sábado, 9 de abril de 2011

na escola

por um lado, um trabalho reflexivo sobre a escola de ensino fundamental e médio, por outro, um trabalho prático. e desde ontem, em que tanto se pensa, tristetriste, sobre o espaço da escola, começo a pensar no quanto ela se modificou desde a última vez que lá estive como professora - e nem faz tanto tempo assim, embora pareçam séculos. 

foi ali, professora, que eu aprendi a amar a balbúrdia escolar. e a não temê-la. não fui uma boa professora, tenho quase certeza. era uma menina - imatura, interessada em muitas coisas, entristecida com outro tanto, mas lembro perfeitamente de como tudo aquilo me empolgava. sempre fui atraída pelos rebeldes, pelos incompreendidos, pelos "problemáticos". não era diferente como professora. achava que podia "salvar" todos. que podia dar minhas aulas para adolescentes à beira da marginalidade sem, de fato, colocá-los em guetos. entendia perfeitamente a pulsão erótica que impregnava o ar daqueles meninos machões encolhidos entre a vontade de liberarem o amor pela garota linda e a obrigação de se firmarem perante os amigos. nunca senti medo perto de nenhum deles. nunca me senti ameaçada pela ironia, pela raiva, pelo desinteresse que constantemente os assolava. e ficava bem longe do ódio que fazia da sala dos professores o ambiente mais contaminado da escola. aquele ódio a jovens tão cheios de vida me parecia tão fora de foco. entre a frieza da instituição e a desordem da  alegria, eu não tinha a menor dúvida de que lado estava. 

e sabia dar aula de forma mais divertida, mais leve, do que consigo hoje. uma certa irresponsabilidade que perdi. uma certa leveza que o passar do tempo me roubou. e fico triste, realmente triste, ao constatar que o quadro agora é ainda pior. não sei se foram os jovens que mudaram ou se foi o ódio que exacerbou de forma insuportável. eu não sou ingênua. sei que os jovens podem ser bem malvados. mas será mesmo que são tão violentos assim? agora não se diz mais que um jovem é rebelde. dizem logo que é violento. pois eu acho que não. as suas posturas podem muito bem ser uma reação à ignorância, a incompetência, ao despreparo de tanta gente que os rodeia.  

de certo modo, são essas coisas que tento dizer aos dois alunos que acompanho agora num projeto de extensão. assustados e decepcionados com o que julgam ser um total desinteresse de boa parte dos alunos, vejo constantemente como se sentem tentados a repetirem os preconceitos tantas vezes repetidos. e o que tento é deflagrar a chama. é fazer com que vejam que o que há ali, no espaço da escola, é o humano em ação. o adolescente que nos olha com ironia  enquanto falamos é o mesmo que impõe o tom irônico na medida certa do poema de Leminski. será que não dá para perceber? eu acho que dá. basta estar aberto. basta usar a linguagem a nosso favor. basta sorrir que não faz mal a ninguém. basta perguntar o nome e ouvir suas histórias e compreender seus silêncios e suas balbúrdias. 

na verdade, eu me sinto de novo tocada por aquela centelha de paixão. tenho lembrado como é bom estar ali, no meio da moçada. e é isso. e ainda bem que é isso. as fotos não me deixam mentir.















sexta-feira, 1 de abril de 2011

dom quixote


Não há leitor que não carregue no seu imaginário dom quixote, o cavaleiro andante. Eu li há muito tempo. E já é hora de reler. Penso nisso sempre que olho para "os daqui de casa". Um eu comprei em Toledo, depois de percorrer de ônibus parte da região da Mancha. O outro compramos, os Tatus, numa feira em Fortaleza. Já combinamos que o próximo a fazer companhia aos dois será Sancho Pança.
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segunda-feira, 28 de março de 2011

sinuca embaixo d'água

antes de ler sinuca embaixo d'água, da gaúcha carol bensimon, eu li seu antigo blog, que ela escreveu quando estava em Paris. imaginei uma porção de coisas antes de ler o livro. imaginei mesmo que não ia gostar, embora tenha gostado bastante do seu blog - um certo encanto blasé que, na verdade, lembrara muito minha própria experiência em Paris. volta e meia a discussão sobre a figura pública do escritor adentra minha seara e, na época, uma série de questionamentos passava pela minha cabeça, do tipo: "será que preciso mesmo ler os livros dos escritores que "descubro" na internet?", mas como eu continuei a acompanhar a carol no seu novo blog - dromedário -, gostando cada vez mais da sua escrita, comprei o livro e o li na semana que passou. e não sei se eu já estava imersa em penumbra ou se foi o livro que me fez adentrar nesta espécie de dor difusa que é a perda de alguém, mas o certo é que gostei muito.

valendo-se de um artifício poderoso como o é a morte, carol faz um livro sobre o luto. sobre os sentimentos devastadores que se acumulam quando temos que conviver com a irreversibilidade da morte. e não qualquer morte, mas a morte de um amigo. em cada personagem que fica, a amizade incondicional por aquela que se foi. a dimensão terrível da presença de uma ausência. o pior é ter que lembrar que ela não está mais ali, como diz o irmão em certo momento do livro. o lugar da sinuca embaixo d'água já ruína antes mesmo de ser. 

