terça-feira, 14 de abril de 2009

Palavrinhas à toa

Hoje li o post em que Caetano se despede no seu blog. Acho que não disse por aqui. Desde que descobri, leio o blog do Caetano. Ele fazia posts enormes. E tem milhares de seguidores. Eu nunca escrevi por lá. Mas pelo que lia, ele dava atenção a todos. Um incansável polêmico. Amo Caetano. Desde que o descobri. Gosto até mesmo das suas bravatas. Maravilha alguém ter coragem de dizer tantas - e de modo tão firme. Ele tem coerência nas suas incoerências. Muito mais interessante do que quem só tem coerência.

Eu leio muita porcaria na internet. Algumas pessoas ficam surpresas quando descobrem. Ou quando eu conto. Leio o blog da Luana Piovani há anos. Não indico porque não presta. Mas leio. E fuço os blogs das estrelas, o tal do bloglog (não à toa falei sobre eles na apresentação da minha tese), embora só leia o do Pedro Neschling, Washington Olivetto e às vezes o do Boni, quando ele escreve sobre viagens. São os únicos passíveis de leitura. Os outros são umas tontices sem fim, sem contar no constante assassinato à gramatica! Tem os humoristas. A minha sobrinha diz que são legais, mas eu não gosto muito de humor. Só quando estou vendo - esta é outra das minhas maluquices.

Halem (que anda bem falado por aqui!) comentava dias desses sobre os blogs afetadinhos. Não foi esta a palavra que ele usou. Mas é por aí. Realmente tem muitos. E se justifica. Todo mundo quer ser sabido. Acho justo. Melhor do que querer ser néscio. Sei que ele não falava sobre meu blog, mas eu expando os pensamentos via umbigo e me vejo perguntando se sou "afetadinha". Acho que sou. Mas não tento falsear. Assim espero. Sou curiosa. Sendo assim, eu sei um pouco sobre um bocado de coisa. Mas não tenho memória. Esqueço a outra metade. Se um casal de amigos chega com um filme embaixo do braço e eu acho que é ruim, eu cometo a indelicadeza de dizer. Se tiver naqueles dias muito sem noção, acrescento que não gosto da ideia de perder tempo. E os faço assistir a um filme de Wong Kar Wai que o amigo acaba por confessar que, para ele, não é sequer suportável. Eu me faço de sonsa e vemos o filme até ao final. Ainda bem que depois tem pizza.

Mas eu não poso de intelectual. Talvez de esforçada. Escrevo sobre o que me interessa. E procuro viver com o que me interessa. Só quem me interessa, eu já dizia há um tempo neste mesmo espaço. Não vejo novela há anos. Sequer tenho o canal da Globo aqui em casa. Na minha outra casa, tinha. E eu encrencava com minha amiga porque ela via. Agora ela me diz que não ver mais. Cansou. Mas às vezes eu via as do Manoel Carlos, que são melodramas para lá de óbvios. Mas justifico dizendo que ao menos têm coerência. Melhor que as de Gloria Perez que sempre me pareceram uma coisa terrificante. A última vez que vi qualquer coisa desta autora foi logo depois que a filha dela morreu. E ela fez umas cenas em que Cristiana Oliveira era torturada em um porão... ou qualquer coisa assim. Passei a achar que ela era meio louca. Mantive-me à distância. Também nunca vi um Big brother. Tentei ver um para tentar entender a razão de todo mundo ver. Mas, sem pose, não consegui. Não sei exatamente as razões do meu afastamento da programação da TV. Eu adoro filmes, mas nenhum programa, por melhor que seja, me pega mais.

Porém, como eu ia dizendo, gosto de muita porcaria na internet. Isso não é bom nem ruim. Talvez mais para ruim, se pensar no fator tempo. E acho que estou contando isso aqui para não ficar com cara de "afetadinha" demais. Estas, geramente, são pessoas chatas. Às vezes, eu sou chata, mas o que gosto mesmo é de ser vista como uma pessoa bacana. Quer dizer, antes eu queria ser bacana para todo o mundo. Agora, desencanei. Só para os que me interessam. Será a tão falada maturidade? Ou mais um aspecto "afetadinho? Enfim, difícil saber o exato de todas estas questões, mas bem excitante pensar sobre elas.
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sexta-feira, 10 de abril de 2009

Reflexões para nada

Halem, ao comentar que o mundo das artes está muito distante da maioria das pessoas, me fez lembrar da minha reação ao ver a exposição de Farnese de Andrade, no CCBB-SP. De tão impressionada com o que vi, veio-me uma revolta por nunca ter ouvido falar de Farnese. Eu perguntava: "como temos um artista brasileiro como este e ele é praticamente desconhecido?". Infelizmente, este desconhecimento não diz respeito apenas às artes plásticas. Eu e Mari sempre comentávamos, observando nossos amigos e conhecidos de doutorado, que a Universidade gerava conhecimentos específicos, mas não gerava apreciadores de cultura letrada. Ou gerava muito pouco. Em cursos como os de Linguística e de Literatura, parecia-nos surpreendente que houvesse tão poucas pessoas interessadas no caldo cultural que estas áreas parecem trazer na sua essência. Concluíamos que isto é resultado da nossa educação, sempre tão tacanha em relação a tudo isso. Professores não podem nos dar o que eles não carregam consigo: o apreço por uma boa música, um bom filme, um bom livro. Uma boa parte é consumidor apenas de novelas e de livros de autoajuda. Não que isto seja errado, mas é muito pouco diante do que temos diante de nós quando nos interessamos por outras "inutilidades", como costumo chamar ironicamente.
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Com os hormônios de grávida a todo vapor, dias desses, em uma das minhas aulas, tive um rompante de ira. Uma ira controlada 24 horas atrás das palavras certas para expressá-la. Só quem dá as literaturas iniciais em um curso de Letras, numa cidade com uma monocultura como a que trabalho em que não há nada além do que o interesse pela música brega, pode saber o quão é difícil chamar a atenção dos alunos. Para mostrar-lhes que Chico é "trovador moderno", que sua música deve muito à cultura portuguesa, levei um DVD com ele andando pelas ruas de Lisboa e falando sobre a relação literatura-música. Enquanto o DVD rolava, era nítido o desinteresse da maioria dos alunos. Foi a gota d'água. Que não prestem atenção nas minhas aulas falando de poesia trovadoresca, vá lá, é até compreensível! Mas que não tenham apreço por uma belezura assim (nem que seja pelos olhos do Chico!!!) me pareceu incompreensível. Os hormônios encontraram a seguinte saída: disse-lhes que a partir daquele dia eles tinham presença garantida nas minhas aulas para me evitarem o dissabor de ter que presenciar tanto desinteresse. Acrescentei também que não tinha problema com quem não sabia, mas que tinha enorme problema com quem não queria saber, pois eu não sabia muita coisa, mas sentia enorme vontade de saber; que mesmo em uma cidade com tão poucas atividades culturais, eu estava sempre procurando o que fazer, senão eu começava a me sentir uma ameba - ou pior, uma vaca pastando. A "ameba" e a "vaca", embora possam parecer palavras advindas dos hormônios, não o são. Eu sempre pensei que é para fugir da mesmice que nascemos gente. Senão poderíamos ser ameba, vaca, um bicho qualquer, que, a nossos olhos, fazem sempre o mesmo.
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No entanto, depois de todo desabafo, sempre procuramos apaziguar nossa decepção em relação a nós mesmas - que não conseguimos incentivar de maneira eficaz - e em relação ao outro, que está cagando e andando para esta tal educação humanista que insistimos em acreditar que vale para algo. E me vem a certeza de que este despreparo todo que o aluno leva para o ensino superior não é culpa deles. Voilá! Falemos em "sistema", mas não como algo abstrato, mas como algo pulsante que reproduz incompetências em todos os âmbitos. Ou alguém acredita que estes alunos, daqui a 2, 3 anos estarão preparados para irem à sala de aula ensinarem língua portuguesa e literatura as nossas crianças? E a crianças de amanhã? este círculo vicioso é o que me espanta e me choca. Quem escapa dele?
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quinta-feira, 9 de abril de 2009

