partir de agora, todo dia 26 de cada mês, eu escreverei aqui. uma moça bonita me convidou. trocamos emails cheios de ternura. de cara me apaixonei pela ideia. 30 pessoas. 30 visões de mundo. 30 linguagens. topei na hora. mas confesso que fiquei nervosa na primeira postagem. bebi uns chopps para encarar a escrita. a obrigação de escrever. ainda mais hoje que verti muitas lágrimas. de emoção, ainda bem. mesmo assim, lágrimas. sempre fica um nervo exposto. sangue transparente que escorre na face. ainda mais hoje em que nós, Tatupais, tivemos que ficar bem perto do Poeminha, ficar ali sentindo a sua dor impossível. apesar de tudo isso, depois do chopp, no trajeto de carro para casa, "escrevi" mentalmente uma postagem LINDA. ilusões do pensamento, é claro.  quando sentei aqui, não lembrava palavra. o branco. afinal, lá eu sou uma estrangeira. diferente daqui, que é meu lugar. ainda assim, escrevi. pela mesma razão por que escrevo aqui::: pelo prazer de escrever. 
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a imagem foi a que postei

quarta-feira, 25 de maio de 2011

uma conversa amorosa com a literatura

muitas experiências. e elas tomam conta de mim. deixo abertas as frestas. existem.  nem que sejam por pouco tempo. de todas, a leitura. o ensino. o saber. qual é este mesmo?

neste sábado, precisei condensar mais de cem anos de literatura brasileira em oito horas. demarquei, então, o impossível. registrei o engodo e por dois dias histéricos busquei sistematizar estes mais de cem anos. uma tentativa de estancar o desague de palavras que com certeza jorrariam. ou o silêncio, nunca se sabe. qual efeito, ainda não sei dizer. mas para meu próprio deleite, falei oito horas ininterruptas, declarando meu amor ao período moderno e contemporâneo - "meninos, creiam, salvo Machado de Assis, tudo que vale a pena está neste século". e autobiográfica como sou, jurei: "diante da morte, conta muito pensar: eu li a obra completa de graciliano ramos, desde caetés até memórias do cárcere, passando pelo enorme abismo que é angústia". tem hora que a literatura pede só uma declaração de amor. ainda mais nestes tempos em que qualquer amor parece sem sentido. eu quero todos os seus sentidos. sou, afinal, uma leitora, antes de ser professora. e antes de tudo, sou um sujeito - com ânsias medonhas. 

talvez por isso eu rejeitei o material com o qual deveria falar sobre literatura. e criei meu próprio material. rejeitei-o. ou ele me rejeitou, não sei. dados e fatos não me interessam. lembrei-me, mais uma vez, de barthes. e achei que valia a pena apostar no sentido amoroso da conversa. 
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e de quebra, ainda namorei. Poeminha ficou com a avó e a bisa. e nós, Tatupais, aproveitamos a visão das estradas, a música no carro, o lugar para dois.

terça-feira, 17 de maio de 2011

bizarrices

não faço parte dos doisbilhões (!!!) de pessoas que assistiram ao "casamento real". eu até achei que veria algo na reapresentação do Fantástico, na Globonews, mas na hora de começar, veio a notícia da morte de Bin Laden e, em lugar do Fantástico, apareceram ininterruptamente imagens do "terrorista mais procurado do mundo". 

achei que essa "coincidência" diz muito sobre nosso tempo e sobre o modo como vivo esse tempo. não vou aqui detalhar porque acho tão estranha a estranha lei de "olho por olho, dente por dente". não sei se seria justa com tantas vidas que se foram. mas não posso deixar de dizer que acho deprimente o modo como absorvemos discursos artificiais e tornamos nossas algumas palavras que, de fato, não são nossas. são construtos de uma época. "guerra ao terror" é uma dessas expressões forjadas. 

e qual é mesmo a graça de observar dia após dia um casamento? o que há de anormal no fato de um casal de jovem resolver casar? só se for pela longevidade do namoro. e os elogios pra lá de exagerados à noiva? é como se de repente todo o nosso imaginário tivesse sido suplantado. desde quando o "ocidental" acha algo de extraordinário numa moça com tão poucos atributos? esta moça me parece um moça comum, com um rosto mais para feio do que para bonito, envelhecido pela dieta draconiana que teve de suportar para estar "linda" no dia do casamento. e que se veste de uma maneira insuportavelmente careta para a sua idade. fiquei imaginando por quanto tempo ela vai suportar as lentes do mundo voltada para ela. quanto tempo demorará para enlouquecer. 