é um livro que não conta exatamente uma história. há até um momento em que pensamos que se constituirá  um mistério, para mais lá na frente percebermos que é só mais um clímax frustrado, pois o que de fato se conta é o peso do momento na vida de cada um daqueles que perdem Antônia, cuja imagem  que se projeta é a de alguém que era a "alma" dos que agora sentem a dor da sua ausência - uma ausência que nunca é completa, porque há a dor do luto. não é que Bernardo, Camilo, Polaco e alguns outros não tenham vida "própria"; é o exato contrário. é como a trilha sonora que não para de tocar, embora, antes do tempo, pareça fora de moda. a vida própria fora do tempo.  

essa atmosfera só não é mais densa - ou tensa - porque Carol insiste em se fixar nas ações de cada um, em vez de esmiuçar o interior de cada personagem, o que não é um problema. fica a dor contida de cada um, sempre prestes a extravasar. a romper os diques. uma promessa que não se cumpre. como nos filmes de lucrécia martel em que ficamos esperando que algo de terrível aconteça para, no fim, nos frustrarmos de uma maneira inexata. não há nada (mais) para acontecer, porque o que havia de terrível para acontecer, já aconteceu.
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sábado, 19 de março de 2011

FALE






O FALE é um andarilho. É de muitos lugares. Apesar de o seu nome próprio – FALE – ser um imperativo, em suas andanças, quer reter a grande sangria do já dito que, em muitas situações, amordaça. A obrigação de falar do estudante de Letras, e também de outras áreas, exaustivamente repetida na Universidade através da fórmula “escreva com suas próprias palavras”, sem que se constitua nenhuma discussão sobre o significado dessa expressão, pode muito bem ser uma aterradora forma de silenciamento. De fato, a constituição de um discurso próprio só se faz quando, antes, amordaçamos os imperativos que repelem a diferença.  A verdadeira reivindicação do FALE, quando levanta a bandeira da pesquisa na graduação, é a de constituir sentidos novos à ideia de pesquisa. Nos dizeres de Lan Pacheco, “pensar a pesquisa como uma busca, para encontrar algo que faça sentido ou que traga um sentido novo e diferente no meio de inúmeras referências semelhantes”.   Não é pouca coisa querer trocar a ideia da ‘exposição’ pela de ‘reflexão’. Não à toa “o FALE é um evento rebelde”, que nasceu nas entranhas do curso de Letras com o intuito de abalá-lo, de revolvê-lo, para que dessas entranhas seja possível escutar a voz do estudante de Letras. Mais que nunca, diante das tantas demandas da Universidade, o imperativo do FALE quer vir acompanhado da responsabilidade de gerar novos sentidos à obrigação da fala.
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Este é o texto de boas-vindas do FALE,  que agora está aqui, tomando meu tempo, minha paciência, meu sono. E, sobretudo, me fazendo lembrar que é assim que se deve fazer Universidade. Sintam-se convidados, minha meia dúzia de leitores. E visitem nosso site, porque há ali muito de sonho, pois a matéria do GEPEC é o sonho. É o fazer.

desencanto

ando melodramática. como um cancro que demora. a gente se acostuma. o que me perturba, perturba mesmo. foi a vizinhança com a morte, talvez. ou talvez sempre foi assim. foi mesmo. eu quero poder duvidar. e ao mesmo tempo sentir que é possível acreditar. esta constante crise com as instituições. uma maré à revelia, numa luta surda, embora bem humorada e com longas tréguas. porque sou leitora de Kafka. porque prefiro amar gente - nem todas e nem muitas - a me devotar a algo que é uma laje fria. é porque acredito. e porque duvido. eu tinha muitas expectativas. e ainda as tenho. quase três anos depois, a empolgação é a mesma. mas atravanco às vezes. e expresso o meu desencanto, a minha dor, o meu cansaço. e choro. porque chorar não faz mal a ninguém. é meio ridículo, eu sei. vão me taxar de desequilibrada qualquer hora, se já não o fizeram. mas não me importo. prefiro isso ao equilíbrio frio.  lembrei de uma coisa ontem enquanto me balançava na rede com o Poeminha. no tribunal onde eu trabalhava, todo mundo se espantava com minha postura "nem aí". eu era visceralmente "trabalhadeira". e isso não combinava com minha postura "este não é o trabalho da minha vida". para contrabalançar, eu chegava atrasada, sempre com sono, por causa da insônia. e às vezes de ressaca, porque naquele tempo as noites eram longas e loucas. é que aquilo não me encantava. não me interessava toda aquela gente de plástico, apesar das exceções tão lindas que até hoje perduram. e hoje me vejo na mesma situação. mas a situação é totalmente outra. este é o trabalho da minha vida. e esta doença me empata a ressaca inevitável. mas vou dizer. assim, a dor é bem maior. como disse meu amigo, é que eu fico com vergonha das pessoas que, embora não sejam de plástico, se contentam. talvez sem o saber adotam o discurso mais fácil. e deixam de sonhar. e consequentemente tiram a vontade de outrem sonhar.
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quarta-feira, 9 de março de 2011

Quarto & sala etc.

