quinta-feira, 24 de junho de 2010

livro aberto


começo aqui uma seção. mais uma. existe já "para o filho". porque os livros fechados me incomodam. um livro fechado é um morto encerrado em seu caixão. à espera de. sobretudo, porque quero compartilhar os livros que eu amo. e no momento em que descubro que a parte técnica da fotografia me parece cifrada, mais me apaixono pela foto em si. tenho agora a máquina dos sonhos e eis que não nos entendemos. talvez por isso. amar bresson para uma amadora de fotografias é um lugar comum. mas eu já disse aqui::: não tenho medo do lugar comum. desde que ele me leve sempre mais longe. uma seção, então.

* Henri Cartier-Bresson: fotógrafo. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Sobre Saramago e as lembranças


Fico grávida de memórias quando penso em José Saramago. E quis o acaso que, depois de muito tempo sem lê-lo, eu tivesse na cabeceira da cama um livro dele quando soube da sua morte. Quis ficar triste, vazia toda por dentro. Mas logo em seguida pensei que quem soube viver como ele, poderia ir quando fosse a hora, se existe a hora.
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Quando fazia Letras, eu planejei ler toda a sua obra, tamanho o meu espanto diante de O evangelho segundo Jesus Cristo. Este livro ajudou a formatar meu gosto pela leitura. Nunca posso esquecer o que senti quando o li. Trago em mim uma convicção que surgiu daí e não mais me largou: não tenho medo da linguagem da literatura, não importa qual  seja o seu grau de dificuldade.
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Lembro de mim e da Mari, em uma daquelas enormes rodoviárias de São Paulo, exaustas, depois de perambular o dia inteiro. E entre ir ou não assistir a O evangelho segundo Jesus Cristo, que então era encenada, olhei para ela e disse:  "Agora que estamos cansadas, estamos propensas a não ir. O que decidiríamos se não estivéssemos cansadas?". Essa pergunta em tom de desafio foi determinante para que meia hora depois cochilássemos no teatro. Não posso afirmar com certeza se a peça era boa. A lembrança mais nítida que tenho é do frio que sentia nas minhas pernas, que subia para a bunda, que fazia doer minha garganta, que não me deixava dormir quando era o que mais desejava.
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Li Ensaio sobre a cegueira em um dos momentos mais confusos e ao mesmo tempo mais lindos da minha vida. Nunca mais fui tão interessante e tão desesperadoramente contraditória. Ali rompi com tudo que eu era. Caí na noite, bebi muitos porres, menti, fui feliz demais, vivi só. Tudo, muito. Ali fiz e disse as coisas das quais mais me orgulho e das quais mais me arrependo. Hoje já não  sou aquela menina, mas continuo pensando que todo mundo merece viver um tempo em que se acha a pessoa mais poderosa do mundo.  Era tudo tão intenso que eu literalmente senti os cheiros de Ensaio por dias seguidos. Encontrei muitos outros cheiros fértidos - em Lúcio Cardoso, em Artaud, em Bernhard, em Suskind, mas nenhum como aquele. Talvez porque nenhum tempo mais foi como aquele.
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Memorial do convento é a história de amor mais bela que já li. Nenhuma  havia me dito antes que podemos carregar o amor nas vísceras; que depois de andar milhares de léguas, podíamos senti-lo antes mesmo de vê-lo. Blimunda e Baltasar me ensinaram a amar, se o ensino tem a ver com o desejo de. 
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Paro por aqui, quando muitas outras lembranças ainda me agarram. Professora, hoje leio Viagem do elefante. Brado aos ventos surdos que é um pecado sair do curso de Letras sem ter lido um livro inteiro do Saramago. No fundo, procuro em cada aluno o gosto agridoce da aluna que eu fui.  
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Obrigada, Saramago, por estar na minha vida há tanto tempo. Acho que sempre estará. 
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terça-feira, 22 de junho de 2010

Objeto de desejo



E nem é tão cara assim...
Proibida, no entanto!

sábado, 12 de junho de 2010

Meus


Amo.
Simples assim.

Para ouvir


Não é medo, nem é riso/ Não é raso,
não e pouco, nem é oco/ Não é fato,
nem é mito / Não é raro, não é tolo,
não é louco / Não é isso, não é rouco
Não é fraco, não é dito, não é morto

Móveis coloniais de acaju.
Vale a pena

terça-feira, 8 de junho de 2010

dias


então assim. louise bourgeois morreu. eu senti como se alguém muito próximo.  kazuo ohno também - antes que eu fizesse quadros dos seus retratos que tenho há muito tempo. é uma pena que o corpo se deteriore com o tempo. até se esvair. fiz quadro do yellow submarine dos beatles, e o poeminha continua dando risadinhas quando olha para. são assim os dias. cada vez mais longe do passado. cada vez mais fincada no presente. soltei desaforos via email. e recebi desaforos de volta. antes, sofri um bocado. agora, às risadas, reconheço que morei dois dias na minha cabeça, acumulando rancores para depois soltá-los ao vento, que não vale a pena. não vale a pena alimentar nenhuma loucura. nem a minha. nem a dos outros. a não ser a loucura produtiva. a loucura dos que têm fome.  foi assim que reencontrei valdir. as ideias do valdir. e me contaminei com elas. vale a pena registrar este tipo de beleza. já estava escrito, só pode. espero que eu consiga ter no 22º FALE os mesmos sonhos e as mesmas ousadias que eu e mari, quase meninas, tivemos no 10º FALE. só agora reparei como foi bonito. foi bonito "eu não tenho nada, apenas a mim". teria sido arrogante, se minha voz não tivesse tremido. se o mar não fosse meu rival. então. 22º FALE aqui, no próximo feriado de corpus christi. neste, estivemos no 21º. bonito como sempre. e ainda mais com nós três. tatupai, tatumãe, poeminha. falei em público e não fiquei nervosa. talvez porque meu filho estivesse ali e eu o procurasse todo o tempo, enquanto estava presa à mesa. e tem as amigas. deixo lastros. faço amigos. e gosto cada vez mais. e, sim, não ganhamos o tão desejado edital. chorei. pelas noites em claro, pelo lindo projeto por ora suspenso. cada centava seria tão bem empregado, se eles soubessem. seja lá como for a seleção, eles não poderiam adivinhar todos os desejos que a sigla GEPEC congrega, como trabalhamos com alegria e com tesão. quem sabe o próximo? porque dá vontade de desistir diante do não, mas apenas por algumas horas. depois. depois tudo recomeça. como esta tentativa do poeminha. por várias vezes, tentou agarrar o girassol, até que.