momentos antes

rituais. alguém escapa deles? me preparo para escrever sobre o que não gosto. busco uma linguagem para o que não gosto, mas a certeza de que os futuros leitores também não gostam nem gostarão me atrapalha. talvez um dia deem de cara com saramago, cardoso pires, antonio lobo antunes, se tiverem sorte. para me consolar, lembro que vou ganhar uma boa grana. o que parece ser uma boa grana. penso no quarto do bebê. aquele, como tenho imaginado. talvez assim a escrita flua. ser um prostituta eventual das letras tem lá seu charme. alguém pagando pela minha escrita não soa tão mal. miles davis para acalmar. a arrumação da casa não serviu desta vez. só para sentir falta do que falta. sinto falta da coca-cola. de um armário de cozinha, de um sofá. talvez seja apenas a tarde quente. muito quente. vai chover, é quase certo. talvez um chá. ou esperar a chuva cair. ou simplesmente começar a escrever. talvez começar assim: "talvez vocês estejam se perguntando o por que de estudar literatura portuguesa clássica e medieval. eu mesma me pergunto para que ensinar. uma boa resposta talvez seja que a literatura é um moto contínuo; quanto mais entendemos seu passado, melhor lemos o seu presente". seguir por esta linha, tentando manter a relação com o presente. que se foda quem vai ter que dar aula a partir do que eu escrever. pior seria se fossem os alunos a se foderem. sim, vou começar. tirar os "talvezes". lembrar de colocar as maiúsculas. e misturar as cantigas trovadorescas com as canções do Chico; as crônicas de Fernão Lopes com as de Nelson Rodrigues; Camões com Drummond, Caetano e Haroldo de Campos - fazer a máquina do mundo girar. e dar um pontapé nesta ementa. um pontapé de leve. quando eu achar que estou exagerando, retroceder um pouco. mas manter a linguagem viva. sim. manter a linguagem viva. lembrar de Barthes escrevendo sobre Racine, Loyola, tão ou mais apaixonado pelo passado quanto pelo presente.
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sexta-feira, 3 de abril de 2009

Meu amor pelas artes plásticas

Enquanto zapeávavamos países da Europa pelo mapa do Google, sonhando com o dia em que faremos uma viagem a três (sonho talvez nem tão distante), eu dizia ao Ney que quando moramos em Paris, nem que seja por um curto período, como é o meu caso que passei um ano, mudamos a nossa relação com a arte. Acho que chegamos a este assunto por que eu tentava diminuir minha culpa por ter comprado alguns livros de arte quando tinha jurado que não compraria nenhum livro até pagar todos os que já comprei nos últimos meses. Não sei se essa mudança ocorre com todos. Mas posso afirmar que ocorreu comigo.
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Antes, eu não era totalmente alheia às exposições que ocorria em São Paulo. Lembro de uma manhã inteira perdida nas ladeiras da Vila Madalena para ver uma exposição do fotógrafo Robert Mapplethorpe ou do meu assombro ao ir ao Masp pela primeira vez, onde já voltei inúmeras vezes. Mas foi em Paris, e em cidades da Europa, onde realmente criei o gosto de apreciar obras de arte. Eu quase me arrisco a dizer que passei mais tempo em museus do que em bibliotecas, que por força da minha pesquisa era onde eu deveria estar. Visitei quase todos os museus de Paris, alguns mais de uma vez, além de muitas galerias e inúmeras exposições temporárias. Sem contar o Pompidou, que era minha "sala de estudo". Quando me cansava de pesquisar, ia dar uma volta nas exposições. E em todas as cidades que visitei, os museus eram prioridade. Fui a Madri, sem ter mais um tostão no bolso, apenas porque descobri que era lá que tinha a coleção mais completa de Bosch. E chorei diante do
Jardim das delícias e também diante de Guernica, de Picasso. Outra emoção indefinível foi ver os inúmeros quadros de El Greco em vários lugares de Toledo. E tendo ido a L'Orangerie, em Paris, para ver os nenúfares de Monet, como todos fazem, eu saí impactada de fato pelos quadros de Cézanne e sobretudo pelos de Soutine, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Em Londres, viajando com dois artistas plásticos, praticamente não vi a cidade. Foi um entrar e sair de museus. A Tate Gallery me pareceu feia por fora, mas o que há dentro dela vale a volta a Londres muitas vezes. Aliás, visitar museus com a Adriane, uma dessas artistas, eram momentos de rara beleza. Lembro de um dia estarmos em Estraburgo e eu e Mari fazermos um comentário sobre uma obra que, basicamente, era uma espécie de varal onde se encontravam pendurados panos de tons beges. Mari falava da dificuldade de ver beleza naquele tipo de arte. A explicação simples da Adri, ao nos mostrar que a dificuldade residia no fato de a imagem ser um objeto, e não uma pintura emoldurada em um quadro, mas que havia ali seleção de objetos, volume, leveza, nuances nos tons em bege tal e qual em uma pintura, me deixou fascinada. Para mim, que intuitivamente sempre gostei mais de arte contemporânea, foi uma espécie de revelação. Foi apenas em Roma, muito mais do que no Museu do Louvre, que sempre me causava uma espécie de saturação, que me senti próxima da pintura clássica. Lá fui a museus, igrejas, galerias, às vezes, apenas para ver uma pintura. Foi lá que tive a sensação de estar em uma cidade muito antiga. Sem a política de restauração e preservação de Paris, sem a sua riqueza ostentatória, Roma pareceu-me por inteira uma imensa obra de arte corroída pelo tempo.

Entre as muitas caixas de livros que enviei ao Brasil, boa parte delas continha livros de arte (lá muito mais barato do que aqui). E o certo é que eles não viraram peças de decoração. Tem sempre algum que estou lendo; e os leio com o mesmo prazer com que leio um livro de literatura. Daí por que, desde que voltei a trabalhar, tenho aproveitado todas as promoções dos livros de arte da Cosacnaify. Tem chegado aqui cada preciosidade!
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Eu não tenho nenhuma pretensão de entender de arte; tenho dificuldade em memorizar os movimentos, que para mim são incontáveis, daí talvez porque eu pense mais em artistas. Gosto de muitos. Evidentemente, por não ter um conhecimento profundo, assim como ocorre com o jazz, eu acabe conhecendo aqueles que têm um nome mais reconhecido. Porém, nesta miscelânea, eu já consigo identificar muitas das razões por que gosto mais de alguns artistas do que de outros. Tenho, por exemplo, fascínio por Francis Bacon, que não conhecia antes de conhecer a Adri. Assim como mantenho intacto meu amor por Schiele, Bosch, Gauguin e Modigliani, que vem muito antes do meu amor pelas artes plásticas. Gosto demais de Robert Rauschemberg, Louise Bourgeois e Cindy Scherman, que também vi em exposições em Paris. E gosto de Farnese de Andrade, Ernesto Neto, Leonilson e Cyane Pacheco. Exceção, talvez, de Gauguin e Modigliani, todos estes artistas têm algo de grotesco nas suas obras. Possuem algo de perverso, de doloroso, de abjeto.
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Sim, definitivamente, meu olho se emociona diante de tanta beleza - seja estranha ou não. E , na verdade, não sinto culpa alguma ao ler um livro como o que leio agora: "Reflex: Vik Muniz de A a Z". E só o leio agora porque ainda sou do tipo daquelas gentes que têm coragem de gastar seu dinheirinho suado com estas inutilidades que servem apenas para isto: emocionar.
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Foto: Eu nos quartos de Rafael, no Museu do Vaticano, by Mari.

terça-feira, 31 de março de 2009

As faces de Arthur Omar

"Os anjos não vêem as trevas, porque sua visão é uma orgulhosa luz da força divina".
Jacob Boheme (1565-1624), na primeira página do livro de Omar.


no tempo da máquina digital, em que qualquer um faz fotos borradas e pensa que faz foto artística, talvez as fotos de Arthur Omar causem menos impacto. Desconfio que comecei com uma generalidade mentirosa. Recomeço. Não é apenas na imagem meio
flou que está a singularização destas fotos. É uma verdade muito maior, mais visceral, como se nestas 3x4 (gigantes nas exposições) o que ocorresse fosse uma violenta confrontação. Omar descobriu que é do rosto que não podemos fugir, seja do nosso, seja do dos outros. E, antropofagicamente, engole a alma dos seus fotografados. pois o rosto, que é matéria, transcende para o misterioso, virando alma. Daí a razão de pressentirmos o espanto congelado nestas faces, embora a sensação de movimento seja enorme. A elas, deu um nome: faces gloriosas. E criou uma teoria. Mas não quero saber da teoria. Prefiro ficar com o mistério, buscando entender o flagrante da tristeza na face preparada para o carnavalesco. Não um carnaval atual, dos camarotes vips, da monocromia pálida dos abadás, mas daquele que existe apenas no nosso imaginário, tão antigo como nossas mais remotas lembranças. O fato é que o preto e o branco, tal e qual nos mostrou os grandes mestes da arte pictórica, contracenam no mesmo espaço para criarem uma outra cor, disputando cada entranha da face, deixando, ali, congelado, todo um lastro de alegria e sofrimento - a matéria de que todos somos feitos e trazemos estampada em cada uma das nossas linhas. Mesmo as máscaras não simulam nada; estão ali como suplemento ao mistério.