Quarto & Sala sonha para o alto e avante. Com o bom morar, bom produzir, bom criar, bom trabalhar. Mira, atento, para a maneira que gira e funciona o universo ao nosso redor. Vê poesia na simplicidade e quer, bastante, se afastar da sofisticação boba que atenta ao luxo clássico.

decoração é algo de que realmente gosto. se eu tivesse bala no cartucho, teria uma casa m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a, daquelas de cinema (não de novela, que são sempre tão certinhas, tão caretinhas). eu espicho o olho pra blogs de decoração e volta e meia fico toda assanhada com alguma ideia. e quando viajo, compro revistas de decoração. voltei com uma debaixo do braço que falava sobre o dono de um blog de modo bem bacana. e a casa do sujeito, oh, muito  estilosa. fui conferir, então. é assim: ele fotografa casas nada convencionais e escreve um pequeno texto sobre elas. nada a ver com casas que aparecem nas revistas e, mesmo, na maioria dos blogs. não sei se eu moraria em nenhuma daquelas casas, mas fiquei feliz por elas existirem, se assim posso dizer. sabe quando a vida pulsa? pois é. livre de modismos, de tendências, de imposições. e se gostei, é porque penso que toda casa deve ser assim. eu mesma nunca terei uma casa clean. aqui em casa, tudo conta uma história. e eu tenho muitas histórias, amém. fotinhas do blog do moço, que ainda por cima é um baita fotógrafo de interiores.






terça-feira, 8 de março de 2011

eh samba

é difícil lembrar que é carnaval, a não ser talvez pelo fato de que, já em casa, minhaManeca veio me visitar, e estamos as duas, aqui, tagarelando há alguns dias, na malemolência típica de uma casa quando com visita. o fato é que o tempo faz as suas mudanças. e se sinto falta de carnavais antigos e imagino que ainda irei lá em Recife em carnavais futuros, a verdade é que estou absolutamente à vontade no meu "mundo vasto mundo". sinto-me em paz. isso parece bobeira - ao menos me parecia há algum tempo. mas de fato é bom estar em paz. é prazeroso.traço planos a dois. vivo a três e tudo me parece muito certo. oxalá perdure. não tenho tempo. mas os tempos me parecem bons. e eu pensei tudo isto enquanto ouvia um cd antigo do rômulo fróes, um músico que me cativou desde a primeira audição. há muita verdade no seu samba. muita doçura e muita dor. recomendo muito. qualquer um dos seus cds é uma experiência única, inclusive o último, onde ele tenta fugir do samba, sem conseguir, o que não é nenhum problema. "no chão sem o chão" busca outros ritmos, mas o samba, como um hóspede indesejável, está ali, atrelado a voz do seu músico. é bonito, verdadeiramente bonito. e mais não digo nesta tarde de sol frio.  

quarta-feira, 2 de março de 2011

longe da cria

Então é assim. É isso que sentimos quando deixamos a cria. Quando estabelecemos uma distância que o olho não pode ver, o corpo não pode tocar. Eu imaginei. E comecei a sentir, ali, quando o coloquei para dormir na noite anterior a minha vinda. O choro veio fácil, antecedendo a dor física que senti ao deixá-lo, ali, na manhã seguinte, com outra que não eu. Ele tocou meu rosto com sua mão delicada, uma, duas, três vezes, ao me ver chorar, e cravou aquele olhar em mim. Ficamos, ali, demorando naquele tempo de delicadeza. Fiz ele gargalhar para  espantar minhas lágrimas. No meio de um destes risos, ele se aconchegou em cima de mim, encostou a cabeça e dormiu. O nome disso é amor. Por isso, estou aqui, como diz aquela protagonista de novela antiga, toda amarrotada por dentro. Ele, não. Ele está se saindo melhor do que eu. Porque amo, crio Poeminha para amar pessoas. E ele ama. E me troca sem nenhuma cerimônia por estas pessoas. É verdade que à noite só quer a mim. Empurra o pai se acorda. E aponta lá pra fora para dizer quem quer. E se eu não venho logo, se levanta, e vai atrás. Mas de ser assim, de dormir comigo, de só dormir  quando nos deitamos juntos na rede e eu cantar ou contar histórias não faz dele uma criança dependente, chorona, frágil. De jeito nenhum. Ele chega mesmo a nos assustar com tamanha independência. Na possibilidade do primeiro braço, na primeira oportunidade de brincadeira, liberta-se de nós e vai. Abana os braços de felicidade quando chega no quintal da sua Bisa e nos dá tchau já de costas. Ainda bem que nos recebe de volta com o mais lindo dos sorrisos e com o mesmo abanar de braços. Um ano e cinco meses e nenhum resquício de insegurança, de medo. Sorridente, tranquilo, tartamudeador, teimoso quando quer, é assim Poeminha. E é por isso que estou aqui,  com esta enormidade de sentimento. Porque saiu de mim. E porque partilhamos esta vida, estou toda zonza de saudade, de falta, também do Tatu, não vendo nenhuma lógica em estar longe dele. Veja se pode uma coisa desta. Veja como é bom sentir este deslocamento. Tudo isso me faz cheia de espanto.
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

