sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

para o filho



Poeminha, amar é tão fácil. educar é que são elas. filho, eu  temo não ser uma mãe perfeita. tenho lido alguns sites de mães na ânsia de entender o que significa este troço danado de fácil e danado de difícil. na maioria das vezes, acho-as bem melhor do que eu. embora, na sã consciência, eu saiba que  pensar assim é bobagem. é porque eu sinto que serei uma mãe exigente e às vezes ausente. amorosa, sim. muito amorosa. eu não poderia contar quantos beijos e abraços lhe dou por dia, nem quantas vezes digo que lhe amo. e cuido de você sozinha. não temos babá. e não sei quando teremos. muitas mamadas. e colos. e banhos. e arrumo você todo. você ja é estiloso desde agora (gostará de sê-lo quando crescer?). e faço massagens em você todos os dias. e me chicoteio porque não consigo acordar cedo para lhe dar banho de sol. você é cheiroso, muito cheiroso. gosto de homens cheirosos, filho. sempre gostei. e  agora você é meu homenzinho.

eu recolho cada sorriso seu. que são muitos. você é muito, muito sorridente. já leio histórias para você. e lhe mostro o mundo colorido. hoje ficamos à beira do rio. e eu sacudi meus pés na água como você faz na banheira para que você sentisse que o rio não é mais do que a sua banheira em tamanho maior. assim não é preciso ter medo. falo isso tudo para você. falo como adulto, sem colocar os "l" no lugar dos "r". mas minha voz às vezes sai meio infantilizada. e automaticamente faço o barulho de "carrinho" que você aprendeu com seu pai e não para de repetir. enfim, nada lhe falta. meio criança meio adulta, é assim que sou com você.

mas sou exigente, filho. não acho que deva sempre lhe dizer sim. você tem apenas três meses e eu já acho isto. é por isso que agora você chora no berço. eu e seu pai estamos tentando lhe ensinar a dormir mais cedo. é muito cedo para dormir tão tarde, filho. preparamos seu cantinho - e seguimos o mesmo ritual todas  as noites. e mesmo assim você chora. não lhe abandonamos. vamos lá de cinco em cinco minutos dizer-lhe que está tudo bem, que é apenas hora de dormir. mas ainda assim você chora. até quando? não sei, filho. mas sei que como estava, era muito difícil para mim e seu pai. horas e horas lhe ninando, balançando na rede, e você nem dormia nem ficava em paz acordado. aí resolvemos seguir o conselho do médico: "ensine seu filho a dormir sozinho". e assim tem sido. quando você finalmente resolve, crava os olhos no seu coelho e dorme gostoso. só acorda manhã alta. foi sempre assim. se alguma vez me ouvir dizer que, quando você nasceu, perdi noites de sono, pode me desmentir (logo você vai perceber que as mães adoram exagerar seus feitos!). você apenas não quer dormir cedo, embora a irritação, o choro, as mãozinhas esfregando os olhos deixem claro que você tem sono. mas não quer dormir e, por isso, chora. e chora como quem pede colo.

poderei evitar todos os seus choros, filho? acho que não. aprender doi. existe o sim e o não neste mundo. muitos sins e muitos nãos. e eu posso estar enganada, mas tenho cá em mim que se eu lhe disser apenas sim talvez contribua para que você seja como estes seres sem vontade que eu vejo a cada dia. seres sem força, sem ação, sem paixão - engolidos pela vida de todos os dias. entediados pela quantidade de facilidades que a vida lhes ofereceu. todos os sins do mundo. nenhum não.

nestas noites, você tem ouvido seus primeiros "nãos". é a primeira bola que lhe jogo. agora, você vai ter que aprender a dormir sozinho, no seu berço. e descobrir que mesmo assim está protegido.

dói, filho. mas eu sou durona. e você vai ter que aprender a lidar com isso.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Opinião de amiga

 A Kotz disse: "olha como é legal esta luminária!". E depois acrescentou: "mas o que não é legal neste apartamento?". ok, opinião de amiga não vale. Mas é bom ouvir...

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eu não disse que ficávamos paquerando?
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ainda agora, na varanda, a chuva cai. e nós.
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sábado, 9 de janeiro de 2010

Soda acústica



conheci o soda acústica no palco do Itaú Cultural de Sampa. na época, eu não sabia, mas vivia uma solidão a dois dos diabos. pois foi assim, numa solidão a dois, que ouvi pela primeira vez o Soda. e me apaixonei por eles ali. eu e minha solidão. uma amiga me disse que o nome da banda cheirava a coisa de adolescente. mas eu garanto que não é coisa de adolescente. não o nome, e sim a música que vem da banda. esta rapaziada - Rinaldo, Anderson, André -   é pop. é jovem. é cabeça (ainda se usa esta gíria?). é uma delícia de ouvir.