Massagem na parte superior da alma que dá para os fundos

rainha da noite com alfinete de luz

o minotauro


































Leite Zulu para harmonia química nacional
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Obs.: A primeira vez que vi as fotos de Arthur Omar foi em uma exposição em São Paulo. Já não lembro onde, nem o ano. Ficou-me apenas o espanto das fotografias gigantes.

Agora, vejo-as no livro: OMAR, Arthur. Antropologia da Face Gloriosa. São Paulo: CosacNaify, 1997.



des cadeaux


chuvinha lá fora. médico super gentil dando uma tranquilizada geral. escrita em parceria que deu certo. emoção sentir os "dedos" pensando outra vez. finalização de projeto. dedos cruzados. grupo de pesquisa registrado e funcionando a todo vapor. planos planos planos. continhas quase equilibradas. pé na estrada à vista para desequilibrá-las. primeiro carrinho zero. peixes deliciosos. vicky cristina barcelona. milk. os girassóis da rússia. felizes juntos. entre les murs. "poeminha" crescendo seguro no seu balanço imaginário. enjoo quase passando. muito assalto à geladeira ao fogão ao armário. palavras bonitas daqueles que amo. marie no meio da tarde. tio no meio da noite. irmãs sempre me procurando. dostoiévski goethe bernardo carvalho cristovão tezza - livrinhos lidos e sendo lidos. livrinhos de arte comprados no último minuto. a prova de que sou uma menina levada e impulsiva que esquece logo no segundo teste de fogo a alegria de continhas equilibradas. ele por aqui a regar nossas flores. flores de verdade a perfumar a varanda. a cuidar de mim. cuidado de verdade. e música bem alta para acompanhar a chuvinha lá fora.
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não é sempre. mas às vezes o presente é um presente.

domingo, 29 de março de 2009

as dobras

leio um livro e quando vejo meus olhos estão marejando. vem uma emoção. é Le pli, de Deleuze. não é romance, nem poesia. é um livro "teórico" sobre o barroco. mas depois de tanto ler sobre o barroco - livros técnicos, cheios de informação, vem esta emoção. não é à toa a fama de pensadores dos franceses. esta preocupação com as palavras, e não apenas com a informação. a poesia no meio da pedra. brotando da pedra. como as dobras do barroco que, no seu livro, estão em lugares inimagináveis.
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talvez seja isto que eu procure em todo e qualquer livro: a dificuldade criadora; o pressentimento de que o não entendimento completo vem da riqueza do que está ali, latente, cabendo a mim completar o dito. as reticências que não são bem reticências. são dobras. uma frase dizendo mais de uma coisa. daí, a emoção. o livro bem ali na minha estante, meio esquecido. e na tarde chuvosa, a leitura. e este sentimento que se desdobra em outros, em outros em outros em outros...
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segunda-feira, 23 de março de 2009

Sobre Cony, sobre...

Influenciada pelo meu amigo Halem, do blog Sinistras bibliotecas, nestes dias eu li Carlos Heitor Cony e Bernardo Carvalho. Do Bernardo falo depois. Na verdade, eu sinto uma baitainveja do meu amigo Halem. Creio que já disse isso a ele. Mas com o cuidado de dizer-lhe que minha inveja é sempre branda, daquela que não faz mal a quem é dirigida. Pois tenho inveja porque ele é um puta leitor de literatura brasileira. E eu, vá lá, sou uma leitora sofrível da ditacuja. Para ser mais sincera ainda, quanto mais leio, menos gosto. Aiai, ok, eu já citei aqui meus escritores brasileiros preferidos - e são muitos, apesar da minha rabugice. No ano passado, tive o prazer de acrescentar mais um, que foi nadamaisnadamenos do que Machado de Assis, que nunca tinha lido direito. Por conta de uma disciplina na Universidade, li sistematizado vários dos seus livros. E foi um deleite. Era um período conturbado, infeliz, e posso dizer que Machado foi um achado, para usar esta rima semvergonhazinhadetãoóbvia. Porque é aí que eu quero chegar, na minha desconfiança de que a literatura brasileira sofre do mal da obviedade, sem quase nunca chegar àquilo que realmente esperamos de uma grande literatura.
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No fim do doutorado, atrás de um rumo que quase um ano depois ainda não encontrei, decidi-me leveefaceira especializar-me em literatura brasileira contemporânea - porque se tem algo que gosto menos do que a literatura brasileira é a tal da nossa literatura de formação. Salvo uma e outra exceção, a meu ver, literatura no Brasil só a partir do modernismo, e ainda fazendo uma limpeza bem grande. Meu plano segue, cochomoledevagar, mas segue. Tem até seus devidos afunilamentos, e a relação entre biografia e ficção é uma delas. Daí, claro, com o empurraozinho do Halem, eu ter chegado a Quase Memória, do Carlos Heitor Cony, que promete ser um misto de ficção e memórias relacionadas ao pai do autor. Digo isto para não pôr a culpa por inteiro no Halem - porque depois de todos estes volteios, é lógico que não me resta dizer outra coisa senão declarar o que agora é óbvio: que eu não gostei do livro. Direito meu, penso aqui entre meus vômitos. Dá vontade de agir como uma menina birrenta e dizer: "Não gostei e pronto. E ninguém me obriga!" Mas, vejam, o meu ganhapão vem justamente do fato de eu ser professora da tal ditacuja! Vivo repetindo a mim mesma que não adianta nada eu ser uma ávida leitora de outras literaturas se não souber o beabá da que eu sou paga para saber! Mas eu me pergunto também: a crítica no Brasil precisa ser tão tacanha? Precisa eleger ao panteão qualquer borrabotas que saiba contar uma boa história - certinha, esquemática, previsível? Tudo bem, não estou chamando Cony de um borrabotas. Estou quase. Mas quase ainda não é chamá-lo. Assim como o Quase memória dele não sai de um quase, eu fico por aqui. Ele é um ótimo escritor. É jornalista de formação, todos os pingos nos is, o que neste país de poucas linhas já é muito. Mas não é o bastante. Quase memória ganhou o prêmio Jabuti de melhor romance no ano do seu lançamento. E o Jabuti, vocês sabem, é o prêmio mais importante destas terras, que faz, entre outras vantagens além da financeira, com que o ganhador obtenha um razoavel destaque nas mídias tupiniquins, fazendo com que um e outro se interesse pelo livro etaletal. Mas Quase memória não é um bom romance nem aqui nem na china nem. No máximo é, como disse Halem, um bom anedotário. E deveria ser, dentro da obra deste autor, aquilo que os franceses chamam de "obra menor". Custavam ter dito isto? Deve custar, afinal "tantos anos que Cony não se aventurava pelo romance", agora vem com este "livro comovente", "ponto alto na produção literária brasileira". Poupem-me! É o que dá dar atenção à crítica de livros! (esclareça-se: não foi o Halem quem disse isto, mas está na contracapa do livro para quem quiser ver). Injuriada, eu fiz questão de ir até ao fim, porque, debilitada fisicamente, eu precisava mesmo ler estas histórias engraçadinhas, assim como qualquer cidadão médio deve precisar de uma novela como Caminho das Indias. Porém, se por acaso tiver um grau de exigência mais apurado, certamente não encontrará muito neste livro nem em Caminho das Ìndias - anedotas. No caso do Cony, bemfeitinho, bemescritinho, engraçadinho, mas só. E ponto.
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quinta-feira, 19 de março de 2009