no avião

Escrito em 20 de fevereiro

acabei de ver a lua acima das nuvens, e lá embaixo, as luzes e o rio, provavelmente o tietê. puta lua. sim. aquele rio. e aquela vida que passou, e ainda bem que passou, e ainda bem que existiu. última fileira de um avião enorme. sem os pés na terra. destino: fortaleza. família primeira. missão: consulta no sarah kubitschek. a remota hipótese de que lá recupere mais rápido a minha força, que por ora continua longe das minhas pernas. mas para ser sincera, tudo que eu mais quero é que me mandem embora o mais rápido possível de volta para casa. e para minha vida – que vai muito bem, obrigada, apesar da resistência do guillain-barré em me abandonar. como em outras vivências, eu queria encontrar as palavras para dizer como é viver há sete meses com os pés dormentes, com este pouco equilíbrio e esta pouca força que mal sustém minhas pernas. e qual a exata sensação de quentura que me obriga, com ar condicionado ligado, a dormir com os pés fora do lençol. mas não. ainda não encontrei as palavras. porque não quero melodrama. busco palavras secas. queria encontrar a devida distância, algo como mudar de corpo para poder escrever sobre o corpo. e, no entanto, recentemente descobri que me fragilizo quando me exponho ao olhar das pessoas. e aos perigos das calçadas e, percebo agora, dos inúmeros batentes, buracos e desnivelamentos da cidade. tenho que fazer força para não chorar quando alguém, educadamente, estende a mão para me apoiar. ou o contrário, quando sozinha subo a rampa da universidade e me vejo no vidro da porta, aquela figura capenga, com as pernas meio tortas, que mal levanta os pés do chão e precisa caminhar muito devagar. ou quando, como hoje, tenho que agarrar o corrimão com as duas mãos para ter força de subir míseros lances de escada, seja dois, seja dez, seja vinte, que mais não consigo. palavras, quais. ainda há muitas lágrimas. tem isso, mas tem o casulo, a proteção. em casa praticamente esqueço que estou doente. cumpro minhas mínimas promessas. há exatos cinquenta dias trabalho todos os dias até altas horas. depois disso, quero entrar num ritmo mais feliz de vida. um ritmo que me permita namorar todas as noites ao menos uma horinha. um ritmo que me deixe ficar ainda mais ao lado do Poeminha. e das leituras felizes. então não cabe melodrama. há o corpo flácido, desapropriado que está da tal mielina, e isso me assusta um pouco. me faz soltar um “pronto, fudeu, agora tudo desabou de vez”. e sempre há os momentos críticos, como aqueles em que caí. e veio o choro sentido, bem alto, porque assim que é bom. tudo por causa de um reles tapete, ou por causa da imprudência da moça que não fixou direito as borrachas no banheiro da hidroginástica, o que me fez escorregar, bater a testa na parede, e aquela confusão de mãos procurando um apoio que só a cabeça encontrou. ou quando o sobrinho amado esbarrou sem querer em mim e caí feito um saco de batatas em plena rua. mas nada disso é motivo para que eu tenha piedade de mim. nem mesmo o fato de eu ter que me encostar na parede para ficar um minutinho com o Poeminha nos braços. tudo faz parte do contexto desta doença. e qualquer um que a tenha, ou a teve, passa, ou passou, por situações assim e, na maior parte dos casos, por situações bem piores. de fato, não há nenhum oba-oba, nenhum champanhe estourado porque estou viva. duvido que alguém que sinta a enormidade das dores que eu senti, aquelas facas espetando meu corpo no mínimo movimento, faça um oba-oba porque sobreviveu. ao menos, em mim, o que ficou foi uma perplexidade feliz e silenciosa, um agradecimento a seja a quem for. um dia destes, felizinha, aconchegada, num relance da sucessão de acontecimentos que levou a demora no meu diagnóstico, eu disse ao Tatu entre trágica e aliviada: “Tatu, realmente, se assim houver, havia uma força superior me ajudando, porque com tantos erros, como pode ter dado tudo tão certo? como pode eu não ter chegado a um estado mais crítico? como pode eu não ter morrido?”. depois, já deitada, me veio outro pensamento: e por que não dá o nome de Deus a esta força? nem que seja para agradecer a enorme corrente de fé que fez meu nome rodar o Brasil todo em inúmeras igrejas, em inúmeros templos, e fez que até mesmo a minha mana Morg – ela sim, religiosa – ofertar um culto em razão da minha lenta, mas gradual, recuperação? ora, então que exista Deus. que tenha sido ele a tramar para que eu tivesse uma mana Mácia. e que fosse ela a mover céus e terra para que eu fosse tratada. porque, talvez com a figura de Deus, seja mais fácil, para mim, continuar acreditando que estou aqui pra viver bem, pra ser feliz. e para poder ver de tão perto esta lua, aqui, no meio do vazio, a não sei quantos mil pés do chão. e para fazer parte deste vazio, desta fé que todas estas pessoas no avião deve sentir. porque só pode ser fé o que faz com que eu, e todas estas pessoas, aparentem tanta calma, assim, soltas no vazio.
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Poeminha, as coisas e a delicadeza