sim, à vida.
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terça-feira, 1 de junho de 2010

Precisos líquidos, de Louise Bourgeois

"O significado da arte moderna é que você tem de encontrar sempre novos meios para se expressar, para expressar os problemas, que não há meios definitivios, nem uma abordagem fixa. É uma situação dolorosa, e a arte moderna trata dessa dolorosa situação de não haver absolutamente uma maneira definitiva de se expressar. É por isso que a arte moderna continuará, porque essa condição permanece; é a condição humana moderna... É sobre a dor de não ser capaz de se expressar adequadamente, de expressar suas relações íntimas, seu inconsciente, confiar no mundo o suficiente para se expressar diretamente nele. É tentar manter a sanidade nessa situação, ser prudente e temporariamente são expressando a si mesmo. Toda arte vem de fracassos terríveis e de necessidades terríveis que temos. É sobre a dificuldade de ser um self, porque somos desprezados. Em todo o mundo moderno há desprezo, a necessidade de ser reconhecido que não é satisfeita. A arte é um modo de reconhecer a si mesmo, e é por isso que sempre será moderna".

BOURGEOIS, Louise. Desconstrução do pai, reconstrução do pai: escritos e entrevistas 1923-1997. São Paulo, Cosacnaify, 2000. p. 166.


Preciosos líquidos, no Centro Georges Pompidou, toscamente fotografados por mim.

Louise Bourgeois est partie

 
Louise Bourgeois est partie. Há cinco anos, eu comprei seu livro de escritos e entrevistas e escrevi: "Sei apenas de uma coisa: gostaria de ficar, de viver assim tanto e tão intensamente".

segunda-feira, 31 de maio de 2010

espanto ou o quê




O amor é de tal modo um espanto que chega a doer. Daquelas dores que são pura beleza. Eu olho, voyeur, e me vem a pergunta: que sentimento tão grande é este? 
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Para o filho

Poeminha, que história bonita para guardar::: diante do pôster dos Beatles, que penduramos no seu quarto, você abre o sorrisão. Na verdade, dá uma gargalhadinha. Na primeira vez, pensei: "ah, é só a novidade!" Qual não foi a minha surpresa quando você repetiu a mesma gargalhada. E ainda agora, depois de dias com o quadro ali, você olha, se demora, olha pra mim, depois para o quadro, e sorri, e gargalha e mexe as mãos em frenesi. O que você sente, filho, e por que sorri assim? Sim, filho, há muitos mistérios neste mundo. Os Beatles são um deles. Um dia você vai saber. E quem sabe também se apaixonar por eles - e lamentar por não ter estado lá, lamentar por não lhes ser contemporâneo, mesmo que isso significasse ser bem mais velho. Um lamento que com certeza virá acompanhado da alegria de saber que a música é eterna. Simplesmente está - como esse quadro no seu quarto. Vai que ele se demora, filho? Vai que você queira que ele fique sempre ali? Tomara...
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

A imagem


Tenho visto poucos filmes. Não é um lamento; só constatação. Tempo tempo tempo, mano velho.  E as escolhas. Porém, confesso que senti uma vontade danada de emendar um filme depois do outro quando vi o cartaz do Festival de Cannes deste ano. Que já passou. Mas achei tão bonita a Juliette Binoche no cartaz que resolvi postá-lo. Lembrou-me os espetáculos do Bob Wilson. Bonito ver Binoche não como uma estrela do passado, mas como uma reverência ao presente e ao futuro - que já chegou.

domingo, 23 de maio de 2010

Só agora Avatar


Muito se falou sobre Avatar. Qualquer interessado em cinema, ligou as antenas. Demorei para assistir. Não estava errada quando pensei que era daqueles filmes para se ver no cinema, e não em casa. A imagem, tudo. Não vi em 3D, mas o vi na teconologia Blu-ray, a que Tatupai me fez conhecer para que eu adiantasse seu presente de aniversário em alguns meses. Desde o primeiro filme em blu-ray, eu disse: é a imagem hiper-real. A saturação de cores não se relaciona com aquilo que nossos olhos habitualmente veem - o mundo real não é tão colorido. É o mundo das HQs,dos desenhos animados, do videogame. Não à toa é uma tecnologia que veio daí.

No entanto, teimamos em pensar que o mundo bem poderia ser tão colorido. A ideia do duplo - um mundo em dobro, um sujeito que se reparte em dois, ou mais - há muito tempo encanta o espaço ficcional. James Cameron joga com essas duas possibilidades - a imagem e o fascínio do duplo - para construir seu filme.
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Entretanto, sem contar até dez, o seu filme é bem decepcionante. É espetacular na criação das imagens, mas totalmente previsível no enredo. Se fosse um livro, seria bem ruinzinho. Reiteradamente, carrega nas tintas dos estereótipos do melodrama.  Cheguei a pensar que é proposital, como faz, por exemplo, os filmes de Indiana Jones. É possível adivinhar a cena seguinte sem nenhum esforço. Acresça-se a isso doses excessivas do politicamente correto; e eis Avatar.  Poderia ser uma encomenda do greenpeace. No entanto, há as imagens. E como as imagens foram geradas. Por isso, não dá para ficar indiferente. É bonito de se ver. A cena final, especialmente. Só se transforma em um outro aquele que prepara tanto o corpo quanto o espírito para tal acontecimento. É um poder xamânico, este. Daí, ser tão especial.
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Eu fiquei com a impressão de que o cinema foi muito longe como um meio que é essencialmente imagem, sem que saísse do lugar como meio que também cria histórias.
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sábado, 22 de maio de 2010