é bem inteligente sem ser pretensioso. quer dizer, às vezes é pretensioso - numas letras que querem salvar alguma coisa - demoEGOcracia. mas tem uma ironia tão boa, uma utopia tão boa, que vale ouvir muitas vezes. um som que soa diferente. pouquinhas notas. mas coisa fina - aqui e ali,  a repetição comanda e - epa - uma nota arranha  diferente, estranha, surpreendente, dissonante. um cuidado com a palavra. poesia. coisa de poeta  - adoro se "e se eu for um arremedo/ o início de um ano velho/ janeiro sem enredo"::: a expressão do nosso tempo, da nossa  hesitação diante das coisas do mundo. tem um quê de bandas alternativas. me lembram uma porção de bandas e me lembram nenhuma ao mesmo tempo - e isso se chama originalidade (mais uma palavra démodé). me lembram Arnaldo Baptista. me lembram os the darma lóvers. e como disse, lembram eles mesmos - uma consiciência musical de quem sabe por que canta, por que quer ser artista, por que quer fazer música.  

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

(re)soluções do novo ano

- voltar a assistir a um filme por dia (ao menos).
- voltar a tirar fotografias com a mesma constância e alegria.
- cuidar menos da casa. mas comprar uns mimos para ela que estão na lista.
- gastar menos.
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o bicho da seda tece. não sabe se uma colcha colorida. ou algo mais sóbrio - preto e branco talvez. agora ele trabalha bem na minha frente. paqueramos. dividimos a mesa. e a felicidade. às vezes, me deixa sozinha. eu peço. e ele deixa. 
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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

bortolotto


estou vindo agora da leitura do "atire no dramaturgo", do mário bortolotto. aquele, que levou três tiros e trouxe de volta a discussão sobre a segurança na praça roosevelt, em são paulo. aquele responsável pela tão propalada "revitalização" da mesma praça. leio o blog do bortolotto faz tempo. não teve nada a ver com os seus tiros. tem a ver com a minha paixão pelo teatro de sampa, que me faz falta como o diabo. assisti a algumas peças na praça roosevelt. o ar underground é ducaralho. eu gostaria de ter me embriagado lá mais vezes. na última vez que fui a sampa, aniversário, perambulei por lá. já faz tempo. nem eu podia adivinhar como minha vida mudaria a partir dali. talvez eu desconfiasse dada a quantidade enorme de telefonemas que recebia do Tatu enquanto perambulava, extasiada com a constatação de que nenhuma lembrança de um amor partido tirava a minha alegria de estar ali, de conhecer o espaço cultural de sampa como a palma da minha pica, se tivesse uma  - à la leminski. agora tudo acontece sem mim. mas eu engreno outras vivências. e a saudade de lá é sempre domada pela nova vida que se faz. eu olho e agradeço. eu olho e me espanto.

mas leio que não sou besta, amém. viver como ameba nem um único dia, que por aqui o tempo pode ser curto. e se for? terei vivido tudo. estou só esperando que minha conta corrente coopere um pouquinho mais comigo para cair no mundo. difícil demais quando me faço tão indisciplinada. a disciplina é sempre tão careta. a piada aqui em casa é que eu gasto meu salário, o do tatu, meus bicos e também os dele. mas agora é novo ano e eu vou criar juízo. depois perco de novo.

mas, voltemos.  lindo o modo como bortolotto lidou com a sua sobrevivência. ele ele ele. chorei um bocadinho. ando assim. vida longa ao dramaturgo que ele merece. vida longa à praça roosevelt e aos bêbados que passam por lá querendo respirar um pouco dessa loucura sã que é querer viver acreditando que a cultura vale - até mesmo três tiros.
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Show do Binho e a vida



A vida é mesmo linda. Com meu filho ficou  fácil. Nunca gostei da tristeza. Já fui triste, mas mesmo quando era deixava que meu sorriso comandasse e acomodasse as tristuras. Às vezes, basta-me um filme. Ou uma frase em algum livro. Nem isso. Só uma folheada já me faz ganhar o dia. Ou um email. Comunico-me  menos com aqueles que estão longe, mas mesmo a falta de comunicação me traz o prazer do gesto raro. Saturada das facilidades da Internet, comovo-me quando venço a mim mesma e chego até ao outro. Bebo uns goles de vinho nas quase madrugadas. Poeminha há de perdoar algumas gotas que vão para ele: "filho, vinho é tão bom, sair um pouco de si mesma é melhor ainda!". Todos em mim: mari, marie, binho, manu, maneca, jéssica, mana, arev. Tanta a distância de tantos que amo.