espanto

o primeiro espanto é o do corpo. antes de qualquer racionalização ou emoção. os seios que parecem querer saltar é apenas o mais visível do espanto. uma pequena revolução parece se fazer à revelia. o que chamam de enjoo é mero eufemismo. sinto um mal-estar geral. e a vontade de ser uma grávida espevitada não é alcançada. um dia, penso: sou aquela que hospeda. não qualquer hospedagem. mas penso naquela teorizada por Derrida. uma hospedagem tão plena que desapropria. uma hospedagem incondicional. e a casa é o meu corpo. por isso, reage. parece querer expulsar este estrangeiro que chegou - sem avisar. vomitar parece ser o caminho escolhido da expulsão. por outro lado, como aquela que hospeda, também me agrada pensar que é o contrário que ocorre: o que o corpo tenta expulsar é o acessório, o desnecessário, o dispensável, para que o lugar fique por inteiro confortável para aquele ou aquela que chega. a imagem de um bebê boiando no que parece ser um vácuo dentro de mim parece confirmar as minhas suspeitas. ignorando todo mal-estar, toda lezeira, e até a dorzinha no pé da barriga que assombram a mim e aos médicos, ele ou ela desliza para lá e para cá num balanço imaginário. o coração parece uma estrela. como marinheira de primeira viagem, custo a saber que aquela estrela que pisca é o coração. digo frases que soam muito engraçadas mas são espanto: "parece um bebê mesmo!" e o médico, acostumado a estas leseiras, sorri e afirma enfático: "é um bebê!". sim, é um bebê, embora com leve aparência de girino, lembra o pai para não perder a piada diante daquele cabeção. e por falta de nome, e para espantar a impessoalidade, passamos a chamá-lo de poeminha. o poeminha ou a poeminha. e eu, a morada.
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segunda-feira, 9 de março de 2009

Um rebento


Pela manhã, eu chorei.
À noite, ganhei a flor com a chupeta.
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Depois, dormimos sonhando nomes.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

mistérios de persépolis

tem seus mistérios este recolhimento na época do rei momo. e sua beleza. já fui uma boa foliã. daquelas de pular cinco noites e não saber exatamente onde acordava; isto quando dormia. meu pai achou que eu estava em alguns destes hiatos do tempo. ele também é um bom folião. ou era. lembrei-lhe que o tempo passa. e que até a sua caçula era agora uma senhora. rimos juntos do meu ar fatalista. ele e seus desejos de peter pan.

ano passado estava em recife com minha amiga marie e nathalie. havia o aconchego da casa da cy e do alberto. e aquele carnaval inclassificável de tão poderoso. está tudo aqui dentro de mim. meu amigo francês me escreve perguntando se não vou. ele vai. seu Brasil é com "s", segundo me diz. mas sente que era mais fácil encontrar milena em paris. digo-lhe que moro na mata e estou envolta em mistério. digo-lhe também que em recife está o melhor carnaval do Brasil - com s. carnaval para o povo, sem abadás, sem cordão de isolamento. e que não tenha medo do povo. vá de chinelo verde, camiseta regata e sua alma bonita. e que não esqueça de ir em Calhetas e Porto de Galinhas. meus olhos já pousaram por lá. e arrebentaram de tanta beleza. sim, meus zóinhos. os mesmos que contemplavam o telhado pela frestra da cortina de tecido cru. já com as malas e os mapas, ele me diz que enche os olhos de emoção quando lhe conto.

"e sabe de persépolis? agora li em português." Persépolis é a HQqueviroufilme da iraniana Marjane Satrapi. apaixonei-me desde que vi o trailer nos últimos dias que estava em Paris. o filme sairia depois. e esta HQ é ainda hoje um exemplo de como minha dispersão pode ser inoportuna - últimos dias, ainda muito a pesquisar na biblioteca do pompidou. mas chego enfeitiçada pelo trailer e o procuro na seção de quadrinhos. e fico lá umas boas três horas lendo persépolis enquanto os livros de derrida definham em cima da mesa. depois me chicoteio de culpa. só mais de um ano depois vi o filme em sampa. e mais um ano para lê-lo em português. agora - envolta em alegria.

eu acho que Persépolis conquistou o mundo porque tem aquilo que toda boa autobiografia tem: "parece" ser tudo verdade, mas uma verdade filtrada pelo tempo. então pela "verdade" trespassam o humor, a ironia, a reflexão, a graça - "graça" é uma palavra muito usada pelos escritores românticos alemães, que também ando lendo.

pois vivo assim este carnaval. ainda tem os filmes. e tem ele, calmo e ansioso na medida certa. e tem as palavras dos amigos. mari e mari, dê, marie, fabiola, cy, lu, binho; para eles, eu conto. e recebo de volta palavras tão bonitas. e o que me vem? me vem muita beleza.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

fragmentos para ele

"Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus - enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
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Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer, eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom.
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Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah, você não come áçucar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas".
(Fragmentos da primeira crônica de Pequenas epifanias,
de Caio Fernando Abreu).
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Depois Caio continua. Avisa que nada demais aconteceu. Cansaço ou medo de tentar. Dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Mas eu estou em outra aprendizagem. Em plena aprendizagem. Justamente a de pedir. A de dizer. Talvez por isso esteja sendo tão bonito. E tão diferente. Intempestivamente bonito. E diferente.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Pequenas epifanias

Só que os escritores são seres muito cruéis,
estão sempre matando a vida à procura de histórias.
Caio.
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Sono de pesar o olho. E não durmo. Deito ao lado da sobrinha. Leio meu livro. E nada. Lembro então de momentos doces como algodão doce da esquina da infância e venho até ao computador antes que eles me fujam. Borboletas presas pelas asas por alguns segundos. Tantas. Dias absolutamente delicados. Apesar das obrigações em volta, tudo suspenso pela delicadeza. Assim.
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No ônibus, olhando o escuro da lua pela janela, tento lembrar dos filmes a que assisti e não anotei. Me vem inteira A história de Adèle H, de François Truffaut. E eu fico pensando naquele amor que de tudo toma conta até à loucura. E de novo me vem à mente que é a idéia de amor que amamos primeiro. A tal ponto que um dia o objeto de amor passa por nós e não mais reconhecemos - mudos e alheios para algo além da própria dor. É tão bonito isto. Sempre achei Truffaut muito mais gênio do que Godard. Truffaut aparentemente tão simples, conta histórias que parecem desprentensiosas, mas, de repente, vendo o mundo passar lá fora, ou aqui dentro, ela cai como um raio sobre nós, deixando um rastro de beleza.
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E também me vem aos lábios um sorriso ao lembrar de Gelsomina, papel de Giulietta Masina, em La Strada. Lembro de Almodóvar insinuando que, quando visitou a ela e a Felini, percebeu que havia ali uma situação de dominação - ela pequenina e tímida diante do gênio. Ele, severo e pouco sensível. Ora, ela mesma um gênio, será que não sabia? Uma palhacinha triste. Corpo e alma entregues ao ensejo de nos fazer rir e chorar.
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Então, chego aqui na Maneca e tem uma caixa de livros me esperando. Folheio apressadamente vários. Aqueles pesados de tão obrigatórios. Aí leio o primeiro parágrafo da primeira crônica de Pequenas epifanias, de Caio Fernando Abreu. E não o largo mais. Queria que ele me protegesse da minha própria dureza. Do que disse e ouvi de feio nestes dias. Ah, jesuscristinho, estou convicta de que destes dias levarei apenas a delicadeza. Que nenhuma maldade seja suficientemente mais memorável do que estas pequenas epifanias. Não me deixe repetir estas maldades que brotam das nossas bocas como a flor de Pirandello só porque nos pegam distraídas e porque achamos que devemos nos sentir parte das grandes boiadas. Caio doi tanto que me desfalece. Eu fico entre dizer que ele é um grande escritor ou um escritor das infinitas miudezas, o que dá no mesmo. Tão humano que as folhas parecem sangrar. Aí, chego às páginas em que ele também lembra de Truffaut e Gelsomina. E me vem um arrepio - e fico quase tão esotérica quanto Caio, desconfiando destas confluências, destes encontros que parecem acasos, mas bem poderiam ser chamados de milagres, por que não?
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domingo, 8 de fevereiro de 2009

leitura e escrita

Foto: Untitled 129, de Cindy Sherman, 1983.