Os véus da escrita autobiográfica em Jacques Derrida

Artigo meu bem aqui.
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Feliz, sabe. Quando escrevi este texto, quando apresentei este texto, estava quase feliz, mas ainda não sabia. Soube aos poucos. A certeza veio em Belo Horizonte. Foi lá que conheci pessoalmente o Halem. E foi lá que fiquei horas de conversa com a Lu, que me hospedou. Foi lá que recebi milhares de mensagens do Tatupai. Segundo ele, para que eu não esquecesse. A quase felicidade. Depois, por inteiro. 
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O texto não revela nada disso. Porém, o fato de ele existir funciona para mim como a madeleine de Proust. É o dispositivo da memória. 
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Cor


A tia do Tatupai veio - a que fez o enxoval do Poeminha. Ainda não o conhecia. Foi ela quem soltou aquela frase: "Meu Deus, é o Ney". E entre delicadezas e guloseimas, deixou o sofá cheio de flores. E quando as flores ferirem demais nossos olhos, deixou também a versão preto-e-branco. Lindezas! Ela e as flores.
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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Eu digo não


Flores no deserto. A promiscuidade intelectual abre a imaginação, é o que penso. Quanto a mim, leva-me onde nunca iria se me restringisse ao preto e branco. Digo não a qualquer tipo de afunilamento. Não sou derridiana, nem barthesiana, nem estruturalista, nem culturalista. Nenhuma ana e nenhum ista me interessam. Não acredito no regionalismo, nem no universalismo. Minha religião é a literatura. E minha fé é nas pessoas. 

Não sou boazinha.  Estou fora dessa lavagem cerebral de que se deve preservar a qualquer custo a pureza de uma Amazônia mítica. Por aqui, as pessoas comem, bebem, dormem, defecam, sofrem, como em qualquer lugar do mundo. Qualquer lugar é um lugar. Querem moldar meu corpo para me ensinar como se goza - preferencialmente, para o bem da coletividade. É porque a "diferença" dá dinheiro pra caramba. Expor na feira os indigentes, os relegados do mundo, e assim equipar as paredes ocas da Universidade. Pesquisa tupiniquim. Não entenderam nada do mau caratismo de Macunaíma. Escolheram o Guarani, porque é muito mais rentável. Já eu prefiro o herói sem nenhum caráter; pelo menos tem mais humor e putaria. 
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A dúvida, sempre. Escolher minha forma de gozo.
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Foi assim quando me aventurei a entrar na vida acadêmica pra valer. Na seleção de mestrado, disseram-me que eu não passaria de jeito nenhum com "aquele" assunto. Era preciso adaptar-me aos gostos dos outros, tão contrários ao meu. Passei em primeiro lugar. E segui em frente, tão teimosa como uma mula. Tão feliz como não se pode ser. E vou continuar assim. Mandarei seja quantos projetos for para estas máquinas oficiais de moer gente, até me darem dinheiro para fazer o que eu quero. Se querem saber a cor da cor da cor do verde da Amazônia, que venham aqui e coloquem suas botas compradas em Londres no lamaçal.  Levi-Strauss foi mais inteiro e por isso ninguém ainda fez melhor, apesar daqueles equívocos todos. Botas sujas com sinceridade no olho. Só querem que eu leia o zépovinho para poderem continuar lendo Dosto. Eu digo não, caetaneamente. Se o suor é meu, que todo o resto também seja. E sempre que puder, vou dizer como eles são ridículos vestidos de Antonieta mandando dar brioches, já que falta pão. Superioridade camuflada de. Por azar, estarão sempre no poder, reinventando suas formas de modelagem. Como disse, tô fora.

Outramente é tão mais bacana.

E ainda nem me disseram não. Talvez nem digam.
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terça-feira, 18 de maio de 2010

Sobre a perda de tempo

Eu falava de perder tempo - e da necessidade de perder tempo. Eu sou muito agitada. Já acordo dobrando o lençol. E todos os dias, passo ao menos uma hora num frenesi doméstico. No entanto, nestes dias, observando outras pessoas, percebi que sei perder tempo. Para ouvir o outro, para ver o outro, para sentir o outro.
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Hoje, qualquer coisa que dure mais de meia hora já deixa as pessoas em estado de frenesi. Eu sinto a impaciência rondando por todos os lados. Ontem, pessoa linda, e mesmo assim me perguntou: "vamos ver tudo?". Como se só houvesse tempo para a metade. Sim! O todo é tão legal. Marisa Monte diz que não deixa fazer coletânea dos seus discos porque cada um tem sua concepção e que, por isso, só deveriam ser apreciado no seu todo... Sei o quanto isso soa démodé.
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Como é que chegamos neste estado nervoso das coisas? Nesta onda de querer falar, de querer saber, sem dar o tempo? É esquisito. Eu sinto pudores. Fico nervosa quando me pedem para falar sobre algo, mesmo que eu já o tenha visto várias vezes. Sempre penso que, lesada, deixei passar os pontos essenciais e que é preciso ver um pouco mais, perder um pouco mais de tempo com aquilo.
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Lembro de uma conversa que tive com uma amiga na Tate Gallery. Estávamos com outro amigo e, diante daquelas várias exposições, ficamos um tempão na de Kandinsky, no fundo com um pouco de pesar por não termos mais tempo e disposição para as outras. Já sentadas, exaustas, nosso amigo finalmente se dispõs a ir vê-la. Quando ele saiu, ela, que tem uma lentidão toda especial no olhar, me falou: "Quer apostar quanto que ele voltará daqui a cinco minutos e falará como se tivesse visto tudo com a maior atenção do mundo?". Dito e feito, ele voltou e foi logo dizendo: "é a melhor exposição de Kandinsky que eu já vi!" 
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Com pesar, eu tenho achado que o mundo todo decidiu que ver é só passar os olhos e, em seguida, criar o discurso do já-visto. Pena.
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Escrever por puro gozo

Eu adoro isto aqui. Adoro este lugar de escrita. Eu não sabia quantos me liam, ou sequer se era lida para além dos meus três ou quatro comentadores que às vezes me deixam recados. Por isso, coloquei o marcador aí do lado. Curiosidade. Eu sou mesmo um ser curioso. E fiquei surpresa ao descobrir que diariamente têm uns quinze acessos por aqui. Ok, não é quase nada, se comparado a... Os blogs de decoração que eu vejo têm diariamente mais de 2000 acessos. Só que eu, humildemente, me contento com meu número de visitantes. Por outro lado, mais uma curiosidade: não daria um dedo, é certo, mas pagaria uma prenda para saber nominalmente quem são estes meus quinze.