Enfim, achei bom não ter tempo para vivenciar essa histeria coletiva. bizarrices. de um lado, um morto; de outro, uma viva emparedada. ando tentada a pensar que faltam às pessoas experiências reais. faltam vivências que suplantem os contos de fadas que outros supostamente vivem. eu ando meio histérica - envolvida com um tanto de coisas: umas que quero muito e outras que ajudam a pagar as contas fim de mês. mas me consola saber que são minhas experiências. é minha vida. minhas decisões. meus impasses. é meu brilho no olho - que compartilho com o filho. este que sorri deste modo tão inteiro. falei dias desses para um grupo de alunos que só sei ser assim: na paixão. pode ser uma imagem e nem ser real. mas me sustenta. ao menos, não sou espectadora da vida dos outros (embora não me furte de dar uma olhadela). sou a protagonista de mim. 

sábado, 14 de maio de 2011

Fotografias para explicar uma frase

fotografias que não me deixam mentir: "em Mapplerthorpe, não.  uma flor pode ser tão sensual quanto um corpo. mas nunca um corpo é singelo como uma flor".








imagens: http://www.mapplethorpe.org/

terça-feira, 10 de maio de 2011

para o filho

poeminha, não sei que magia você intui nos barulhos variados da máquina de lavar. só sei que desde algum tempo a cada vez que a máquina muda de função, sobretudo se é a de centrifugar, você corre ao meu encontro para que eu lhe ponha nos braços e, assim, você possa observar o movimento da máquina pela tampa. você não sabe, mas essa interrupção contínua é por vezes exasperante e inconveniente. porque às vezes vem no meio de uma frase escrita ou lida, de um email quase a ser enviado, de um descanso necessário ou mesmo de uma cena de filme imperdível. e ainda assim, quase nunca eu lhe furto desse prazer. intuo que há ali um encanto que não cabe a mim quebrar. o que você pensa é a mim interdito. mas gosto de pensar que tem a ver com os sentidos do mistério que você constrói aos poucos. é o girar, é o cair da água, é o intervalo entre um e outro.

e você quebrou, pela primeira vez, um objeto de valor, sentimental que seja. continua com sua delicadeza, mas vivencia constantemente uma curiosidade atenta em relação às coisas. eu estava viajando. e ainda bem que estava. não sei se, num impulso, não teria dado uma bronca sumária. como era o olhar amoroso e condescendente de sua bisavó que lhe vigiava, o que restou do acontecimento foi a sua narrativa. e você ainda não pronuncia palavras e frases inteiras. filho, e foi linda a sua narração. seu pai chegou mesmo a dizer que valeu a pena você ter quebrado só para que pudéssemos presenciar o seu contar. um contar a mim, que tantas vezes lhe interditou o objeto agora quebrado. você ia e vinha, apontava para a outra peça semelhante que sobrou, e balbuciava uma cantilena que finalizava sempre com "bou", "bou" - "bou", de quebrou, como você já aprendeu devido às xícaras da gaveta. e me deu uma alegria, filho. lembrei das tantas vezes que apanhei por ter feito alguma coisa "errada". e das tantas vezes que fiz silêncio com medo de. já adulta, apanhei porque galinhas quebraram as louças da sua avó. supostamente só podia ter sido eu a deixar a porta aberta. e ouvindo a sua história, filho, prometi a mim mesma nunca roubar a sua coragem de dizer. esta de agora. você, ali, resoluto, firme, decidido a narrar da forma mais clara possível, como a não deixar dúvida. e no meio da promessa, já pressenti como será fácil cumpri-la. não se trata, filho, de não ensinar o certo e o errado. trata-se de aceitar o erro como parte da história que nos cabe cumprir por aqui.
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domingo, 1 de maio de 2011

Só garotos, de Patti Smith

... O artista busca entrar em contato com sua noção intuitiva dos deuses, mas, para criar seu trabalho, não pode permanecer nesse domínio sedutor e incorpóreo. Ele deve voltar ao mundo material para fazer sua obra. A responsabilidade do artista é equilibrar a comunhão mística com o trabalho criativo. Patti Smith

quando estava em paris, fui a uma exposição num daqueles "museus do sexo" - ou sexshop - que há em montmartre. lembro que senti um certo enfado, fotografei uma coisa e outra, batalhei um tempo por um copo de vinho no balcão e nada mais.  provavelmente, eu não lembraria desse fato, se não tivesse lido, no feriado de páscoa, o livro de Patti Smith, Só garotos. numa das paredes, havia uma fotografia de Robert Mapplerthorpe, e foi sobre ela que, depois da exposição, falei horas. eu queria encontrar em francês as palavras certas para dizer que ali havia a potência, a chama, a incógnita, a arte. algo muito diferente, por exemplo, de alguns ensaios da Playboy, que para dar um ar de pseudoarte, retiram toda a sexualidade. e a nudez perde, assim, seu caráter erótico, profano, sensual. 

em Mapplerthorpe, não.  uma flor pode ser tão sensual quanto um corpo. mas nunca um corpo é singelo como uma flor. lembrei de tudo isso enquanto lia Só garotos, o canto de amor de Patti Smith a Robert Mapplerthorpe, seu amante, amor e amigo de uma vida inteira. e senti de novo muito fortemente porque não devemos aquiescer diante da normalidade. é preciso sempre uma válvula para o imaginário. para o por que não? os anos 1960 e 1970 brincam com nosso desejo de ser outro, totalmente outro. o poder de tudo poder. tudo é da ordem do imaginário. e Patti Smith tem uma linguagem muito delicada, muito verdadeira, para falar desse tempo, para se reconhecer como uma das protagonistas.  na verdade, é a história de um amor impossível. porque as histórias de amor, quase sempre, são da ordem do impossível. e há aquelas histórias de amor que seriam completas, se não fosse a ausência de desejo do corpo. a de robert mapplerthorpe e patti smith, é uma dessas histórias. almas que disputavam com corpos que queriam outra outra coisa. 