Poeminha está com um ano e quatro meses. Cada dia, uma delícia, um acontecimento. Ontem, eu gritei no supermercado porque descobri um dente no lado esquerdo. Tatupai já havia descoberto dois. Eh, eu sou lenta mesmo. E também ontem Dinalva, que está me ajudando nas minhas mil e duas tarefas em atraso, descobriu um bicho de pé. Eh, um bicho de pé. E não se fez de rogada: tirou-o. Enquanto eu e Tatupai olhávamos estupefatos. Mas o que me faz babar mesmo é o relacionamento que ele tem desenvolvido com os livros. E com as coisas. Aqui em casa é uma tranqueirada só. Esta mania de trazer o mundo para dentro de casa. E todo mundo fazia diagnósticos aterradores. Eu imaginava que decerto acabaria por inventar um método de flutuação de coisas. Poeminha se aproximaria e as coisas levitariam rumo ao teto. O fato é que não tirei nada do lugar. Nem o que achava que obrigatoriamente deveria tirar por segurança. Ao invés do sistema de flutuação de coisas, desenvolvemos paciência de Jó regada a encantamento do olhar. 
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É lindo de ver, acreditem. Ele é MUITO delicado. Pega tudo com uma delicadeza espantosa. Ele elegeu alguns objetos, e volta constantemente a eles, mas não é todo dia nem a toda hora: dvds e cds de uma ÚNICA fileira, livros de UMA só parte da estante, um ovo do Brennand, uma boneca africana que trouxe de Paris e uma gaveta com xícaras. E com todos esses objetos, são ele e sua delicadeza. Tira os dvds e cds para analisar minuciosamente. E carrega o ovo e a boneca para me entregar. A gaveta de xícaras para tirar uma de lá e pedir água. E com os livros, uma só página rasgada, e acidentalmente. Puxou de um jeito meio enviesado e rasgou. E, ainda assim, todas as vezes que folheia o livro de novo,  olha com pesar. 
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Não sei se tive sorte, ou o quê. Mas acho que tem sido uma educação a dois. No início, eu estava muito ansiosa. Não queria tirar os objetos imaginando que a mágica da flutuação seria bem mais interessante, mas não queria brigar a cada segundo caso não soubesse realizar a mágica. E, sim, impacientei-me. Qualquer mãe sabe que os objetos que elenquei aí em cima já são suficientes para uma bagunça bem bagunça. Mas agora estou muito tranquila. Sei que caminho junto com meu limite. E eis que descubro que está de bom tamanho. Sem gritos, sem alardes, sem sustos. 
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Talvez esteja dando certo, porque a ordem aqui em casa é trânsito livro pros seus brinquedos. Tudo, absolutamente tudo que é seu, está bem à mão. Em cada canto da casa, seu lar.
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sábado, 12 de fevereiro de 2011

Chegou aqui


Desde que a Livraria da Rose deixou de existir, nunca mais tive amor por nenhuma outra. Em Paris, com tantas livrarias charmosas, eu passava horas na Gibert Joseph, uma grande livraria que vendia "livros quase não usados" por preços muito vantajosos, mas que não tinha nem um banquinho pra sentar. Em São Paulo, todo mundo me falava do charme da Livraria da Vila - realmente muito charmosa -, mas eu nunca comprei um livro lá. Fazendo doutorado em formiga, eu achava os livros todos muito mais caros. Freguesa mesmo, eu era da Fnac. Na verdade, do site da Fnac, que quase sempre tem os preços mais baixos do que na loja. Eu ia na loja, garimpava livros e voltava pra casa pra comprar no site. Até hoje, é onde compro a maior parte dos meus livros. Só recentemente, ando me aventurando nos sebos virtuais. É por isso que acumulo bastante pontos. Neste mês, eu podia comprar um livro de até R$60,00. E fiquei como criança que pode escolher um presente. Tantos livros que eu queria - e outros que eu precisava. Fiz várias simulações, e não comprava nada. Fiquei como a personagem do conto da Clarice - a que não terminava de ler o livro só para poder ficar mais tempo com ele. Por fim, eu escolhi um que não precisava, mas que queria muito. 2666. Eu nunca li Roberto Bolaño. Mas como muitos outros livros pelos quais me apaixonei, desejei este depois de ver que tantos o desejavam - e o amavam. Não vou lê-lo agora, atolada de trabalho que estou, mas já folheio, assim, de amor antecipado. 

* É claro que eu sei que a Fnac vende livro mais barato por causa das leis perversas de mercado. Compra muito, então pode exigir preços mais baratos das distribuidoras. E compra muito, porque vende muito. Eu sou a favor de uma lei de regulamentação de preço de livros, como na Europa. Só assim as pequenas livrarias poderiam sobreviver. Mas também sou pobre, então enquanto as leis de regulamentação não vierem, não posso pagar de rica, só por utopia. 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

enamorada, emoldurada


estou enamorada. e não digo isso para simular felicidade. digo isso para expor minha tranquilidade diante dos desacertos. eu me sinto como esta menina - a quem amo -, caminhando decididamente para frente, por inteira aqui viva, disposta a abrir brechas nas miudezas cotidianas para acolher o porvir. E sabe por que? porque estou emoldurada de sonhos. e sonho junto com ele. ele. ou eles. que agora são dois. 
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Um jardim

Este jardim tem uma história bonita. Seu Emílio e D. Marlene tinham um sonho: quando se aposentassem, iriam morar em uma chácara. O que vemos hoje é o sonho realizado. Muito do que comem, eles mesmos cultivam. Os dois. Mas não há só frutos e legumes por lá. Há flores por toda parte. E a casa parece cheia, embora as filhas já tenham partido. Ontem, eu cochilei por lá, numa rede, enquanto a chuva caía e Poeminha dormia nos meus braços. Quando acordamos, ele deu uma cambalhota. E eu, fotografei as flores. 












* Seu Emílio e D. Marlene são os pais da Kotz, que agora, longe do jardim, longe de nós, seus amigos, começa com o Lobão uma nova vida. Muita sorte para eles
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O filho da mãe de Bernardo Carvalho

Eu já disse aqui como Bernardo Carvalho me mantém presa com a sua devida distância. Retorno sempre, curiosa sobre ele. Desta vez, foi O filho da mãe. E gostei. Eu li de um golpe, como há tempos não fazia. Não me distanciei do contrato que originou o livro: um mês em São Petersburgo e, a partir daí, escrever uma história de amor ambientada nesta cidade, no projeto  "Amores expressos", da Companhia das letras. 

