5 mulheres para acompanhar os passos:
Há 10 anos
Neste sábado, no bar do Rui, reduto dos músicos de Porto Velho, ouvi do Guilherme Wisnick, filho do José Miguel Wisnick, que estava surpreso ao constatar que havia nesta cidade pessoas interessadas e interessantes em relação à música. Eu adorei a definição, e acho que é isto mesmo. Eu sempre tive vontade de escrever um post sobre estes músicos, o que ainda não será desta vez (acho que todo blogueiro pensa em vários posts que acaba não escrevendo! mas este farei em breve, prometo!). Porto Velho, a cidade que morei por 14 anos e onde sempre venho por conta de que minha irmã mora aqui, tem músicos maravilhosos. E o que é melhor: conheço alguns deles, sendo que ao menos dois deles são grandes amigos. E há outros queridos, queridíssimos. Cada noite em Porto é uma festa com muita música, seja na casa de meu amigo Binho, seja no bar do Rui, que acolhe todos estes músicos loucos. É uma grande confraria com muita "canja" e direito a bastão passando de pai para filho, como é o caso do Bado e Edgar. Vimos este último, filho do primeiro, virando músico aos poucos. E hoje é com um misto de orgulho e alegria que o vemos tocar seu violão com a alegria e sinceridade que já reconhecíamos no seu pai. E o que é melhor: todos são grandes conhecedores de música. Pesquisadores mesmo. É uma delícia. Enquanto o mundo reclama da vida, a gente se encontra para dar boas risadas, falar de música e, claro, beber muita cerveja até que alguém perceba que já estamos todos meio bêbados e é hora de irmos para casa. Foi em um ambiente assim que Guilherme se deu conta de que na Amazônia não se respira apenas "bumba meu boi". Aliás, aqui em Porto, todo mundo quer ser inclassificável e repudia um pouco esta história de "regionalismo". Canta-se a natureza, os costumes, as pessoas, mas em uma sonoridade que vai muito além dos temas recorrentes. A identidade é o mundo todo. Uma vez perguntei a uma amiga o que ela tinha vindo fazer em Porto Velho, e ela me respondeu: "Encontrar vocês, ora!" Esta também é uma boa resposta. Além de vir para cuidar da Jéssica, minha sobrinha-princesa- d*...-amadaalémdaconta, eu gosto de pensar que vim para conhecer estas pessoas, que são muito, muito interessante, meigas, carinhosas, lindas! Eu que não sei nem cantarolar, mas sou uma curiosa inveterada a tudo que diz respeito à música, fui acolhida por todos eles e a cada vez que aqui volto é como se tivesse sido ontem que nos encontramos. Neste sábado, foi lindo. Todo mundo apareceu no Rui sem que nem mesmo precisássemos combinar.
Eu vim aqui dizer que ainda não sei o que dizer da minha vida nova. Quando escrevi no post anterior, "Agora, vou para a Vida como ela é", falava dos textos de Nelson Rodrigues, mas também da minha própria vida. Explico: eu sempre achei - e disse por aqui - que o doutorado era um hiato. E foi como tal que o vivenciei. Vivi tudo e de forma muito inteira. Para além dele, é a lei do trabalho que sobressai. A lei da sobrevivência. Sem rendas, sem heranças e sem fortunas, todo hiato é apenas isto: hiato. Encontrar de imediato um emprego, ou retornar ao que eu tinha, era a lei imposta desde antes da defesa de doutorado. Era preciso sair do hiato, enfim. Abrir outras janelas. Foi quase por acaso que as abri, em um fim de tarde em que o horizonte era de impotência e espanto. Porque ninguém me diga que dinheiro não faz falta. Precisamos de grana para cuidar do outro, ou para cuidar de nós. E neste fim de tarde, uma voz que vinha de longe me pedia ajuda de forma muito cortante. Abandonei ali os planos de ficar em Sampa, ao menos, por seis meses, lendo, estudando, tentando concursos. E me apeguei à oportunidade mais visível, convicta de que era hora de voltar ao mercado de trabalho.