para mim, ler o livro foi como mexer em velhas fotografias,  trazendo até a mim o fascínio do passado, um recordar intenso e poético. gostei mais quando ela não queria explicar nada, ou se desculpar por nada - quando assumia por inteiro a loucura daquele tempo. aquele. rebeldia e nenhuma vergonha em estarem alheios às ordens impostas - sexo, drogas, rock and roll como sinônimo de liberdade, juventude e busca intensa de um lugar no mundo - com uma complexidade comovente e desafiadora que é própria dos artistas.
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quinta-feira, 28 de abril de 2011

de recife


... naquela tarde. a teimosia. filho. marido. irmã. sobrinha. lindo demais.

terça-feira, 26 de abril de 2011

correspondência

no facebook, respondi assim a uma mensagem do meu amigo alberto:

"alberto, li a última tradução mesmo de Ana K. siscar, meu orientador, ria desta minha vontade de ler todos os clássicos! mas eu continuo com vontade. o que me falta é tempo. q coisa! quando viramos professores universitários parece que só nos sobra tempo para fazer as burrocratices! Mas de todo jeito vou ler O homem sem qualidades ainda este ano. saudade de você sempre."

e ele me respondeu com estas lindezas de palavras: 

"mi, o q importa é q vc está e sempre esteve no caminho mais forte, mais potente. o resto é seguir burlando as burocratices, tentando não se envolver demais e escrever: não apenas ler. não parar de ler, mas escrever. criar e recriara vc nessa luta com as palavras, q é apenas uma metáfora das lutas vitais. adorei te ler e te ver novamente. o tempo passa rápido demais. são vidas infinitas q temos de viver e esgotar antes de morrer. e quanto mais cheias estiverem mais a vida toda é uma delícia. espero q tua vida teja assim, plena. saudade. e beijo. com beijo especial com abracinho em poeminha."

alberto é uma das pessoas mais inspiradoras que eu já tive o prazer de conhecer. inspirador e inquietante. amo amo amo. 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

uma emoção

estive em campo grande, onde nasceu manoel de barros. esqueci minha máquina fotográfica e não tenho registro do lugar. pena. fomos para o eel - encontro de estudos literários da uems. fiquei com a impressão de que vou voltar. adorei as pessoas. de verdade. voltei mais cheia de luz, se é verdade que carregamos um pouco da luz das pessoas.  tão cheia de sonhos.  três ou quatro professores da universidade do estado do mato grosso do sul têm feito uma pequena revolução por lá. e uma revolução que nos pareceu - a mim, sandra, rosana e fátima - uma revolução amorosa. de quem ainda acredita no mundo da letras. e acredita, assim, numa educação para o humano. não disse, por pudor, mas queria ter dito a um dos professores que ele me emocionou como há tempos. e num ato involuntário, que é melhor ainda. eu já havia achado estranho terem tão prontamente nos acolhido, colocando-nos em mesa-redonda e minicurso, quando bem sabemos que em eventos desse tipo toda a atenção que se quer dar são para as "estrelas".  e nós, bem, nós somos professoras na floresta. e eu já disse em algum lugar como é comum pensarem que somos todas descerebradas. 

a emoção veio em razão de: uma pessoa que se parece com aquelas típicas dos anos 1970, deslocada num mundo em que os devaneios são como britadeiras no asfalto, foi um dos conferencistas do encontro, que imediatamente se transformou em um lugar para se ouvir uma voz dissonante. não digo que não fiz parte da plateia que, entre incomodada e desatenta, ouvia os lampejos de beleza daquele moço magro e barbudo, dizendo da dificuldade da travessia, seja da leitura, seja da literatura. 

bem depois, o professor que fez o convite a pessoa contou-nos, com um sorriso cúmplice, de que a conhece há anos. são amigos desde muitos anos. e foi assim que senti a emoção que por pudor não proferi. havia ali um amigo na sua concepção mais genuína. pois ele sabia do risco. sabia que o amigo podia ir por veredas estranhas ao público, sabia que a partir do momento em que ele estivesse com o microfone, os dois estariam expostos, como dois perdidos num deserto muito grande, como são todos os desertos. os dois expostos aos lobos da severidade. e mesmo assim, o amigo correu o risco. isso me fez lembrar que ainda é possível, num tempo precário como o nosso, num espaço regrado como o da Universidade,  gestos como esse, de pura transgressão, de pura aposta no dizer incomum. 

sim. acho que vou voltar. e acho que quero semear sonhos desse tipo. pois isso significa acreditar no humano, por mais diferente que ele pareça ser. 
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