Fomos ver o show do Binho em uma cidade a quatro horas daqui. Ji-Paraná. O show foi ducaralho. Bado estava lá nos violões. Mettal nas projeções. E Carlos Moreira nos poemas. Eles são desconhecidos em âmbito nacional, mas é uma turma fudida de boa. Música de primeiríssima qualidade. E são gentes raras. Amo tanto o Bado e o Binho que nem sei. Ensinam-me um mundo a cada vez. Plateia quase vazia. Ser público é para quem tem sorte. Eu tenho muita. Eu, meu filho, Tatu, o amigo dele nas estradas, ouvindo muita música e jogando muita conversa fora. A vida é mesmo linda. E depois do show sempre rola um barzinho. Eu, meio preocupada com o barulho por causa do Poeminha, mas ele dormiu entregue aos seus sonhos, e eu senti que podia ser eu mesma sendo mãe.

Tenho seguido meu caminho. É o meu modo de me proteger do mundocão e de mim mesma. Dois, três dias sob tensão e já me vem uma vontade de esquecer tudo - tempo, tempo, tempo, salve-me. Depois do show do Binho, passamos a tarde em um hotel fazenda. No meio da floresta, escorreguei, quase ralei o joelho e lembrei do que realmente vale a pena, e por que estou aqui.
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O cinema

"O cinema não tem regras. Por isso ainda o amam"
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"É preciso viver as histórias para inventá-las".

Jean-Luc Godard, em Paixão.
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tão difícil a reinvenção de si.
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

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3 dos 90 dias. vamosverseconsigomereinventar.
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sábado, 2 de janeiro de 2010

para o filho


Poeminha, você foi a estrela do natal e da festa do ano novo. a família do seu pai em volta de você. datas importantes, filho. para mim, sempre alguma saudade. e alguma tristeza dos muitos natais que não tive. você os terá, filho. eu prometo.

à meia-noite, eu e você vivemos um momento lindo. posso lhe garantir que vivi um dos momentos mais poderosos da minha vida (e olha que cultivo com amor momentos poderosos). saímos de casa para ver a queima de fogos. eu não queria ir. vontade de lhe proteger. como imaginei, você se assustou. com os primeiros barulhos, chorou forte. e eu, instintivamente, lhe ofereci o peito. e o peito, eu descobri, é muito mais que um alimento. é um escudo, filho. nada mais lhe assustou. nem um único movimento indicou que você ainda escutava os barulhos que segundo antes tanto lhe assustava. foi tão bonito. veja, meu filho. a sua presença, a sua tranquilidade fez dessa "virada" a mais bonita de toda a minha vida. e sabe por que, filho? porque, quando lhe protegi, me senti inteira. foi você quem me protegeu. chorei. e de pura felicidade. senti que todos os vazios ou todos os transbordamentos de ano novo foram nada se comparados com o que eu e você vivíamos ali. comunhão plena.

nem sempre será assim, você vai ver. nem sempre poderei lhe proteger das dores do mundo. muitas vezes, você estará sozinho. em outras, não vai querer minha proteção. ou não vai precisar. mas saiba, filho, que eu descobri algo no primeiro minuto de 2010: que, enquanto eu viver, você poderá contar comigo. eu estarei sempre a postos.

obrigada, meu filho, por existir. você e seu pai me completam.
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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Sobre os amigos ou "o que desejo"