Mas o que eu ia dizendo é que adoro escrever aqui - e gosto justamente porque é sem compromisso, porque é algo que faço por puro gosto. Por puro gozo. A escrita por nada. 2h da manhã estendendo roupas no varal. 3h da manhã lavando louças. 4h da manhã tentando encerrar projeto com data para ser entregue. 1h da manhã revisando texto mal escrito de doutoradeuniversidadechique - morro e não revelo o nome -. Aí vem a vontade de escrever aqui, mesmo sem assunto definido. Aí, escrevo. Sem obrigação alguma. O inverso das coisas do cotidiano. É uma das minhas miudezas, das minhas inutilidades. Por isso, não abro mão. 
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domingo, 16 de maio de 2010

regional versus universal

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brinco de menina levada no meio da noite. e como uma criança egoísta e malvada, encanto-me com meu próprio gesto, correndo o risco de me afogar no meu lago narcísico. estou cada vez mais convencida de que o grande barato da vida é ter o impulso - qualquer um. e quando é um que te oferece um risco, que seja ele que te defina. no meio de toda farsa, de toda pose, poder sorrir para dentro é a verdadeira saída. eu não quero espantar os anjos que devem rondar por aqui... eu quero dizer somente que eu estou feliz como há muito tempo não me sentia. como talvez eu tenha me sentido poucas vezes na vida. e tudo isso porque, de repente, eu sinto uma fé tremenda em mim mesma. e sim, mesmo diante do lago, eu ainda reconheço: muita gente me ajudou a chegar até aqui, até a este ponto, diante deste lago, observando a minha face - que balança.
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Dias ali

Ainda não tive tempo de explorar meu novo brinquedo. Um ou outro registro bacana. Na maior parte dos cliques, silhuetas borradas. E não vejo a hora de cair logo no mundo com o filho no colo, eu e Tatupai. Ouvi o cd dos Móveis coloniais do acaju e gostei muitíssimo. Também vi o documentário Coração vagabundo, sobre o Caetano, e gostei um pouco menos. Bom mesmo foi cruzar Rondônia, pela segunda vez, durante 10 horas para chegar a Porto - eu e Poeminha. Que dias bons. Encontrei Marcos por lá. Teve jantar oferecido pela Carla e, de quebra, Binho tocando violão.  E o dia na rede, naquele sítio. E minhas duas meninas, sempre. E ainda almoço na Ida, como nos velhos tempos. Manu, na plateia da conferência do Marcos. E que moço simpático, aquele Marcelo. 

Nem parecia que eu estava a trabalho.

Quando é que foi tudo isto mesmo? Já vai fazer um mês? Puxa, como é que pode?
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terça-feira, 11 de maio de 2010

O traço de cyane



o traço delicado de cyane é de puro horror. horror é uma palavra que ela usa. e aquilo que só percebe quem olha detidamente. muito de perto. de longe, sua tela é uma tela branca. ela vai na contramão desde aí: na decisão de exigir daquele que vê o movimento da atenção. um movimento difícil nos tempos de hoje. o que perturba é a androginia absurdamente humana - algo ou alguém, não se sabe quem, ou o quê, fisgado por anzóis que perfuram, comprometem, aniquilam. assim, um traço. um traço perturbador. amo amo amo. aquele amor que dedico a quem me perfura, me corta, me estrangula. e me enternece ao mesmo tempo.
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sábado, 8 de maio de 2010

Recaída - Ou Jimmy Corrigan


Sim, não devia. Não devia, mas estou lendo. Sabe o que é dormir às 4h da manhã três noites seguidas para tentar dar conta de fazer um projeto? Dormir às 4h e, por causa disto, não ouvir seu filho chorar às 8h da manhã? E com lágrimas nos olhos agradecer aos céus, aos deuses, ao acaso, ser o dia da diarista que ouviu e o acalmou, sem que eu nada ouvisse? Pois tem sido assim meus dias nesta última semana. E se eu ainda estou por aqui, a esta hora acordada, é porque a adrenalina não me deixa dormir.

E ainda asim, estou lendo/vendo, aos pouquinhos, Jimmy Corrigan, O meino mais esperto do mundo, de Chris Ware, a HQ mais estranha, mais esquisita, mais diferente que eu já tive o enorme prazer de conhecer. É porque tudo me doi. Vai ver nem é tão brilhante assim; vai ver é porque me doi (não levem isto a sério, pessoas muito mais sérias do que eu - e por razões muito mais sérias - se encantaram com esta história!). Me doi não porque sou eu, mas porque poderia ser eu. E porque estes vazios, este desenho tão sóbrio e que, no entanto, dá a aparência de ser quase infantil, geram um incômodo tremendo. Porque de algum modo, é como se o tempo todo nos pedisse: aprenda a ler. 
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É isso, então. 
É bonito e é triste. 
É muito triste. 
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E eu sinto medo. 
Como mãe, sinto medo.
Como filha, sinto medo. 
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E ainda assim, agradeço. 
Quem sabe, com medo, eu possa errar menos. 
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Esqueçam. 
Jimmy Corrigan nada tem a ver com isto. Com este medo. 
É simplesmente fabuloso. E isso é muito.
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Para o filho


Poeminha, sua tia-avó, aquela que fez todo o seu enxoval,  hoje finalmente lhe conheceu, e, realmente surpresa, exclamou: "Meu Deus, é o Ney!"

Ney, como você já sabe, é o Tatupai.

E ela sabe o que fala, filho. Conheceu seu pai quando bebê. Depois, mais calma, mas não menos surpresa, falou: "É como se Ney tivesse nascido outra vez". 