não importa quantas vezes eu o leia. ou releia. a cada vez é um espanto. choro, às vezes convulsivamente, quando o leio. não porque ele me faça chorar, mas porque sofro com tanto sofrimento contido, com tanta dor represada. choro pelo homem e pelo escritor - que deve ter sofrido para realizar a arquitetura das suas palavras. pois a cada vez desejou o silêncio impossível, o dizer nunca mais. graciliano ramos é assim. uma ferida aberta e inclassificável na nossa literatura. o mais sofrido. o mais inteiro. e o mais em pedaços. não existe nada mais dolorido, sinceramente doído, do que os mil não-ditos que antecedem o suicídio de Madalena em S. Bernardo.
eu vivo os dias. mas não quero falar deles por enquanto. vivencio-os com uma delicadeza já suspeitada. e também com muito temor. escrevo. não aqui, no blog. que é sempre uma brincadeira que vem da infância. mas escrevo um artigo e cada palavra é também doída, mas sem a transcendência de graciliano. é trabalho chifrim para pôr no currículo lattes. desimportância obrigatória. fujo o tempo inteiro, mas me encho de irritação e ansiedade quando tenho que sair da frente do computador. hoje encontrei a resposta do perrengue. está lá escrito na página 29 de um livro sobre graciliano, o que significa que foi adquirido há cinco anos. a frase: "Quando eu tocar Graciliano com minha escrita, terei feito algo importante". pois é o que agora eu tento aos 34 anos, remodelando um pequeno texto antigo. mas me dou conta de que não sou capaz de escrever algo importante sobre graciliano. ninguém ainda foi. nem antonio candido, o mestre, que diz coisas muito certinhas, bem feitinhas, no livro ficção e confissão, mas não alcança a dor de graciliano. o tempo todo sou atravessada por outros textos. e descubro que odeio a escrita de artigo. parece-me letra morta sem nenhuma paixão. análise análise análise. a escrita teórica no Brasil é de uma carolice sem fim. não há um único escritor de peso que "viaje na maionese" para servir de inspiração. cientistas socialistas estruturalistas imitadores diluidores. eu não fico atrás. por isso, fico com vontade de escrever à la alberto lins caldas, que radicaliza até me dá medo. eu concordo até a medula, mas temo o plágio. então, continuo minha escrita de neo cientista que escreve em um blog que não pode ser colocado no currículo. quem escreve em blog não é escritor nem crítico. não é nada. é só um serzinho viscoso e narcisista que escreve para o umbigo e para crer que faz algo na vida que merece ser registrado. mas os dias. os dias chovem. lá fora. aqui dentro, um sol enorme. eu olho pelo vidro da varanda. é meu xodó. como tudo que é bonito, me enternece. é uma bonita imagem. nada a ver com a imagem da cidade lá fora. eu vejo daqui apenas a rede vermelha, o cinzeiro dele eternamente confinado ao ar livre da varanda e um pedaço do céu. não é só do céu que eu gosto. gosto do conjunto. gosto de pensar que moro à beira da estrada, embora daqui eu não possa vê-la. só posso ouvir o barulho dos carros que não param de ir e vir. também gosto de pensar que qualquer dia eu irei. e não irei sozinha.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

vide depoimentos

E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas,
é uma ofensa à humanidade.

Clarice Lispector, em A descoberta do mundo, p. 37.

Tocando em sentimentos que são meus, percebo que, diferentemente, ninguém fica indiferente. As sensibilidades que afloraram nos depoimentos, creio, têm a ver com a estrutura profunda de desigualdade no Brasil. Não digo do Brasil, mas no Brasil. Isto que Rê chamou de "culpa burguesa" só existe por causa desta desigualdade. Sentimo-nos repetindo com as pessoas que trabalham nas nossas casas um sistema injusto de mais-valia, cuja mão-de-obra vale muito pouco. No fundo, a questão é esta: pagamos uma miséria; mesmo aqueles que pagam o salário mínimo, porque qualquer um que o faz está na condição de saber que viver com um salário mínimo é de uma injustiça sem tamanho.

Rubiane tem razão: que mantenhamos ao menos esta sensibilidade, para não coisificarmos as relações, embora eu saiba do risco de esta virar hipocrisia. Em países mais desenvolvidos, embora seja uma leva de "sem papéis" que fazem estes serviços, a relação é mais igualitária. Na classe média, não existe a figura da "empregada doméstica", uma vez que o salário mínimo é muito alto. Trabalhando para agências, e não diretamente para as pessoas, as diaristas conhecem muito bem seus direitos. Na Casa do Brasil, em Paris, onde eu morei por um ano, eu limpava a parte de cima do guarda-roupa porque existe uma lei que diz que as diaristas só devem limpar o que o seu braço alcança. E se eu não retirasse os lençois, elas não os trocavam, porque tinham a obrigação de deixar os lençois limpos, só se os sujos tivessem retirados da cama. E nada que fosse além dos móveis "catalogados" eram afastados ou retirados do chão, então se eu não colocasse sandálias, livros, bolsas, roupas, em cima da mesa, no dia da faxina, a parte do quarto em que estes objetos se encontravam não era varrida. Tudo no papel, legalizado e cumprido. Aqui, se uma família tem uma empregada, na grande maioria, os filhos não aprendem nem a colocar a roupa no cesto de roupa suja.

Algo de que eu gostava muito (e a maioria dos brasileiros detesta) é a cultura de não-servilidade que existe por lá. Ninguém para colocar as compras nos saquinhos, levar até ao carro, etc.; também não existe a figura dos frentistas. Nem os vendedores são bajuladores (e sim, técnicos, que sabem todas as informações precisas de um produto e nos dizem as vantagens e desvantagens de comprá-lo, mesmo que seja mais barato que um outro similar.) Os brasileiros, mal-acostumados, quando não encontram um bando de serviçais, chamam isto de falta de educação! Eu achava uma maravilha e ia percebendo que estas profissões existem apenas por que se pode pagar uma miséria para quem trabalha nelas. Duvido que um dono de supermercado no Brasil pagasse a empacotadores, se tivesse que pagar um salário mínimo de 1200 euros. Então, até a cultura da servilidade vem desta desigualdade social que corrompe as relações. E não pensem que sou ingênua a ponto de pensar que outras formas de desigualdade não existem por lá. Porém, ao menos, não existem estas, tão à flor da pele. Ninguém pense que pode tratar mal um vendedor, um garçom, um fiscal de ônibus e eles vão baixar a cabeça com medo de serem despedidos. Pelo contrário, eles vão nos dar uns gritos e não se importarem nadinha com nossos gritos histéricos, nossa falta de educação e nossa vontade de sermos servidos - disfarçados malemale por uma simpatia forjada tão própria do brasileiro quando está no estrangeiro, passando a considerar-se o "melhor povo" do mundo.

No Brasil, uma empregada doméstica, que recebe o salário justo, ganha de um a dois salários minimos. Eu, uma profesora universitária federal, ganho cerca de doze salários mínimos e estou naquela faixa de "classe média baixa baixa". Um professor universitário da França ganha entre um a três salários mínimos. E não é classe média baixa, baixa. É intelectual respeitado - que faz sua comida, lava seus pratos e leva seu carrinho ao supermercado para não entupir o mundo com sacolas plásticas. Então, como não ser sensível a estas diferenças? No entanto, eu quero crer como a Mari: nada é estanque. Não existe oportunidade para todos (esta é talvez a mais maléfica das falácias!), mas existem as brechas - um torneiro mecânico vira presidente, uma empregada doméstica vira doutora em lingüística, uma filha de carroceiro se apaixona pelas Letras e também vira doutora, embora de um troço chamado literatura cada vez mais devalorizado, e passa a ganhar em um mês o que seu pai aposentado leva doze meses para ganhar. Isto talvez seja o que ainda nos faz acreditar e nos indignar. É talvez o que explique os depoimentos - compreensivos e conflitantes.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Da ordem da casa

DA ORDEM, DO RITUAL "Quando vou começar um livro, tenho surto de arrumação na casa. Me dá uma fobia de jogar papel fora; de chegar no escritório, arrumar tudo, tirar pó. Deixar tudo organizado, limpinho. Aí, caneta na mão, fico olhando aquela página em branco."
Cristovão Tezza

Agora, tenho uma diarista. O que era para ser alívio, a cada quarta-feira é motivo de angústia. De outros modos, já disse aqui que a casa me pressiona. me impressiona. Eu tenho mania de limpeza, resultado de uma educação rígida em que uma casa mal varrida implicava em varrê-la outra vez e uns pratos não lavados resultavam em uma surra no meio da noite. Ainda tem o agravante de eu ser alérgica, inclusive a poeiras, nestas cidades empoeiradas. O resultado foi a tal mania de limpeza. Mas eu estou enjoada. Continuo com a mania mas não quero mais perder tanto tempo com uma pressão que se repete, impiedosamente, a cada dia. Desejo, talvez, perder o medo das surras - agora para sempre imaginárias. Ou, parando de fazer psicanálise de botequim, desejo simplesmente ler meus livros em paz. Daí, a diarista. Mas se a própria Clarice Lispector se sentia intimidada com as empregadas, imagina eu, vinda de uma gente trabalhadora, explorada, sempre a pedir desculpas pela existência, como são os nordestinos, ou ao menos como são os cearenses da minha linhagem, que, na maioria dos casos, nunca foram empregadores, e sim empregados, embora jamais "empregados domésticos", por ordem da santa senhora das surras noturnas, que sempre repetia que filha dela não era para limpar chão dos outros - já havia chão demais na nossa casa, que ela nunca cansou de alongar seus domínios.