Eu queria fazer um texto bem especial para o fim do ano. Mas nada me vem. Eu poderia falar da leitura de Maus. Ou do cd do Otto, que amei. Ou do Soda acústica, que ouço e me orgulho como se fosse parte de mim. E nada. Fica tudo aqui. Então eu lembrei que não escrevi realmente sobre o SILIC, simpósio de literatura contemporânea que organizamos. E de como foi maravilhoso ter hospedado meus amigos Binho, Márcio e Mettal, que foram convidados para o simpósio. O SILIC foi arquitetado amorosamente pelo grupo de pesquisa. Não tivemos financiamento institucional. Um ficou no sofá, outro na rede e outro no colchão de casal que era do Tatupai antes de encontrar a Tatumãe. O que só se faz com os amigos, bem poderia ser o título. Acho que para todos foi uma grande festa, tanto que ou por necessidade ou por vontade todos deram uma "esticadinha"depois do simpósio. Poeminha ainda estava na barriga, mas foi muito paparicado. Memórias. Depois que eles se foram, foi um baque - amortecido pela chegada do Poeminha e pela vinda da minha família. Quando o apê ficou de novo vazio, e eu e Poeminha ficamos por aqui, bateu forte a solidão. E haja relembrar. Isso tudo porque Márcio, Mettal e Binho são amigos maravilhosos. Eu passaria toda a vida conversando com eles. Como é bom! Conta, sim, eles serem muito sabidos. Eu sei levar bem as conversas corriqueiras, mas, ao pensar nos "meninos", me vem a certeza de que, nestas conversas, há um certo "fingimento social", pois o que eu gosto mesmo é de partilhar saberes, sobretudo quando não há nenhum pedantismo. Quando tudo flui naturalmente. Fala-se de coisas interessantes porque vive-se de forma interessante. Nada de assuntos institucionais. Os meninos vivem no corpo os seus interesses. Não leem ou estudam ou ouvem música ou veem filmes por obrigação. Não há pose. Só entrega. E eu sinto falta disso. Sinto falta deles. E de mais um tanto de gente que conheço. Eu brinco: "será que meu filho vai gostar de coisas ou vai gostar de não gostar?". Sinceramente, eu espero que ele escolha a primeira opção. Viver como um lesma, sem gostar de gostar, é um pouco como estar morto. Tem muita gente morta por aí e não sabe.
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Então é isto que eu quero desejar a minha meia dúzia de leitores: que gostem de gostar. Que aprendam a reinventar o seu dia a dia. Eu também quero aprender muito mais. Meta? Mergulhar ainda mais no meu paraíso artificial. Tenho ensaiado. E tem sido bom. É isto. A todos, um grande mergulho em si mesmos. Nem todo dia o céu é azul. E nestes dias, só o paraíso artificial nos salva.
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Tenho vontade de sair pelo mundo. E às vezes cantarolo baixinho com algum espanto e algum medo: "será que eu vou virar bolor?". Sempre muitas perguntas no fim do ano, mesmo que se preencha todo o tempo. Deve ser por isso. Preencher tudo para que não sobre nenhuma pergunta. Eu gosto de perguntar. Mas às vezes, muito medo de responder. Sou muito lúcida. Sou. E por sê-lo, por vezes fujo. Viver no exílio é sempre uma forma de vivenciar a dor. E eu me sinto no exílio. Embora me sinta em casa. Contradições de que a vida é feita. Ano 10 depois do fim do mundo. Tempo tempo tempo. Ano lindo, este que está passando. Um pedaço de mim foi gerado, cresceu, saiu para o mundo e agora está aqui por inteiro. Não tem nada igual. Procuro alguma foto no hd para dizer que ainda assim algumas vezes sou só eu. Eu na minha cabeça. com minhas vontades meus desejos minhas frustrações. Mas não tenho nenhuma foto sozinha no último ano. E isso me assusta um pouco. Um bocado. Então me sobra uma foto do palhaço do cirque de soleil - um momento todo meu. Mais não digo. Divã online pede sutileza. Elegância não faz mal. E por falar em elegância, hoje eu estava no supermercado, uma gripe de dá dó, e vejo uma moça elegantíssima. Nada fora do lugar. E antes que eu sentisse inveja, ou motivada pela inveja, um pensamento me cai como um raio: "que tipo de gente se produz assim para vir ao supermercado? é o cúmulo da deselengância". Ponto de vista. Gostar de cara lavada e sandália havaiana dá nisso. Então tá. Estou lendo Ulisses. Há três dias, acordei decidida a ir até ao fim desta vez. Por que? cansei de ir de um livro a outro. Exceto Maus, nenhum de fato realmente me arrebatou. Um ou outro me encantou, me divertiu, fez passar o tempo, mas... sempre o mas. Acho que é hora de. Estou em busca, eis. Ainda sou aquela menina.
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

para o filho


Poeminha, seu pai sempre dança com você. e sempre dança para mim. você vai ver: dou muitas risadas nestes momentos. ele e sua cara de menino maroto dançando pela casa, olho no olho esperando a minha reação. também dançamos juntos, eu e ele.

e não há um só dia em que eu não faça o mesmo com você. eu e você agarradinhos. já cantar, não dá. tudo que consigo fazer é uns "humhumhum". não tenho voz. não tenho ritmo. mas lhe embalo como quem sabe. aproveito agora que você não percebe que não sei.