Viu, filho, que bonita esta parecença tão grande! Eu já perguntei para o seu pai o que é ter um filho tão parecido. E se perguntei, é porque também me espanto. Por várias vezes, ao ver vocês dois juntos, me veio uma emoção grande. É porque vocês realmente se parecem. Não posso mostrar aqui, filho, mas já os fotografei no banho - realmente vocês são tão parecidos... E não é só físico, filho. Desde já, não é só físico. É o olhar, o gesto, o encolher as sobrancelhas... É tudo.
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E o que há em você meu? Ainda não descobrimos. Eu me contento em saber que você saiu das minhas entranhas. E que se alimenta do meu corpo. Já me é muito. Mas lá no fundo, talvez, eu sinta um certo ciúme. Mas ciúme, filho, nunca foi um sentimento que admiti, embora já o tenha sentido. É porque ciúme é uma forma egoísta de amar. E o amor, filho, é passarinho... Esqueça não, Passarinho... 
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domingo, 2 de maio de 2010

O último suspiro de Buñuel

Livro lido há um tempão.  

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Meu último suspiro é um livro incrível do Luis Buñuel - não tanto pela linguagem, um pouco decepcionante para quem está acostumada com seus filmes, mas pela vida intensa deste cineasta. Ele conta seus feitos como se tudo tivesse sido por acaso, como se os acontecimentos da sua vida pudessem ocorrer com qualquer um.  Esta ideia sempre me  encantou: creditar as vitórias e também as derrotas a um caminho feito meio às cegas. Talvez por ele ser um gênio, assinalar a sua genialidade e a de seus amigos não teria cabimento.  Lembrou-me uma frase do Domingos de Oliveira. Em seu programa com a Deborah Colker, ele falou mais ou menos assim: "Como continua com esta simplicidade? Um  sábio não sabe que é sábio". E assim é Buñuel. Ao invés de apresentar um relato crítico, ele insiste em dizer que tudo foi obra de  alguns jovens que tinham em comum apenas a intensidade dos dias vividos em grupo.E neste tudo consta, por exemplo, o movimento surrealista (!!).

Os dias.  Espanha. Paris. As amizades da juventude - as únicas que ficam para sempre. Os amores. O amor. Um e outro acontecimento sobrenatural. Aquele encontro. O pai. A familia. A saudade do passado.  Acho que a vida, qualquer uma, é feita disto. Mudam-se os lugares, as pessoas, mas a base vem sempre do encontro, que é sempre um acaso.
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sábado, 1 de maio de 2010

Estaaindaeu

Saudade do blog. Saudade. Esquisito, né? Bem aqui, a saudade. Tanta gente tão longe. E a vida na correria. Sinto-me centrada. Todos os dias, os afazeres. Os afazeres de todos os dias. E ainda assim, feliz. Sim, feliz. É porque há uma brecha. É porque estou na Universidade. E eu queria ser isto: uma pesquisadora. É porque eu sou mãe. Não sabia que queria sê-lo, mas, sendo, sou por inteira um ser. E agora, aqui, eu e ele, ligeiramente bêbados. Por inteiros, cheios de ternuras. Se queres saber, ainda sou uma leitora. Dias e dias com Fernando Pessoa. E agora, tão aqui, Mário de Sá-Carneiro. Ah, ele que sofre. Ele, todo volúpia.Quando leio? Enquanto a Bisa não o deixa sentir minha falta. Belisque-me. Ou me deixe nesta ilusão: de que não importa o lá-fora. Aqui, somos por inteiros amores.
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quarta-feira, 28 de abril de 2010

afff

Três dias sem telefone e semana sem internet. A Oitelecom fazendo das suas. Por outro lado, tempo para fazer uma porção de outras coisas. Poderia ser o paraíso. Tive até recaídas de leituras. Mas o fato é que hoje a internet é um mal necessário. A vida prática deixa de andar. 
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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos, de Otto


Se o cd anterior de Otto era uma celebração ao amor (todo os seus fãs lembram que as músicas giram em torno de uma viagem feita com seu amor), este é um cd que canta as dores do amor quando ele acaba. E por isso é tão pujente, tão dolorosamente belo. Otto é uma figura ímpar na música brasileira contemporânea. Não tem o refinamento de um Lenine nem os trocadilhos geniais de um Zeca Baleiro (só para citar alguns dos seus "próximos"), mas tem uma candura visceral que não se encontra em qualquer um.

Ele cria versos pungentes, tais e quais as estocadas que o vimos dar nas fotografias do álbum. Amei o cd desde a primeira música: Crua: "há sempre um lado que pesa/ e outro lado que flutua a tua pele/ é crua". E o título é genial. Referência a Kafka, que nos ensina a estabelecer uma ligação com toda e qualquer vida que corre sem sentido. Otto goza. Otto sofre. E diz tudo em suas músicas. É muito foda. Ou é muita foda. Tudo transpira. Suas releituras de músicas bregas do passado dizem que todos temos um coração que sangra - frase brega por excelência. E quando ele urra com a sua voz está por inteiro tomado por essa breguice: "[...] nasceram flores/ num canto de um quarto/ escuro/ mas eu te juro/ são flores de um longo/ inverno".