Para mim, Nelson Rodrigues é uma daquelas personagens comuns no meu - ainda vasto - buraco literário. Pensava sempre: “Devo ler”. E ia sempre adiando. Sua produção teatral também não me atraía o suficiente. Mas por quê? Simplesmente não sei. Sei que é o mais importante dramaturgo destas paragens, assim como sei da fama das suas crônicas. Eu tinha, e continuo tendo, curiosidade, mas algo sempre me afastava. Porém, colhia informações aqui e ali, atiçando minha curiosidade. E para começar escolhi o livro indicado pelo amigo Binho: O óbvio ululante, reunião da crônicas publicadas no Jornal O Globo durante os anos 1960 e que compõem o início do que ele chamou de Confissões. Acho que é um bom começo; ainda mais agora publicado pela Editora Agir, em uma edição caprichada. Antes de começar a ler, tinha visto “Senhora dos Afogados”, produzido pelo Antunes Filho, e gostado muito.
Nelson Freire é um duende. Eu que nada entendo de música clássica passo horas ouvindo-o tocar Chopin. Com o coração aos saltos, fui ouvi-lo de perto no Cultura Artística, na terça-feira, dia 6. Vinha de longe o meu desejo. A série era azul: o último programa foi 23 minutos de Chopin: Sonata para piano n. 3, em Si menor, opus 58. Tantos números compõem a minha emoção. Penso que não desgrudei meu olhar um minuto do seu rosto (impossibilitada que estava de ver as suas mãos) – e senti tanta emoção ao ver expressa no rosto de Nelson Freire sua emoção ao tocar. Foi difícil segurar os soluços. As lágrimas nem tentei. Meu coração estava sobressaltado e continuou assim por muito tempo depois. Na noite fria, eu sentia em mim tanta doçura, daquelas que apenas um verdadeiro artista pode nos fazer sentir. Não era felicidade o que me acompanhava. Era espanto.
Este foi o título do email que Marcos, meu orientador, mandou para mim três dias depois da defesa. Foi exatamente assim: uma verdadeira operação, mas não de guerra. Havia tanto amor vibrando no ar que acho difícil resumir o que foram estes dias. E o que foi este dia. Já disse mais de uma vez que preferia que ele não existisse. A espécie de confissão-inquisição que é a defesa de uma tese de doutorado sempre me causou um terror inominável. Então, não falarei da minha performance. As fotos que mostram meu corpo curvado dizem mais do que eu poderia dizer. Falo então daquilo que recebi, de toda generosidade que permeou meu terror. Muitos vieram. Minha família foi chegando aos poucos: Maneca, minha amada irmã de Porto Velho, foi a primeira a chegar. Passeamos pela cidade como quem ama. Fizemos comprinhas. Visitamos museus. Assistimos à peça de teatro. Minha amiga francesa Marie, que está morando em Porto Velho, chegou dias depois com a Jéssica, minha sobrinha. E pai e minha irmã Mácia chegaram de Fortaleza, depois de perderem o avião, no dia de viajarmos para São José do Rio Preto, onde foi a defesa. Não deu nem para sentir ansiedade pré-defesa, tamanho era o clima de festa que reinava. A viagem até lá, na companhia de todos eles e mais das pessoas daqui (éramos 14 ao todo), foi uma festa. Parecia que estávamos indo para um fim de semana no campo.