Sorte e azar de Bernardo Carvalho. Dostoiévski esmiuçou todos os dramas humanos espalhando-os pelas ruas desta cidade. Para nós, só existe uma São Petersburgo, e por ela caminham os seres mais angustiados que jamais existiram. Fiz esta relação de imediato, quase sem querer, e talvez por isso não tenha me espantado com a narrativa de Bernardo que quase conta, deixando um pouco de lado aquele cerebralismo que não me deixa amá-lo totalmente. Não é que O filho da mãe seja uma narrativa linear; estão lá os volteios, as várias histórias, os enigmas, as lacunas. 

O que eu senti de diferente é que, neste, há mais sentimento ou, em outras palavras, melodrama - meu amigo Marcio achou o mesmo e, por isso, não gostou muito. Há aquela voltagem emocional que nos faz derramar uma e outra lágrima. Uma avó, a todo custo, quer tirar o neto do meio da guerra. O filho, insistentemente, quer falar com a mãe que lhe abandonou. Dois homens têm o encontro mais improvável que se poderia ter, e se apaixonam, e noite após noite buscam um ao outro também de forma improvável. Outros filhos, outras mães, marido. E uma Rússia, uma certa ideia da Rússia, arrastando a todos com a sua crueza. É mais ou menos isto - com um final rocambolesco, mas com passagens memoráveis.  

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Pensamentos insones

Minhas "mínimas promessas" nunca fizeram tanto sentido para mim como agora. Talvez eu tenha me enganado, e, de fato, algo de diferente em mim esteja vindo lá de dentro. Talvez porque não dê mais para ser como antes. Porque antes eu era imortal. Mas Poeminha tirou parte da minha imortalidade. E Guillain-Barré, a outra.
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Ora turbilhão, ora uma paz. 
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Pedro foi embora. E a casa ficou como que vazia. Poeminha procurou-o pela casa: "uh, uh, uh". E quando percebeu que ele não estava, franziu a testa, arregalou o olho e levantou a mão, naquele gesto de quando se perde algo: "aaaah". "Eh, filho, mesmo as pessoas amadas se vão".
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Ler Anna Karîenina tem sido maravilhoso. E neste ritmo que pausa arbitrariamente, então.... Clássico é clássico. Basta começar a ler para sentir uma volúpia; prazer puro. E por várias vezes nesta semana, me peguei pensando - com um meio sorriso nos lábios - de como é mágico ler um livro sabendo que ele foi escrito há mais de 100 anos (Tolstoi escreveu-o entre 1873 e 1876). A literatura nunca vai morrer. E a ideia de grande literatura, também não, embora... Embora seja tão démodé pensar este tipo de coisa neste mundocão. 

Geralmente, tem sido a primeira coisa que faço quando acordo. E durante o resto do dia, fico pensando no romance. Por vezes, é a técnica que me impressiona, e eu comento em voz alta sobre alguma parte, ora pro Tatu, ora pra Vovóziza, que tem me dado uma mão com o Poeminha, e eu, com a sua monografia. 

A primeira frase do romance é para nunca mais ser esquecida: "Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira". E o modo como Tolstoi nos faz saber do "clima" entre Vronski e Anna, muitas páginas depois desta primeira frase, é soberbo. Ao invés de narrar de forma direta, tudo se passa através da visão de Kitty, a "abandonada" ante tamanha paixão que recobrirá tudo a partir de então. Ela é atravessada, perfurada antes de todos. É este olhar atônito que acompanhamos.  Nada menos que genial. 

Várias outras partes são um assombro. É uma aula de romance, de como este era antes de ser "varrido", "deformado", até ser hoje quase irreconhecível como gênero. E de repente, eu fiz outra descoberta - que depõe contra mim: o que sinto falta em Bernardo Carvalho (que li recentemente), é do impossível, porque ele é nosso contemporâneo, e o que espero dele, porque ele é um bom contador de histórias, é menos peripécias, e mais HISTÓRIA - como se eu quisesse transpô-lo para outro século. Perdoe-me Bernardo, perdoe-me. Eu não sei o que sinto...
:) 
:)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Em frente à casa da infância

Foi assim.
Como os homens que amam as aves põem armadilhas para tê-las junto a si.
Para tirá-las do ar e tê-las, cantando, junto a si

Foi assim

E depois, guardassem aquilo em gaiolas, feitas
com a madeira da violência,
com a madeira da ternura, entrelaçadas
Diz-se disso: O homem é o mal, o amor é o mal

(Óserdespanto, de Vicente Franz Cecim)

Sim. Sempre achei mais triste do que alegre. Mas não nego::: era bonito. Um acordar dos dias com todos aqueles cantos. E quando fui em julho, ouvi de novo, senti de novo, aquela beleza triste dos dias. 









terça-feira, 18 de janeiro de 2011

25 páginas por dia

Eu escrevi para um amigo que, no nosso imaginário, quando uma pessoa escapa da morte, inevitavelmente, vai mudar - e para melhor, como se o dom da doença fosse levar todos os defeitos. E eu sentia agora em mim que não era bem assim. Jogar fora o que emperra parecia mais com  as promessas de ano novo, as que nunca cumprimos. 