No primeiro dia que a diarista veio, quase pedi desculpas por haver tanta roupa por passar. Se não estou enganada, balbuciei algo como "Da proxima vez, não haverá tanta roupa, é porque acumulou. Eu estive muito ocupada...". No segundo dia, ficamos umas quatro horas de bunda para cima limpando uma cerâmica que eu cometi a barbaridade de colocar cera quando não devia, o que resultou em uma cor que, devendo ser branca, havia se transformado num amarelidão medonho. Eu disse "ficamos". Para mim, pareceu imoral continuar dormindo enquanto alguém ficaria de bunda pra cima sozinha consertando uma barberagem minha. Ela não se fez de rogada e tascou uma frase como: "Eh, quando fazemos uma bobagem, temos que pagar por isso, sofrer por isso". Mordi o lábio para perguntar se ela era protestante ou o mordi para não cair na tentação de insinuar meu ateísmo latente, ou, no melhor dos casos, minha negação absoluta a qualquer idéia de castigo divino. A intimidação se avizinha sempre da timidez. E, naquele momento, era eu a empregada a engolir um desaforo que gostaria de ter dito. Jesuscritinho me perdoe qualquer ofensa, é o que devo ter pensado.

No entanto, eu continuo com fé que, com a alvura da cerâmica devidamente recomposta, logo conseguirei dormir o sono dos justos enquanto outra faz o serviço de casa que eu não quero mais fazer; afinal, parece-me certo procurar alternativas para não gastar tanto tempo com arrumação de casa, sem que isso signifique passar a viver na sujeira, algo que eu tenho certeza de estar além das minhas forças. Uma casa limpa, para mim, é sinônimo de sossego, único modo de poder ler, estudar, escrever. Parece doideira? Mas quem não tem suas doideiras escondidas na manga? Pensar assim me consola. Ao menos, até a próxima semana, quando espero ter coragem de pedir a ela que limpe os vidros da porta e das janelas, enquanto eu folhearei despreocupada algum livro. Por falar em livros, hoje respirei aliviada quando ela disse que a próxima quarta-feira seria para limpá-los. E acrescentou que eu não me preocupasse porque ela tinha as "manhas": limpava prateleira por prateleira, recolocando-os como estavam. Creio que não me mexi. Era sério o risco de me ajoelhar aos seus pés.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Dias de cronópio

"Neste país onde as coisas se fazem por obrigação ou por fanfarronada, gostamos das ocupações livres, das tarefas sem importância, dos simulacros que de nada adiantam." Julio Cortázar.
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semana toda entre livros de fotografia. cortázar, em um dos seus livros-colagem, cita uma frase de seu amigo andy warhol. esta: "eu gosto de gostar de coisas". se eu tivesse vivido no tempo de fazer brasões, eu mandaria fazer um e daria um jeito de colocar esta frase para me representar. eu gosto tanto de gostar de coisas que às vezes eu mesma me irrito. mas na maior parte do tempo eu me deleito. tenho um grave defeito de gostar de brincar de gangorra. basta a
cosacnaify anunciar uma daquelas suas promoções-relâmpagos de 50% de desconto que eu já me resigno e sei que vou fazer peraltices. foi assim que vários livros de fotografia chegaram aqui; do mesmo modo, há uns dois meses chegaram vários de cinema e de artes. e o pior é que eles chegam e eu esqueço todos os meus deveres de cidadã com deveres. esqueço e me perco neles. "cuba por korda", "abbas kiarostami", "o lugar do escritor", as fotos portáteis de antonio saggese e cris bierrenbach, "antropologia da face gloriosa", "si por cuba", não são livros que se contentam de irem para a estante e virarem objetos mortos. eles pedem antes o amor tátil. o folhear atento e emocionado, o dormir nos seus braços na tarde quente. e acordar com o rosto colado em um deles sem saber se já é tarde. nunca é tarde. é o que eu penso, ajudado por eles. nunca é tarde para gostar de coisas. para gostar da vida. para colocar nela a delicadeza e a emoção. eu tenho muito medo, nunca disse que não tinha. mas antes dizia menos. a imagem da mulher independente. agora, eu expresso tudo mais facilmente, ainda que cheia de silêncios. se me dizem que sabem que eu estou nesta cidade a contragosto, eu não desminto. mas duvido que tenha alguém mais consciente de minhas escolhas do que eu mesma. escolhas ou acasos, eu abraço tudo. e vivo. e vivo bem. não me faltam brechas. e sempre me surgem seres lindos para me ajudarem a construir estas brechas. sim, aqui é só um instante. que dure muito, que dure pouco, é só um instante, um instantâneo. como as fotografias, mas sendo minha vida. eu não quero dor, mas agora que já perdi o medo, se um dia vier outra vez, vai doer outra vez e passar outra vez. é a vida. e o que fazemos dela e o que ela faz sozinha - como os raios que nos partem e quebram nossos sorrisos ao meio.
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e de tanto me perder no meio destes livros de fotografia - que são lindos, são delicados, são repletos de histórias e de vidas e de imagens - eu lembro que eu mesma fotografo, embora não seja uma fotógrafa, não tenha a delicadeza e a presteza de uma grande fotógrafa. porém, no meio da madrugada, enquanto ele, na rede da varanda, morre de rir com "cem anos de solidão" e me pergunta o tempo todo se eu lembro de tal trecho, e eu, amaldiçoando a minha parca memória, digo-lhe que não lembro e que ele pare de me torturar; eu mexo no meu arquivo de fotografias e seleciono estas que estão aí abaixo.
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foram tiradas na minha viagem a Natal, quando meus amigos - minha amiga-comadre de infância, por quem eu sinto um verdadeiro e inesgotável amor - saiu de minha cidade natal para estar comigo nesta cidade Natal cheia de lembranças. eu já contei aqui. faltaram as fotos. sempre esta falta.

Album de fotografias - Natal

















































































terça-feira, 27 de janeiro de 2009

larvas dos dias

"Todo povo quer ver no palco apenas o padrão mediano de sua própria superficialidade; seria preciso, portanto, entretê-lo com heróis, música ou loucos".
Schelegel, em O dialeto dos fragmentos.
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admiração profunda por algumas pessoas. alegria por elas existirem e por fazerem parte da minha vida. algumas palavras que me dizem são verdadeiros tesouros. esta admiração me faz ir avante e, muitas vezes, retroceder. vontade de escutar. como escuto esta senhora-alma-de-menina que vem aqui nas tardes quentes e me hipnotiza com suas histórias. para agradecer, fico com vontade de rezar em silêncio as orações que nunca aprendi. é meu universo particular, a exemplo de marisa monte, a quem assisto ao DVD e choro. um choro que é memória do passado e agradecimento pelo presente. é uma estocada de emoção à cata daquela noite em que andei de bicicleta por paris, depois de chorar por duas horas durante seu show. quando a revi em são paulo também estava frio. mas não houve caminhada solitária pela cidade. as noções de distância e de emoção já devidamente diferenciadas.
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brinco de gangorra com o cartão de crédito nas livrarias eletrônicas - mil e um interesses e obrigações. devido ao ódio ao romantismo indianista desta terra tupiniquim, impor aos alunos o romantismo de todos os mundos. que eles saibam que a literatura vai muito além de um josédealencarzinho obrigatório. mil e uma intenções que sem que eu perceba finalmente me dão um corpo de estudo, e não apenas de leitura. rasbico textos, corrijo outros e salvo e compro uma bibliografia em português, pois é de literatura brasileira que preciso enquanto leio no domingo chuvoso thomas bernhard, este austríaco abismal. em cada linha, a expressão do horror. admiração profunda. um certo oco advindo da estocada no estômago devido a palavras tão fortes. o que é a vida senão este sucessivo movimento de contratempos. ainda thomas bernhard.
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também brinco de gangorra com a música. o canto dos escravos de clementina de jesus, tia doca e geraldo filme me lembram de imediato porque amo a música apesar do meu ouvido tosco. eu queria dizer ao mundo, e que todos ouvissem, que o cão de rômulo fróes, assim como o sou-nós, de marcelo camelo, são caixinhas de preciosidades inigualáveis. deixando as formigas corromperem meu querer de deus, eu vou abrir um desvão e ouvi-los um a um, reiteradamente, com este moço, enquanto nos embebedamos de vinho, e eu falo ou silencio, sonolenta e feliz, e ele fala e silencia, insone e belo.
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domingo, 25 de janeiro de 2009