talvez você já perceba que nunca falta música aqui em casa. eu coloco várias pensando em você. dizem que música clássica é bom para afinar seu ouvido. por isso, temos ouvido muito. chopin schubert mahler nelson freire. e também muito jazz. mas também escutamos "todo tipo". eu gosto muito de vozes femininas. seu pai gosta muito de chico buarque. desde a barriga que ele coloca para você ouvi-lo. e agora estamos ouvindo o novo cd do otto. na primeira vez, ele tocou inteirinho com nós dois na rede. muito, muito bom. ora você arregalava o olho, ora resmungava, ora chupava a mão, e já no finzinho se espreguiçou todo como quem diz "já chega".

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coleções


O colecionador é um escravo. É como alguém num deserto: sempre sedento. Nunca se satisfaz com o que tem; o olhar está sempre no que, aparentemente ao seu alcance, ainda não lhe pertence. O "ainda não" é o copo de água do colecionador. É o que lhe impulsiona.


Sempre me espantam os números dos colecionadores. Ed Motta disse numa entrevista que tem mil garrafas de vinho. Um amigo meu tem uns três mil vinis. Outro, uns cinco mil livros. Eu tenho mais de mil cds. Quantos livros, não sei. Não conto. Só sei dos cds por causa da estante. Tenho vários amigos que ultrapassam a casa do milésimo em relação aos seus gostos musicais e livrescos. O número mil parece ser um número fetiche. É excessivamente tentador para um colecionador.

Quanto a mim, considero que só tenho uma coleção: a de corujas, que anda meio combalida e está muito longe de alcançar este número. Falta muita água para matar minha sede. E acho que sempre faltará.
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para o filho


Poeminha, você é como a sua mãe. dorme bem tarde da noite. e durante a manhã. tem dias que só acorda meio-dia. então, quando você crescer, se continuar a ter insônia, vou lhe dar um conselho: goste da noite. é preciso gostar daquilo que lhe chega como um espanto - e de modo irreversível. não se torture tentando dormir. quando eu comecei a ter insônia passava horas de olhos arregalados no escuro. hoje passo muitas horas de olhos arregalados, mas nunca mais no escuro. você vai perceber logo: olhos servem para ver o mundo. e a noite é um mundo todo.

pode ser em uma destas noites que você leia o livro da sua vida, ouça uma música que nunca vai esquecer, beba seu primeiro porre, passe a noite inteira conversando com um amigo ou com um amor que você nunca mais vai amar como naquela noite. ou talvez seja em uma noite assim que você veja um filme do bergman e lamente que ele não esteja mais vivo para continuar fazendo pérolas de beleza e dor.

Pode ser também que em uma dessas noites você nine seu filho para que ele aprenda a dormir um pouco mais cedo do que você.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Faça você mesma


Eu não sou muito adepta do "faça você mesma". Falta-me criatividade e paciência para o manuseio da "coisa". Além de sempre achar tudo meio tosco. No entanto, em tempo de grana parca, com papéis se espalhando pela casa toda, "fiz eu mesma" esta estante com caixotes de supermercados e pedaços de madeira. Estes me acompanham há um tempão, desde a morada em Rio Preto. A versão anterior da estante era com tijolo, mas era muito, muito tosca. Feria demais meu senso estético. Cheguei nesta, enfim! É ainda tosca, mas me parece mais bacana. Continuo imaginando algum móvel bonito neste lugar, mas agora dá para esperar. Afinal, meu mantra para consumir menos tem sido "PRECISO ir bem ali mostrar o mundo aos meus dois homens".
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O livro amarelo do terminal, de vanessa barbara