Porque nossa casca não é uma mera peça de roupa. Está tudo entranhado. Os vícios e virtudes em sangria desatada. Daí que decidi me concentrar ainda mais nas pequenezas, mas dessa vez tentando aparar aqui e ali oqueatrapalha. Mínimas promessas: gastar menos, ficar muito perto do Tatupai e do Poeminha, ler mais os livros que compro, tecer dias bons. E assim caminho, ora sim, ora não.

Tenho lido obstinadamente literatura brasileira contemporânea. E tenho gostado. Diz-se disso ser mais responsável pelas minhas escolhas. Mas tem sempre o mas. Me danei a pensar que faltava algo. E com isso veio o desejo de ler livros comprados há muito tempo. Lembrei então do que fiz durante quase todo o doutorado: Um filme e 30 páginas de um romance nadaavercomatese por dia. Impossível repetir tal feito querendo ficar muito perto dos meus. Então adaptei. E assim nasceu o 25 páginas por dia. De preferência, literatura estrangeira. E ainda: volumoso. Porque são estes que nunca lemos quando achamos que não temos tempo. Fiquei tempão parada diante da estante pensando por onde começar. Opções não me faltavam.  Sempre comprei as melhores traduções dos livros clássicos acreditando piamente que os leria em seguida.  Engano doce. Por fim, decidi começar por Ana Kariênina, que na edição brasileira tem nada menos que 801 páginas. Fiz as contas e, se tudo der certo, terminarei de lê-lo daqui a 32 dias. Achei um tempo bem razoável. 

Comecei ontem. No entretempo, Bisa veio almoçar e eu tive que ir também, Tatupai deitou do meu lado e ficou fazendo dengo, Poeminha apareceu enciumado e tivemos que despistá-lo mostrando a máscara acima da porta. E ele haja pisar em nós para alcançá-la. Tudoaomesmotempo. Doce. Lindeza. Se rolar, escreverei as minhas impressões de leitura no correr dos dias. Sim. Sempre, e ainda por muito tempo, esta sede. Assim desejo. Com desejo.   

domingo, 16 de janeiro de 2011

Três

Três... 
E a luz do Nordeste.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

365 nuncas

Se eu pudesse, eu devotaria minha vida apenas às alegrias. Quando me sinto engolida pelos dias, e sempre tem estes dias, fico mal. A tal vida de ameba é, para mim, como uma traição ao sentido da vida. Por estas e por outras, amei a ideia deste blog: Stefania e Elisa resolveram fazer a cada dia, durante um ano, uma coisa que nunca fizeram antes. Nada mirabolante. Centelhas de vivências, ora delicadas, engraçadas, normais. Vale a visita - todos os dias. Hoje, por exemplo, elas fizeram/fotografaram pichações de giz pelas ruas.


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

La douleur excquise, de Sophie Calle

Procurei nos meus guardados os rastros de Sophie Calle e encontrei estas duas fotos tiradas em maio de 2007, no Pompidou. Não estão boas, mas acho que ajuda a entender o que escrevi anteriormente sobre o que faz falta no livro: a dimensão.



terça-feira, 11 de janeiro de 2011

As histórias reais de Sophie Calle

As histórias da artista plástica Sophie Calle perdem um pouco da sua força quando destituídas das enormes fotografias em que costumam estar em exposições pelo mundo afora. Foi assim que eu as vi, inicialmente, no Centro Pompidou, em Paris, e, depois, na Bienal de São Paulo de 2008. Talvez por isso, quando eu li o  seu livro publicado no Brasil, pela Editora Agir, intitulado Histórias reais*, eu não tenha achado nada demais, embora elas tenham me impressionado bastante quando as vi expostas. Acho que a questão é mesmo de suporte. Dizendo rasteiramente, no livro, as pequenas histórias, ilustradas por imagens, assemelham-se a postagens de blogs. Por mais ternas, inusitadas, engraçadas que sejam, não têm a força da arbitrariedade.

Dizendo rasteiramente, claro, porque o trabalho desta francesa, no campo da arte, é, no mínimo, perturbador. Trata-se de fazer com que a arte estabeleça cumplicidade com a vida, escondendo o máximo possível o intervalo que há entre uma e outra. E nós, ouriços, como que espiamos pelo buraco da fechadura da vida, quando, de fato, observamos performances artísticas. Tudo milimétrico. Um pequeno escândalo, tamanha proximidade. Eu vejo como que barreiras ruindo; tanto a vida como a arte movendo-se, cada uma no seu terreno, em corda bamba. 

E algo em Sophie Calle tremula entre a delicadeza e a ironia, tanto em relação à exposição da vida quanto à feitura da arte. E eu gosto muito disso. As imagens, se sozinhas, podiam fazer parte de um catálogo de fotografias. E os textos, de um livro de contos ou de poesia. Mas, aqui, a voz que se diz "eu" arrisca tudo na junção, porque ela é ao mesmo tempo autora e protagonista. E é com essa autoridade que ela diz tratar-se de histórias verdadeiras. É essa junção que causa nosso gesto, seja de proximidade, seja de repulsa. Quanto a mim, que sempre acho interessante quando não faz sentido perguntar o que é ou não da ordem da verdade,  gosto demais. 