O cronópio Julio Cortázar e outros cronópios

Estas frases abaixo são do voltume 1 de A volta ao dia em 80 mundos, dois livrinhos geniais de Julio Cortazar, indicação que eu fisguei nos dias maravilhosos que passei na casa da Dêamada, em São José do Rio Preto - aquele tipo de cidade que amo porque amo algumas pessoas que lá habitam. Devido à fisgada, eu li também os dois volumes de Último round, que têm a mesma estrutura. Se estes livros não tivessem sido publicados há mais de 40 anos, com certeza teriam sido, antes, blogs. Suas estruturas anti-estruturas, que aceitam como oferendas todas a sorte de colagens, são pequenas máquinas de invenção, criatividade, humor, ironia, ternura, etc. etc. etc. Cabe muito nestes etc.: poemas, ensaios, contos, notícias, desnotícias, fotografias do Cortazar e de outros, desenhos ... A ideia parece ter sido registrar tudo que lhe interessava, como um grande caldeirão onde se faz uma sopa com todos os restos da geladeira. E quem já leu qualquer outro livro deste escritor deve saber o quanto ele é genial (de fato, este é um adjetivo que se pode abusar ao nos referirmos a ele). Para mim, Todos os fogos, o fogo é um dos melhores livros de conto de toda a literatura. E O jogo da amarelinha é daqueles livros que esticam ao máximo qualquer conceito de literatura. Porém, deixemos de conversa, e vamos às frases, não sem antes confessar de que eu adoraria tê-las inventado e que elas pudessem representar o que, para mim, é este "Nenhum lugar":

"Tudo que vem a seguir participa o máximo possível (nem sempre se pode largar um caranguejo cotidiano de cinqüenta anos) dessa respiração de esponja em que continuamente entram e saem peixes de lembrança, alianças fulminantes de tempos e estados e matérias que a seriedade, uma senhora ouvida em excesso, consideraria inconciliáveis. Eu me divirto pensando neste livro e em alguns de seus previsíveis efeitos na referida senhora, um pouco como o cronópio Man Ray pensava em seu ferro de engomar cheio de pregos e outros estupendos objetos quando afirmou: "De maneira nenhuma eles deviam ser confundidos com as pretensões estéticas ou o virtuosismo plástico que em geral se espera das obras de arte. Naturalmente - acrescentava a corujinha de óculos pensando na tal senhora -, os visitantes da minha exposição ficavam perplexos e não se atreviam a divertir-se, porue uma galeria de pintura é considerada um santuário onde não se brinca com a arte".

Tem mais:

"Já se deve ter notado que aqui chovem citações, e isto não é nada perto do que vem pela frente, ou seja, quase tudo. Nos oitenta mundos da minha volta ao dia há portos, hotéis e camas para os cronópios, e além disso citar é citar-se, como ja disseram e fizeram mais de meia dúzia, com a diferença de que os pedantes citam porque veste bem e os cronópios porque são terrivelmente egoístas e querem monopolizar seus amigos..."

E como falei da Dêamada, vale uma explicação: ela não se conforma de que eu não tenha lido ainda Histórias de cronópios e de famas, porque ela diz que eu sou um cronópio. E me chama de Cronopinha, quando eu lhe digo algo que parece uma travessura, mas eu estou começando a ter certeza de que ela é a verdadeira cronópia; esta moça que não gosta de claridade e que, por causa disso,quando estou lá, vem se arrastando com os olhos fechados e os braços esticados até a "minha" janela para fechá-la. Só depois disto, ela se senta na beira da cama e iniciamos ali nossas conversas infindaveis, para horror da Djoia, que morre de ciúmes e fica latindo a nossa volta.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Persona

Ontem, assisti a Persona, de Bergman.
Creio que não preciso dizer que.
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Há momentos em que basta o espanto.
O de agora é cheio de.
Sinto que vivi até agora para chegar até aqui.
Para me contrapor.
E ao mesmo tempo parecer absolutamente tranquila.
Persona, impossível morrer sem.
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Album de férias

"este grão numa longa espiga de verão". Julio Cortazar.
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Eu tenho uma queda por diários. Resultado de anos de escrita. Parei em 2002, acho, quando eu mesma me espantava com o que escrevia, como se houvesse uma outra Milena, desconhecida para mim e para aqueles com quem eu convivia. Daí a "queda" ser a razão de este blog pender constantemente para as miudezas do dia-a-dia. Porém, como já insinuei, acho diário um bicho perigoso, ainda mais se qualquer um pode ler. Por isso, as entrelinhas.

No entanto, vem-me sempre a vontade de registrar os dias, quando são bonitos. Minha memória não tem zoom. Então, faço deste lugar o meu zoom::: para não esquecer. Não quero esquecer que minha irmã Mácia, com meu sobrinho-afilhado, sairam de Fortaleza para virem à floresta, unicamente porque nos amam. E que meu irmão também saiu de Sampa e veio. E fizemos uma festinha de ano-novo na casa da Maneca, em Porto Velho, que foi uma maravilha. A foto para o ábum de família ficou linda!

E Porto Velho é pertinho da Bolívia. Na maior parte do tempo, não nos damos conta de que moramos em um estado de fronteira. As visitas nos fazem lembrar. Então, fomos em Guayaramerin, que já é a Bolívia, basta atravessar o rio de "voadeira". Lá, não tem o que fazer, além de fazer compras de coisas desnecessárias, a preço baixinho. Foi um dia divertidíssimo, sob o sol escaldante. O nível de "serotonina" deve ter ido às alturas, porque fazer comprinhas de bobagenzinhas (fivelinhas, tigelinhas, bolsinhas, meias, chapéus) não tem preço de tão bom!
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E em Porto, o rio está sempre lá para aqueles momentos de distração, em que afloram a doçura, a delicadeza. E isto não faltou. Mudos de palavras, embaraçados com o que não queremos nomear, mas queremos sentir. Ele foi e voltou e foi outra vez. E suportou três Milenas em uma viagem de 10 horas, sendo que a menos reclamona sou eu. As outras duas - irmãs nas fobias e na tagarelice - têm medo da menor curva! Ui!
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E em Porto tem meus amigos - amigos que amo. Com quem sinto um enorme prazer em estar; mesmo que seja num momento como o de agora, em que sinto uma necessidade quase física de solidão - o tempo para ler meus livros, ouvir meus cds. Porém, ser arrancada desta necessidade para viver uma noite regada a vinhos e muita risada, também não é momento que se possa esquecer.


Eu tenho a firme convicção de que momentos como estes, todos estes, devem ser vividos - que por mais que seja fascinante a solidão cultivada por causa dos livros, ela não deve substituir o contato com as pessoas. Ir para um sítio para que o sobrinho possa pescar - nem que seja levando o livro com o risco de molhar no barco - tem o ar de eternidade.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A definição


Eu tenho uma certa inveja de quem sabe definir; ainda mais se for uma definição exata, em que tudo parece estar no lugar e nada escapulir ou faltar. É claro que só temos inveja do que nós mesmos não sabemos. Eu sou muito ruim em definições, em conceitos. Às vezes, mordo os lábios atrás de algum conceito estudado - e logo esquecido.

Qualquer livro de Octavio Paz, o teórico-poeta por excelência, causaria inveja não apenas em quem tem inveja de criadores de conceitos ou escrevinhadores de definições. Todos os seus livros são bem escritos. E não apenas isto. Em todos os seus livros, pulsa um conhecimento que é já sabedoria.