"o livro amarelo do terminal", de vanessa barbara, é bárbaro (hehe! como resistir a este trocadilho infame!? só se eu escrevesse tão bem quanto ela!). eu já sabia disso antes de darem a ela o Prêmio Jabuti 2009 de jornalismo. em 2003, vanessa perambulou pelo tietê para escrever a reportagem de conclusão do seu curso de jornalismo. e deu no que deu: um livro delicioso. dizem que é reportagem. eu acho que é crônica, daquelas de dar água na boca. e uma pontinha de inveja: "por que não fui eu a escrever isto?". a primeira frase já me pegou de jeito: "A rodoviária do tietê é uma cidade de coisas perdidas". eu já disse aqui que gosto de definições. e esta é inusitada. e é assim, de inusitado em inusitado que ela vai tecendo a vida dos que passam e dos que vivem na rodoviária do tietê. esta é uma boa sacada: há uma multidão que por lá passa, mas que por lá também vive, mesmo que temporariamente: os vendedores, os balconistas, os vigilantes etcetcetcetcetcetc. e ela fala com toda esta gente. e nos conta histórias deliciosas sobre eles. as páginas são irritantemente amarelas e azuis. o projeto gráfico bem que podia ser menos exagerado. mas isso é o de menos. importante é que o leitor se diverte e aprende. muitas historinhas de bastidores. tem espaço pra tudo: até pra desancar seus colegas de jornalismo, em uma seção intitulada "a imprensa". nela, finalmente entendi porque todas as reportagens parecem iguais. porque são mesmo. um "gerador automático de reportagens" dá conta de dar todas as informações do movimento do Tietê em épocas de ( ) carnaval, ( ) páscoa, ( ) natal. todas as informações, vírgula. é esta diferença que faz o livro de vanessa. ela foi atrás do que ninguém vê. e a partir daí disse de um jeito que ninguém diz. deve ter aprendido com os grandes que a matéria de toda boa história - seja jornalismo, seja ficção - é o humano.

para o filho

"Poeminha, quase todos os dias vamos à casa da sua bisa. a sua avó, que mora longe, também está aqui. tem também a tia. três mulheres que ficam enlouquecidas quando lhe veem. disputam cada um dos seus sorrisos. é bonito de ver. mas bonito mesmo é ver a cara de felicidade do seu pai. ele nem precisa ser expansivo - sim, sim, você vai ver que ele tem um sorriso tímido - para que eu perceba todo o amor que ele sente por elas. por nós".
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tarde saudade

em uma tarde como esta, chuvosa, com o filho dormindo na rede, sinto saudade de muitas coisas e muitas pessoas. "A saudade/ é brigitte bardot/ acenando com a mão/num filme muito antigo".
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Cabelo liso

O mundo quer cabelo liso. Eu que tenho poucas melengas lisas sempre achei muito estranho. Tanta mulher linda estragando o seu cabelo lindo... Até quem tem cabelo liso, quer mais liso ainda, aí fica todo mundo igual com cara de quem acabou de sair do cabeleireiro. Sem querer, perde-se a noção da diferença. Mas isto não é de agora. Que o diga Sarará miolo, do Gilberto Gil, que é boa para dançar e para pensar.

Sara, sara, sara, sarará
Sara, sara, sara, sarará
Sarará miolo

Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
De querer cabelo liso
Já tendo cabelo louro
Cabelo duro é preciso
Que é para ser você, crioulo
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acordinho

Acho que vou fazer um acordo comigo: a cada vez que ler um livro, terei direito a outro. O que pode à primeira vista parecer uma grande vantagem é na verdade uma forma de punição. Sempre compro mais livros do que dou conta de ler. O tempo é tirano.
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O melhor açúcar do mundo


Um filho vem e ensina a cada dia uma coisa. Registro isto para não esquecer. Tenho sentido vontade de escrever mais sobre o Poeminha. Explico: este blog existe porque não tenho boa memória. Esqueço muito facilmente tudo que me acontece, seja uma leitura, um filme, um acontecimento. Uma psicóloga que à época me parecia muito incompetente me falou uma vez que minha memória só lembrava do que tinha acontecido de ruim. Por via das dúvidas, resolvi me prevenir. O blog, desde a sua primeira versão, que sumiu no buraco da net, foi feito para funcionar como uma espécie de memória artificial: eu não queria esquecer os anos de doutorado.

Durante a gravidez, escrevi muito pouco sobre o fato em si. Sobre o que sentia, o que pensava, o que fazia por causa deste acontecimento. Pudor. Não queria dizer o que toda mãe diz: tudo açucarado demais para o meu paladar que passou a gostar de doce de leite apenas durante a gravidez (talvez porque gostava na adolescência e havia esquecido). Nem biscoito recheado eu engulo. Nem chocolate.

Mas nestes dias me veio um susto. Eu trocava a fralda do Poeminha e constatava mais uma vez que é nesta hora que ele, aos dois meses, mais emite ruídos (solta gritinhos, gemidos, de modo alegre e concentrado). Parece que quer conversar. E o que dizer das caras engraçadas que faz logo depois que mama? Acomodando o leite, preparando-se para "arrotar", ele se espreme, geme, se espreguiça, faz biquinho... E que delícia é isto, que alegria infinda observar tudo que ele faz. O susto: e se eu não lembrar depois, se for para o sumidouro da memória, onde está a maioria de tudo que vivi e não registrei? E se eu não tiver nada para lhe contar deste tempo? Ou pior: e se ele ler, um dia, este blog e perceber que eu escrevi muito pouco sobre ele? Eu que já morro de medo de que ele cresça tendo a sensação de que eu lhe abandono por causa dos livros e dos filmes?