Meu pai vem para minha defesa de doutorado. Meu pai não entende de defesa nem de doutorado. Ele sabe que estudo, mas talvez nunca tenha parado para pensar porque estudo há tanto tempo. Sabe que vou ser “doutora”, mas não entende para que serve ser doutora em Letras. Nunca falamos sobre isto. Sei que ele sabe que serei doutora porque da última vez que estive com ele, na pequena cidade onde mora, que é a mesma onde cresci, me deixei levar mansamente pelo seu braço enquanto ele ia me mostrando às pessoas e dizendo que eu ia ser doutora e que estava indo para a França. Repetia isso a um e a outro: para o dono do boteco onde bebe suas biritas quando pode, para a mulher cheia de anéis do supermercado onde pendura a conta todo mês, para seu compadre que estava na calçada, para seu amigo mouco e para tantos outros que agora já não lembro. E o fez com um misto de orgulho, humildade e alegria. Eu me deixei levar em estado de mansidão tendo em mim o mesmo sentimento indefinível, não por mim, mas por aquele homem que me ensinou desde cedo o que é ternura. O que nos levava àquele dia nada mais era do que o estado de confiança e amor que sempre tivemos um pelo outro. Ele não acha que precise saber o que é doutorado em Letras, basta-lhe saber que é importante para mim; e isto é uma grande forma de confiança; basta que eu lhe diga que é importante para que ele me leve pelo braço, como a dizer: “Eis a minha pequena, ela faz o que não sei o que é e vai para onde não sei onde, e me diz que é bom, e nela acredito e por isso vos digo”. Quando lhe telefonei de Paris, em uma daquelas noites frias de delicadeza, ele me perguntou se lá votavam em Lula. E eu lhe expliquei que não – que lá o presidente seria um homem que não era bom como Lula. Meu pai nunca votou na direita e me disse uma vez que Lula era um homem bom. Por isso, perdoei a mim mesma de tal excesso de maniqueísmo. Ele é um homem que sonha e tem muitos mundos dentro de si. Cresci vendo-o falar sozinho. Quando criança não entendia por que muitas vezes ouvia minha mãe ou minhas irmãs mandando-o parar. Mas é certo que em algum momento desconfiei que não era todo pai que falava sozinho, mas aí já tinha aprendido sua lição: também passei a falar sozinha. Entretanto, sem a sua mesma coragem, aprendi a não mexer os lábios quando inventava histórias dentro de mim. A sua linguagem, até hoje invejada por mim, embora eu saiba que não serve para as demandas práticas da vida, nunca o abandonou e e é com ela que ele se diz aos bichos, às plantas e também aos homens. Suas frases esparsas pedem ouvidos meigos. Noite destas sonhei que ele era uma borboleta. O sonho me pareceu bem apropriado. Meu pai sempre cheirou suas flores, ninou-as, abraçou-as, dançou com elas e, quando uma única vez bateu em uma delas, pediu perdão com choro sentido. Desde agora faço planos de levá-lo ao cinema, ao Masp, andar com ele pela Sé, pelo parque. E mesmo se nada disso for feito, sei desde agora o que ele vai contar aos seus amigos quando voltar para casa: “Vi tanta coisa bonita...”. Pois os olhos do meu pai, embora turvados às vezes pela dor da vida, vêem tudo bonito.
ett, Bernhard, fica difícil me prender. Faulkner não me parece com nada e tem a “dificuldade” exata que me prende a um livro. Acho que ele é um hiato na linguagem direta, quase jornalística da literatura norte-americana. Talvez por essas razões, não caí de amores pelo livro de Fitzgerald, embora eu reconheça uma maestria enorme na construção dos diálogos e na descrição dos acontecimentos, exatamente devido à linguagem exata – uma linguagem que diz. É a forma direta que me exaspera um pouco. Tenho a nítida sensação de estar vendo um filme de Hollywood, daqueles que nos prende pelo enredo, pela perfeição técnica, mas que não é nada mais do que isto. O grande Gatsby, que inspirou o filme de Jack Clayton com Robert Redford, é do Fitzgerald, e quem o assistiu talvez entenda melhor o que quero dizer.A moçada no Sesc Pompéia prestigiando... Lotado, apesar de ter sido no mesmo dia do show do Ozzy Osborne que congestionou Sampa.
Eu tiete! Não basta ouvir, tem que comprar cd e pedir autografo...rs.
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E não tirei fotos da Miriam Maria, porque eles pediram para não tirar, mas o show foi de lágrimas nos olhos, uma vez que, na verdade, é uma performance com letras do Itamar Assumpção – que adoro com veneração – musicadas por Sérgio Molina, de quem comprei uns cds que ainda estou me decidindo o que pensar. A performance chama-se Sem pensar, nem pensar e ainda está rolando no Sesc da Av. Paulista. Miriam tem um cd belíssimo chamado Rosa fervida em mel que sempre escuto. A cada vez que ouço Reza, de Paulo Leminksi e Zeca Baleiro, na sua interpretação, um mundo inteiro passa por mim.Fotinha: eu e as meninas by amado.