Tem um verso mais lindo que o outro, mais perturbador que o outro: "conforto alucinante/ tranquilidade na clareira do caos". Até quando regrava, escolhe aquilo que é mais pungente: "beleza são coisas acesas por dentro" (Mautner e Jacobina).  E se no cd anterior, tinha a voz de Alessandra Negrini, o amor perdido, neste tem as belas vozes de Céu e de Julieta Venegas. Por essas e outras, esse cd não para de tocar aqui em casa.  
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terça-feira, 13 de abril de 2010

Quequéisso

Difícil. Algo entre muito e muito difícil. Por inteiro meu corpo reclama: todas as lutas reivindicatórias da mulher deram nisso? Eu falei para o Tatupai: "É porque antes eu vivia como homem, embora sempre tenha havido em mim uma porção mulherzinha". Gente, quequéisso? Impossível dar conta de tudo. Meu grau de exigência é grande. E o que tenho aprendido nestes dias é baixar a bola. Como ser professora, pesquisadora, mãe, mulher, donadecasa? E ainda ser leitora? Ainda ter tempo de encostar a cabeça na rede e ouvir um cd? E ver um filme? Por dez ou vinte minutos ler um livro fora do programado? ... Eu fico aqui, então, como quem sabe que a vida antiga me foi inteira roubada. E que a vida de agora, embora o tempo todo tenha me consumido, é muito boa. É porque ardo de desejos. É porque me queimo nas minhas neuroses. Por que, jesuscristinho, não consigo ficar em paz com uma casa pelos ares? Por que tenho vontades tantas? Talvez porque o corpo aguenta. Sábado, meus pés latejaram um tanto. Sete horas e meia falando para alunos que... deixa pra depois. E, no entanto, o depois sempre tão bom: filho nos braços. E tanta coisa - como se estes minutinhos de inteireza  fossem definidores de tudo que importa. Este sorriso de quem sabe que - ok - é difícil, mas é tão bonito.
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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Noiteadentro


Noiteadentro. Filhodormedepoisderesmungar. Maridoespera. Umaeoutraalegria. Eumedivirtonasaladeaula. Digoaosalunossemdizer: a-pro-vei-tem a beleza. hábeleza, podemcrer. Talvezporquepasseiodialendoflorbelaespanca. Comoébonito! Aqueladortãomaçante. É o que t-e-n-t-o: sempre a alegria. Sempre o desejo. Sempresempreoagora. Tudo em mim é imenso: osdesejososdesejos. Por isso compreendo tão bem. Porissoadmiroacasaquesefazaolonge. É seu único porto. Seu único amparo. A-M-P-A-R-O. Nem o meu, nem o seu, mas o dela. Perdoar é a grande sacada. Saber que todo e qualquer outro é uma bolha. Quando alguém gritar com você, e por isso você chorar, lembrar que nada é pessoal. O outro grita. Mas gritaria com qualquer outro. Não é por sua causa. Saberdissoéograndemilagre. É a chave. E sentir. Amar aquele menino doido e doído que já fui um dia. Amar este moço que me espera. Amar meu filho que dorme. E não me deixar levar pela ausência do que não tenho. Terei algum dia. Ounãoterei e aprendereiaconviver com isto. E o presente. É tão bonito. Étantooqueeuqueria. Merci,Tatu. Agora, sim, ir bem ali. Earquivartudo. O arquivo como um ato amoroso. De quem ama.

para o filho


Poeminha, você é um glutão - como o seu pai. Maça banana pêra caqui melancia melão uva, tudo você já comeu. E também feijão arroz carne peixe legumes. E sem passar no liquidificador. Você mastiga como quem sabe. Sorri, abre a boca, agita os bracinhos e vai provando os sabores do mundo. E não teve nenhuma dor de barriga, como tanto nos alertaram. Uma revolução, Poeminha, na nossa geladeira, sempre tão cheia de guloseimas industrializadas ou tão vazia de donos que almoçam fora. E, filho, ontem fiz seu primeiro almoço. E você logo vai saber: eu não sei cozinhar. E não gosto. Mesmo assim, senti-me tão orgulhosa, tão feliz fazendo a sua comida. Nem sucos eu sei fazer, filho. Ou melhor, não sabia. Diante de uma melancia: "e agora, põe água ou não?" E com o melão: "coa ou não coa?" E com as uvas: "tira as sementes?". Assim, filho, atrapalhada, eu vou me descobrindo, encontrando respostas que viram deliciosos sucos e almoços que passam pelo crivo do Tatupai, ele, sim, o cozinheiro da casa. Viu, filho? Você é um sortudo. E eu também: seu pai está aqui pronto para te salvar e  salvar a Tatumãe dos apuros da cozinha: "quanto tempo deixo a carne cozinhando?". "Ah, tá, então tá".
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sábado, 3 de abril de 2010

Decor

Eu gosto muito de blogs de decoração.
Acho que é meu lado voyeur espiando o gosto dos outros.
Ou será porque eu gosto muito de decoração?
Sempre bom buscar as causas menos psicanalíticas = rir de mim mesma como forma de não me levar tão a sério.
E mesmo assim, sempre me causa espanto ao perceber o quanto estes blogs têm seguidores.

Gosto especialmente destes:

http://www.desiretoinspire.net/
http://www.casadevalentina.blogspot.com/
http://www.decoeuracao.com/ 
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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Beckett fotografado

O que eu queria mesmo era ser a autora destas fotos.
Na impossibilidade, fico aqui sonhando com o livro.

BANIER, François-Marie. BECKETT. Gottingen: Steidl, 2009.
Imagens: http://www.fmbanier.com/node/2580
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quarta-feira, 31 de março de 2010

Coisas da vida

A vida anda rápida, rápida, e eu mais lenta do que poderia. Abril já? Não pode ser. Mas é. Poeminha cresce tranquilo. Delícia isto: um filho risonho, sempre a postos para brincadeiras mil. Quase não chora. Tudo bem que não tem motivos. O tratamento é vip, creio. Mas sei que existem crianças que, apesar de todos os cuidados, chora bastante e por qualquer razão. Poeminha, se chora, quando estamos brincando com ele, é sono. Sigo direitinho os horários das suas mamadas - e agora dos seus sucos e papinhas - mas por duas ou três vezes dei uma escorregadas. E ele, tranquilaço! Nem pra avisar...

Talvez não seja apenas sorte. Talvez o ambiente tranquilo seja o que o faça feliz. Sim, porque tenho certeza de que ele está feliz, embora ainda não saiba o que é este conceito, tão perseguido, tão fugidio.  Eu mesma estou muito mais relaxada.. No início, eu quis seguir várias regrinhas e me angustiei muito "tentando não ser uma mãe igual às outras". Pronto, disse. Acho que ficava lendo de madrugada só para não ter a sensação de que tinha passado o dia entre fraldas. Digo isso porque já não tenho lido de madrugada. Há dias que fico o tempo todo com ele. Em outros,  deixo-o na casa da bisavó no período da tarde. E sem angústia, o que é muito melhor. 