Como minha meia dúzia de leitores já está acostumada à mistureba que é este blog, fica então o aviso: vez em quando, vai ter conteúdo açucarado - o melhor açúcar do mundo. Isso me traz uma certeza: a escrita, qualquer que seja ela, é antes para si do que para o outro. Porque ninguém mais se deleita e/ou se tortura com o que escreveu do que o autor. E nada neste meu momento é mais importante do que cuidar do meu filho, aprendendo com ele como se nasce, como se cresce, afinal eu não lembro de como nasci, como cresci. Fico pensando que observar o filho é também uma forma de se observar, de se ver em um tempo em que isto ainda não é possível. Que eu seja então fiel ao meu princípio, que este blog continue sendo o que procurava ser: "Sem análise nem crítica. Somente aquilo que advém de Barthes: humores. O jogo estéril do gosto/ não gosto. "Para guardar". "A regra = oferecer o íntimo, não o privado".
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

sobre os sacos de lixo e o amor


Moro no segundo andar. Quem mora em apartamento sabe que o ato de levar o lixo é sempre uma chatice. Ainda mais quando não tem lixeira no andar. E eu, sem consultá-lo, instituí que isso seria obrigação do Tatupai. Será que levada pelas cenas dos filmes hollywoodianos, que têm sempre uma mulher mandando o homem levar o lixo pra fora? Eis um ritual de "estar casada". E eu que corria de casamento, me espanto em constatar que desde o primeiro "amanhecer" Tatu morou aqui. Até nos dias em que viajei, ele ficou com a chave. Lembro de ter tentado resistir sem convicção alguma. Ainda cheguei a perguntar: "você não vai mais dormir na sua casa?". Ele me perguntava se eu queria que ele fosse e eu, mal acreditando, me ouvia dizer que não. Não que eu soubesse que já o amava. Havia uma dor latente apenas amortecida. Mas rapidamente percebi que adorava a sua companhia. E que o esperava. Algo que me lembrava apenas as minhas grandes paixões. Confesso que nunca "esperei" as pessoas que namorei por anos seguidos. Pelo contrário, sempre corria como uma louca para fazer tudo o que eu queria, porque sentia muito fortemente que o outro ia me "atrapalhar", ia roubar meu tempo. E ele, eu esperava. E continuo esperando. Surpreendo-me lhe telefonando perguntando se ele virá do trabalho direto para casa. Por pura vontade que ele diga que sim.

E o que isso tem a ver com os sacos de lixo? É que mais uma vez eu me surpreendi, diante de uma pilha de saco de lixo (porque ele simplesmente sempre "esquece" que deve levar o lixo), pensando de modo diferente. No meio da minha irritação, eu pensei: "Ué, por que estou irritada, se ele nunca me disse que levaria os lixos? Se fui eu quem lhe impus esta tarefa?". Eu me vi então entre escolher a imagem ideal (a mulher que tem um companheiro que lhe ajuda de forma expontânea) e a imagem real (esta, de quem mora com alguém que é capaz de sair altas horas da noite para comprar algo que você quer, mas que é incapaz de ajudar em qualquer serviço de casa, sem que haja antes negociação). Escolhi então a imagem real e fiquei em paz. Senti muito fortemente que quero esta família, quero este homem, mesmo que a imagem vendida pelos filmes hollywoodianos e europeus não seja possível por aqui.

E comecei a pensar que isso é amor. É simplesmente amor. E que não quero perder isso por nada. Nem que eu tenha que levar os lixos (embora eu vá continuar tentando que ele os leve!).
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli


Lourenço Mutarelli tem arrebanhado prêmios literários por aí [Jabuti, BrasilTelecom e tal e tal]. É um querido dos cineastas. É um quadrinista super talentoso. É um escritor que "acontece". E parece ser super gente boa - e assim meio louco. É o que acho quando leio seu blog, que já teve outro endereço e que talvez nem vá para frente. Com esse currículo quem não tem vontade de ler algum dos seus livros? Eu comecei com O cheiro do ralo. Ok. Foi uma escolha óbvia, própria de quem gosta de cinema. Mas a razão é boa: Marçal Aquino, o escritor, esteve por estas paragens rondonienses. E tanto falou, tanto disse, sobre este livro/filme, que eu acabei comprando-o e lendo-o. Adianto: é uma delícia. Não é uma obra-prima com linguagem refinada. É uma obra com a linguagem descolada do nosso tempo. Leva-se um susto logo ao folhear. Visualmente, parece poesia. Cada frase em uma linha em boa parte do livro. Frases curtas de uma mente obsessiva, como é a do narrador protagonista, que, no filme, tem o rosto do Selton Mello, mas no livro é a cara do cara do comercial da Bombril. Simples assim.