* No original, Des histoires vraies.
** Esta imagem faz parte do livro.
:)
:)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Lista de impacto (cof,cof)

Se comparar com os outros anos, vi poucos filmes em 2010. Porém,  muito mais do que a lista do lado indicava. Deixei  de anotar muitos. Como não sou boa de guardar títulos, lá se foram muitos  para o escoadouro da memória. Mesmo assim, depois de ver tantas “listas de melhores”  nos últimos dias, resolvi fazer a minha também, a dos dez filmes que mais me impactaram em 2010. Não necessariamente os melhores. Alguns, eu até já tinha visto. Achei divertido olhar para meu “listão” e extrair dali os “10 mais”.  Não sei se para o crítico, mas para uma amadora como eu, o que acabou valendo foi o “tipo” de filme do qual eu gosto, ou seja, é o sujeito que se coloca na frente, comandando as expectativas, importunando qualquer objetividade. Então, talvez seja melhor ficar com minha ressalva do que com minha lista:   

Rio congelado [EUA, 2008], de Courtney Hunt
Valsa com Bashir [Austrália, Bélgica, Finlândia, França, Alemanha, Israel, Suíça, EUA ], de Ari Folman
Bastardos inglórios [EUA, 2009], de Quentin Tarantino
Vergonha [Suécia, 1968], de Ingmar Bergman
O homem que amava as mulheres [França, 1977], de François Truffaut
Tropa de elite 2 [Brasil, 2010], de José Padilha
A origem [Reino Unido, 2010], de Chistopher Nolan
Entre os muros da escola [França, 2008], de Laurent Cantet
E la nave va [Itália, França, 1983], de Federico Fellini
O silêncio de Lorna [Bélgica, Itália, Alemanha, França, 2008], dos irmãos Dardenne

sábado, 1 de janeiro de 2011

Para 2011, coragem


Saudações a quem tem coragem

Aos que tão aqui pra qualquer viagem
Não fique esperando a vida passar tão rápido
A felicidade é um estado imaginário
Frejat, Dé e Guto


Eu morri. Morri uma pequena morte em 2010. Não sei onde li sobre a impossibilidade de proferir a frase "eu morri". Acho que em Derrida. Mas em algumas ocasiões, talvez seja possível. Quando o fio de medo percorre seu corpo e martela, é ali que a morte está. Por um erro médico, quando minha doença, enfim, foi diagnosticada, eu morri. Senti o fio da navalha, meu corpo em pedacinhos jogado aos abutres. E não adiantou nada os médicos ao redor me tranquilizarem. Se um médico havia me dito que ter Guillain-Barré era definhar até morrer, era nele que eu deveria acreditar. Ali eu ainda não sabia o quanto um médico pode errar. Cada segundo daquela noite, eu senti medo. Esta doença me pegou lá onde morava a minha inocência e me arrancou de lá a pontapés. Por isso, eu faço questão de não heroicizar nada. Fui pequena diante da morte. E acho que tem que ser assim mesmo. É uma tolice deliciosa arrotar a ausência de medo da morte. Precisamos desta tolice quando a vida toda parece estar a nossa disposição. Quando parece haver tão pouco, fica apenas o essencial.  E apesar de amar tanto a vida, de querer tanto viver tanta coisa, durante toda a noite em que pensei que ia morrer, eu só conseguia me lamentar porque achava que não veria uma outra vida. A do Poeminha. E ainda hoje, quando o medo já passou, quando eu não morri, e resta-me da doença apenas a rotina enfadonha de um tratamento demorado, que vai me livrar das dormências e restaurar minha força, é quando olho para o Poeminha que mais agradeço por estar aqui. Durante a fase crítica da doença, eu devo ter clamado a Deus, mas não me senti injustiçada. Assustei-me horrores com as dores, mas achei que bem podia morrer mesmo, por que não?  Nunca, em nenhum momento, eu disse ou pensei: "por que comigo?". Talvez porque nunca vi doença como castigo. Morrer é o esperado. É o inevitável. 


Às vezes, eu devo ter pensado: "Vivo com amor à vida. E vivi intensamente. Já morei em Paris. E já fui em muitas cidades que 'arrebentaram minha retina', como Toledo, Praga e Rio de Janeiro. E morei em barraca na beira da praia,  sem um tostão no bolso. Já li Crime e castigo e só não terminei Em busca do tempo perdido por puro enfado. Já fui ao show da Björk e fui a Bruxelas só para ver Bob Dylan. E fui sozinha. Por amor à vida. Vivi belas histórias de amor. Tão aberta ao outro como não se pode ser. E agora vivo outra. Deixo mesmo no mundo um homempai. Um tatupai. E sobretudo, um filho. Tive um filho nas minhas entranhas. E já bebi grandes porres com os amigos mais queridos que se pode ter neste mundo. E escrevi uma dissertação, que renego, e uma tese, que admiro como Narciso. Então, eu deixo uma obra. E por isso, choramingo. Porque o que falta fazer não é da ordem do que não foi feito, mas da ordem do que deveria continuar fazendo". Eu devo ter pensado assim muitas vezes. 

Então eu desejo muita coisa em 2011. A minha meia dúzia de leitores, eu desejo sobretudo coragem. Coragem não para morrer. Mas para viver. Porque, diante de uma pequena morte, conta muito a vida que se vive. Conta muito a coragem. Não só ir em frente, mas ir sofregamente. Isso que o Poeminha ensina lá em cima. Ver o mar e sair em disparada para sentir o gosto do sal, o bater das ondas. Antes que algo ou alguém venha e lhe agarre.  Conta muito a alegria. Gostar de gostar.
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