Este negócio de que os filhos nos deixa mais sábia é bem verdade, pois embora eu sempre tenha tido um "ritmo lento", sempre me chicoteei muito por não dar conta de tudo. E meu "tudo" é muita coisa. Lista infindável de livros, de filmes, de cds que não posso morrer sem ler, sem ver, sem ouvir. Pois bem. Posso morrer. E isso não será nenhuma tragédia. Tragédia mesmo, para mim, será morrer cedo... 

Se passasse dois dias sem ver um filme, já ficava inquieta. E ontem eu me dei conta de que não vi ainda nenhum dos filmes ganhadores do Oscar. Ou melhor, não vi nenhum filme nas últimas semanas. Virei então mãe? Virei. Mas uma mãe à la Milena. Sinto que o que Poeminha tem me ensinado é focar nas prioridades. Por exemplo, agora que estou preparando uma disciplina, tenho feito apenas isto. Todas as leituras têm sido direcionadas. E  nem doeu deixar pela metade aquele livro maravilhoso sobre a Clarice, e aqueloutro do Faulkner. 

PS. E estou esperando, ansiosa, a chegada de um presente. O presente mais bacana - senão o objeto de consumo mais cobiçado - da minha vida. Coisas do Tatupai. 
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segunda-feira, 29 de março de 2010

Eu, professora. Eu, Milena

Havia desencanto ontem. Ou antes de ontem. Já não sei mais. Por isso, o texto daí debaixo. É o sofrimento de sair da bolha. De saber que apenas nela me sinto plena. Hoje, sem desencanto. Ir sempre além da imagem. Forçar o entorno e acreditar. Estou às voltas com 100 anos de literatura portuguesa. É uma insanidade, sem dúvida. Mais uma ementa inapelavelmente sem sentido. Porém, tão instigante. E eu me renovo nisto. Na possibilidade de ler muitos livros que ainda não li, ainda não conheço. O desconhecido, eis. Disse ontem aos alunos: gosto de aprender. Eles não devem gostar. Devem preferir o professor que veste a persona de sabe tudo. Eu arrisco umas ironias, mas jamais a soberba. Então, eu leio. Que maravilha: Fernando Pessoa, Cardoso Pires, Saramago, Lobo Antunes, Teolinda Gersão, Adília Lopes... E vários outros. Arriscar-me, eis. 

Na ida a Porto Velho para a aula inaugural do mestrado, visitei os amigos do antigo trabalho. E embora eu sempre diga que detesto a ideia do sacrifício ou da batalha árdua (porque tudo foi, no fundo, uma grande festa!), foi bom lembrar que fiz escolhas. Eu poderia ainda estar lá, confortável com o rico dinheirinho que o emprego de revisora me possibilitava; e não estar deve-se unicamente ao fato de não querer estar. Mari, que escreveu nos comentários, tem razão. É bom lembrar minha trajetória. Ela é bonita. E eu  não quero esquecer disto. E quero que continue sendo bonita.  Quero que as malas sirvam não para que eu tranque desejos, mas para que eu as encha de vontades. Devo isto a mim. E agora ao meu filho.

ps. adorei a imagem. Encontrei-a lá no "imagens" do google.
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sábado, 27 de março de 2010

Peixe pequeno

Recebi hoje no meu email, um cartaz da ABRALIC. Pra quem não sabe, a ABRALIC é a Associação Brasileira de Literatura Comparada que promove um dos encontros mais bacanas de Literatura do meio acadêmico.  Eu gostaria de ir, mas há uns dois meses decidi não ir -  escolhas. Porém, ao ver o cartaz, fiquei por aqui experimentando sentimentos que não deveriam ser públicos - e ao mesmo tempo não há por que não sê-los. Lembrei do que um dia a Mari, minha melhor amiga, me disse: algumas universidades, alguns seminários, já nascem grandes. E seus organizadores, seus dirigentes, resmungam como se assim não fossem. Como se fossem grandes devido a uma batalha árdua e corajosa. O fato é que lembrei disto por que a Universidade onde estou é peixe pequeno. Nasceu peixe pequeno. E não importa o que se faça, o que se deseja fazer, continuará sendo peixe pequeno. E seus dirigentes, seus organizadores, se digladiam ou se confraternizam como se assim não fosse, porque é a forma que eles encontraram para assim não sentirem a  pequenez. 

Nesta semana, participei da aula inaugural do mestrado do qual farei parte como docente. Oficialmente, tenho minha primeira orientanda. E não poderia ser mais bacana, afinal ela é uma das participantes do  grupo de pesquisa do qual faço parte. Para retirar a medida de emoção inerente a um momento deste, problemas de toda ordem. E os salgadinhos, ah, os salgadinhos, foram por conta da boa vontade de um dos professores (não era para ser uma vaquinha?), afinal por que a Universidade deve se preocupar com isto?
 
Ainda hoje, como líder de um grupo de pesquisa, pus o meu capacete de burocrata e fui atrás de uma sala maior para abrigar os cerca de 20 interessados que, às segundas-feiras, dia do encontro, têm lotado nossa minúscula sala. Não consegui, evidentemente. Só coloquei mesmo meu capacete porque ele combinava com meu penteado. Para consertar os computadores que há por lá, não tive nenhum pudor de tirar o capacete e barganhar o meu corpitcho com um Tatupai em troca de uns serviços técnicos de informática. 

Gracinhas à parte, as verdades que me assaltam exigem respostas. Ou exigem que eu me cale. Há cerca de um mês, assisti ao filme Foi apenas um sonho. E lembro que uma das partes mais doídas é quando a personagem descobre que só suportava aquele território inóspito por que se achava diferente. Eu devo ter me identificado. Porém, já faz tempo que não me sinto diferente. Ou a minha sensação de ser diferente sempre veio acompanhada de uma desconfiança em relação a mim que preexiste a qualquer sentimento de diferença. 