Não é diferente em Marcel Duchamp ou o castelo da pureza, livrinho que reúne seus dois ensaios sobre este artista. Delicia de ler; delícia de aprender. E abaixo, a tal definição que me deixou boquiaberta. A de ready made:


"Os ready-made são objetos anônimos que o gesto gratuito do artista, pelo único fato de escolhê-los, converte em obra de arte".


Perfeito, não? Ele continua:


"Ao mesmo tempo esse gesto dissolve a noção de obra. A contradição é a essência do ato; é o equivalente plástico do jogo de palavras: este destrói o significado, aquele a idéia de valor. Os ready-made não são antiarte, como tantas criações do expressionismo, mas a-Rtísticos. A abundância de comentários sobre o seu sentido - alguns sem dúvida terão provocado o riso de Duchamp - revela que o seu interesse não é plástico, mas crítico ou filosófico. Seria estúpido discutir sobre a sua beleza ou feiúra, tanto porque estão mais além da beleza e da feiura como porque não são obras mas signos de interrogação ou de negação diante das obras. O ready-made não postula um valor novo: é um dardo contra o que chamamos valioso. É crítica ativa: um pontapé contra a obra de arte sentada em seu pedestal de adjetivos. A ação crítica se desdobra em dois momentos. O primeiro é de ordem higiênica, um asseio intelectual: o ready-made é uma crítica do gosto; o segundo é um ataque à noção de obra de arte".

In: PAZ, Octavio. Marcel Duchamp ou o castelo da pureza. Tradução: Sebastião Uchôa Leite. São Paulo: Perspectiva, 2007.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Com as conversas de Almodóvar


O que me seduz em um livro como este não é a possibilidade de ler sobre o que pensa o Almodóvar sobre a sua obra. Isto é, não estou atrás de uma análise justa, à primeira mão, de seu cinema. O que me fascina é a emoção. A emoção que eu sinto através das suas palavras emocionadas ao falar não apenas sobre seu cinema, mas também sobre o mundo e sobre ele mesmo. É como se fosse possível saber que sua respiração é agitada, que seu andar é rápido, que ele não fica sentado durante muito tempo, embora estas informação não estejam ali, nas conversas. A radiografia do humano, que posso ver nos seus filmes, também posso vê-la nas suas palavras, na sua paixão pelo seu trabalho de cineasta. Uma radiografia anárquica, colorida, plural, que coloca a nu tantas das hipocrisias do humano.

E, por outro lado, é inevitável que o livro sirva também para atiçar a vontade de rever os filmes. Aí, sim, é uma espécie de voyeurismo::: são os olhos de Almodóvar que tomo emprestado. São com seus olhos que revejo determinada cena, determinado ângulo, determinada música. Sinto vontade de pregar o olho em todas as cenas, para trazer dali algo novo. E é o que faço aos poucos neste início - não só do ano. Mas o início de muitas emoções novas.

A quase leitura de Os irmãos Karamázov


É sempre um momento poderoso ler Dostoiévski. As sombras descem. E meus olhos ficam ainda menores - como se houvesse um susto, ou um temor. O que se passa? Ainda mais Os irmãos Karamázov, um livro quase mítico para todos os leitores brasileiros que amam Dostoiévski e não sabem russo. Foi longa a espera por uma tradução direta do russo. Quando eu soube que finalmente havia saído a edição da Editora 34, com tradução de Paulo Bezerra, o desejo de possui-lo foi intenso. Todo desejo primário é o da posse. Comprei-o imediatamente, embora soubesse que não teria tempo de lê-lo. Agora, estou lendo-o. Ou quase lendo-o. E, embora muita coisa aconteça a minha volta, a impressão é de que estou em algum lugar da Rússia; um lugar feito de conflitos e contradições. E é por assim estar que eu me demoro a realmente começar. Tenho medo de marcar o início do ano com a leitura deste livro. Talvez porque eu lembre exatamente os momentos da minha vida em que li O idiota e Crime e castigo e, embora tenham sido momentos de acontecimentos vitais na minha vida, são estas leituras que, no filtro do tempo, continuam vívidas na minha memória. Não exatamente as histórias, porque não tenho uma memória privilegiada, mas o que senti ao lê-las. É este sentimento - ou um sentimento parecido - que talvez agora exija de mim um retardo, uma demora.
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Hoje li Fausto Zero, de Goethe.
Ontem, Pier Paolo Pasolini, de Maria Bethânia Amoroso.
Nos intervalos, finalizei o Livro I de Os irmãos Karamazóv.
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O que me espera no Livro II?
Amanhã, lerei Dialogos com Leucó, de Cesare Pavese. Relerei.
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Minha irmã Maneca, minha irmã Mácia e meu sobrinho irão embora amanhã. Passaram a semana comigo. Ora dormitando, ora vendo filmes, ora andando pela mata, ora... Antecipo o vazio de amanhã e perco o sono.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

sempre as horas

achei que em janeiro estaria em paris. muito do que achei no ano passado não aconteceu. talvez aí resida a beleza::: no transtorno fundante da vida. neste emaranhado de surpresas e acasos. casos. não estou em paris. talvez porque o medo do outro seja o que mais interrompa o amor. eu me imaginei lá espectadora de um amor. porque o amor tem muitas faces. eu amaria os dois. e seria amada por eles. e o amor deles hoje se faz de outra forma, percorre outros caminhos. perdemos paris a três. porém, não temos paris, mas temos a nossa história. os nossos dias. as nossas horas. como eu disse a ela: "isto é nosso. ninguém mais nos rouba". e choramos agarradas - na rede vermelha. e é assim que agora estou aqui em porto do velho. por caminhos misteriosos, 2008 foi o ano de ficar mais próxima da família, de aprender como se faz, de querer aprender. o resultado é que os irmãos passaram o ano novo juntos. uma veio do ceará. o outro, de sampa. e mais um, do mato. reunimo-nos, aqui, na casa da irmã mais velha. e foi bonito. na primeira vez que tentamos, depois de crescidos, houve vários estranhamentos. nos amávamos ainda, mas já não sabíamos como conviver com tanta diferença. até o preço da carne foi motivo de discórdia. o preço da cerveja, então, teria sido o dissenso, se não houvesse a gargalhada. neste ano, elas me ligaram perguntando se compravam logo a cerveja. compraram. eu cheguei na manhã do dia 31, encantada com o ombro onde pude dormir durante quase toda a viagem. no resto, ficamos de olhos abertos vendo a chuva na estrada. sim, talvez seja esta a beleza. acho que não foi dificil para ele, apesar de sua alma atrapalhada ter feito um furo no teto da minha irmã. um furo no teto, quando a vontade era que tudo corresse bem... ele se sentiu protagonista de uma daquelas comédias em que tudo dá errado, mas tudo acaba em gargalhada. muita risada na primeira hora do ano. e muita preguiça nos dois dias seguintes; preguiça regada a churrasco. tatus em família.

estou aqui, pois, em porto. onde me sinto em casa. lendo, enquanto com os ouvidos ouço as histórias das minhas irmãs. elas repetem a mesma história inúmeras vezes. e são teimosas. sorrindo complacente, eu me pergunto se faço o mesmo. se sou assim. desconfio que sim. talvez todos façamos isto; afinal, as nossas histórias são o que nos provam que estamos vivos, que temos uma vida.

tenho aprendido isto. será que tenho aprendido mesmo? talvez desaprendo. sei que em julho paris estará menos frio. e talvez eu esteja lá lamentando não poder usar meus chapéus. agora, aqui em porto, está muito quente. e tem muita vida circulando. eu carrego para cima e para baixo "conversas com almodóvar" e leio partes dele em voz alta para o ney, atrás da sintonia que pressentimos. almodóvar me faz sentir tão viva. parece que carrego em mim todas as suas cores, todas as suas intensidades. sinto vontade de tantas coisas. sinto desejos.

que nada me tire os desejos. o poder de desejar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

se

uma retrospectiva, se soubesse. uma previsão, se pudesse. mas, assim, cheia de ternura - do filme, do livro, de deixar o tatu na rodoviária, das manas dormindo logo ali ao lado, do mano na rede, dela tão bonita desejando que o casal da série se reconcilie logo para ela poder dormir -, eu entro em devaneios. e guardo-os todos aqui, no coração que bate.
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