Não sei se estou sendo clara. Também não precisa. O que eu precisava mesmo pôr para fora é que eu piso em território inóspito, sinto-o sob meus pés, perdendo a crença, a delicadeza. E com isso não desmereço pessoas. Não estou falando de conhecimento. Ou de competência. Estou falando de estrutura. Do fato de ser peixe pequeno. Arranho vez ou outra as escamas que me cabem como parte deste peixe pequeno, sem de fato arrancá-las de vez. O que me resta, então? 

A consciência é insuportável.  É dolorosa.
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sexta-feira, 19 de março de 2010

Sobre o trabalho

Volto a trabalhar na próxima semana - e hoje comecei a ensaiar a volta (ou seja, comecei a preparar a parte que me me cabe neste semestre!). Causa espanto quando digo que poderia passar a vida sem trabalhar, mas, sim, eu poderia. É certo que eu batalhei para ser professora universitária. Por essa profissão, submeto-me a um corpo de forasteira. Porém, jamais diria uma frase como: "o trabalho é a minha vida". Nem de longe o meu foco está apenas no trabalho - nunca me entedio aos sábados, domingos e feriados. E isso desde sempre. Trabalhar é bom para ganhar dinheiro. E para mim, "dinheiro é um pedaço de papel,.... Dinheiro tem valor quando se gasta". Eis uma das lições valiosas do moço lindo Arnaldo Antunes.

Existem muitos pequenos prazeres - e são por eles que vale a pena viver - e trabalhar. Nestes seis meses, vivenciei muitos desses pequenos prazeres. E custa-me sair da bolha! Não foi apenas ser mãe. Foi descobrir ainda mais a delicadeza. A emoção de viver fazendo o que se gosta, com quem se gosta. Sinto-me, sim, invariavelmente cansada; olheiras, muitas.  É uma mão-de-obra ser mãe! Porém, eu fiz tanta coisa. Li uma porção de livros - e deu tempo de adquirir outro hobby. Sim, sim, agora sou uma senhora que assiste a séries de TV. No caso, quatro: The good wife, Brothers and sisters, House, 24 horas. A princesa passou por aqui e implantou este vírus nos Tatus. 
Eu sinto uma grande alegria por ser assim. Respeito muito a história de quem passa a vida trabalhando e faz disto a base de sua vida, mas não me serve de exemplo. Eu sempre achei que precisava dar um passo a mais, cultivando o estar à toa na vida. E cavando muito bem as minhas horas à toa, sem desperdiçá-las com porcarias como este tal de Big Brother (desculpem-me adentrar neste assunto, mas enquanto escrevo não consigo parar de pensar em uma das chamadas do Yahoo, que diz que mais de 70 milhões votam nos "paredões". Quequéisso, meu jesuscristinho. Pensando bem, pra quê tempo livre para este 70 milhões?!!).
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quinta-feira, 18 de março de 2010

Uma casa sem a casa

Mudamos. Bem que ainda posso dizer no gerúndio: estamos mudando. Dias e dias organizando os livros.  E mais um dia e uma noite, os cds.  No dia que trouxemos tudo, caiu uma chuva de lascar. Roupas do Poeminha, na lama. Ainda estão ali com a esperança vaga de voltarem a ser brancas. E aquele ovo comprado em Paris, num bairro remoto onde fui pegar minha carte d'étudiante, este não teve jeito: quebrou. Dava para passar superbonder, mas não gosto de remendar, emendar nada. De que adianta uma beleza remendada?

Já fui menos apegada às coisas, foi o que descobri nesta mudança. Antes, quando algo quebrava, eu me consolava pensando que já tinham cumprido seu tempo por aqui. Desta vez, talvez pelo excesso de quebra-quebra e arranhões, fiquei mal humorada um par de horas; não mais que isso, pois mau humor por muito tempo é falta de educação.

Foi o susto. Não menos do que uma centena de caixas. É o que dá ter uma casa sem de fato ter a casa. No fundo, passamos a vida no provisório, mas procurando viver como se assim não fosse. Agora, olhando em volta, consola-me ver tudobonito. Ok. A pia da cozinha ainda não chegou. Tatupai ainda não organizou a sua estante de tralhas. O ainda. Mas como diriam os mais velhos, o pior já passou. E muito por causa da minha compulsão de fazer tudo o mais rápido possível.

Espanta-me a quantidade de vezes em que ouvi que mudança é assim mesmo, demora dias, meses - até anos - para pôr tudo em ordem. Não, não. Não consigo. Só senão fosse filha da minha mãe. Meu desejo é fazer tudo logo para que assim a vida comece a andar em outro compasso. Sinto falta do outro compasso.
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Para o filho


Poeminha, quase seis meses. Nova casa para você. Agora, sim, espaço para você andar, quando assim decidir. Longe da beira da estrada - imagem tão valiosa para sua mãe; uma simbologia que relutei em me desfazer. Nestes dias, tive medo, filho, de ficarmos presos aqui para sempre. Como carregaremos mundo afora todo este peso? Estes pensamentos tortos no meio da noite, quando você dormiu pela primeira vez no seu quarto, no seu berço, que deve lhe parecer enorme, em comparação com o que estava no nosso quarto - tão bonito, aquele. Sentirá saudades dos balanços? Fiquei de olhos arregalados no escuro, filho, porque já não podia simplesmente abrir os olhos e lhe ver pelas frestas, como se o pequeno espaço que agora nos separa à noite fosse um vão enorme. Não é, filho. Certamente, acordei com seu primeiro movimento. Você terá percebido que estava sozinho? Se percebeu, você foi bem discreto. Logo parou de resmungar quando eu lhe acalentei na nossa cadeira de balanço. Uns "golinhos" de leite, como eu costumo brincar, e você já de novo dormia.

E foi assim que com medo vi o medo passar. Não, filho, não ficaremos presos aqui. Não estamos presos. E sei que iremos qualquer dia. Nada que um grande caminhão não possa levar - um caminhão como aquele que trouxe a  cadeira que nos balançamos à noite. Exceto os livros e os cds, nada que não possa ser deixado para trás, apesar de sua mãe tanto gostar. Somos de nenhum lugar, filho. E ainda caminharemos muito pelo mundo. Tenho certeza.
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