Mutarelli tem coragem. Escreve um livro em que quase nada de diferente acontece. Dias após dias - fedorentos. Ele, o narrador, não tem caráter algum. Poucas coisas, até a uma certa altura, tiram-no do sério: o cheiro do ralo, a bunda que ele quer comprar, a noiva que ele dispensa quando os convites já estão na gráfica. Ele é um comprador. E as pessoas que passam por ali para lhe vender bugigangas - e sentem o cheiro do ralo - no fundo sabem que ele "chuta baixo" o valor. Ele compra, as pessoas estão à venda. Tem uma crueldade engraçada neste princípio torto. O narrador é torpe, mas é também engraçado. No fim, torcemos por ele. Mas aí já é tarde. É a solidão, a loucura, o desamparo, o azar dos malditos o que sobra. E o ralo, e não o ser.


Mutarelli faz parte daquele tipo de escritor que não está nem aí para as convenções literárias. Geração Beat anos 2000. Escreve com a linguagem das HQs, das ruas, do teatro jovem. Não é todo dia que tenho vontade de ler esse tipo de texto, mas que é uma delícia, ah isto é. Lembra minha primeira leitura - fascinada - de Feliz ano velho, do Marcelo Paiva. E tambem tem muito a ver com meu lado que gosta da Clarah Averbuck. Espero que meu filho leia esta gente toda. Eu já disse de inúmeras formas: gosto de gente esquisita. Ler Mutarelli é como ver um filme com um enorme saco de pipoca e uma coca-cola ao lado. Para o bem e para o mal, é esta a minha imagem.
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os desenhos são dele.
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A literatura segundo Silviano

A literatura é sempre parte do corpo de quem escreve. Dos seus sentimentos, das suas idéias, dos seus sofrimentos e alegrias. É tudo aquilo que nos constitui, e que a gente julga que possa servir de matéria-prima para se fazer algo que possa transcender a questão meramente autobiográfica.

Silviano Santiago.

Dias


o filho dorme na rede branca. presente da tia.
o calor é aos poucos substituído por um vento de chuva.
a cortina balança.
eu terminei ainda há pouco um livro de Silviano Santiago, O falso mentiroso.
talvez a chuva venha.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Os diários de Susan Sontag

Em que eu acredito?

Na vida privada

Em mostrar cultura

Em música, Shakespeare, prédios antigos

Os diários são os blogs de antigamente. Mas eu que tenho pilhas de diários, no mesmo instante em que escrevo essa frase, discordo dela. Porque por mais que digam que quem escreve diário espera ser lido, não é bem assim. A possibilidade de não sê-lo faz com que escrevamos coisas que jamais escreveríamos em um blog - escancarado na sua essência. Duvido que Kafka, nos seus diários, sangraria daquele modo se fosse em um blog. Ele sangra na sua literatura, mas tranvestido de "ele". Ficção. A primeira pessoa do singular, para quem tem algum bom senso, é poderosa. Obriga-nos a selecionar.

Pensava nestas coisas lendo o primeiro volume dos Diários, de Susan Sontag. Não leio muito este gênero, mas Sontag é uma figura que dá vontade de saber mais. Amou o que eu amo - Roland Barthes. Uma norte-americana fascinada pela Europa. E que registrou seus pensamentos em mais de 100 cadernos durante toda a vida. Este primeiro volume compreende os anos de 1947-1963. Sontag é muito jovem, são seus anos de formação. Em todos os sentidos. Os diários são antipáticos. E o que há de mais interessante é perceber como ela tinha medo de ser lida: enquanto esteve casada, numa relação heterossexual, há uma impessoalidade que beira à obsessão. Depois, ela se solta, é a queda livre sem rede de proteção. Assume todas as dores e as delícias de suas relações homossexuais. E isto acontece justamente quando vai para Paris. Fica a impressão de que lá todas as experiências são possíveis.

Os diários dão a medida exata da sua obsessão pelo saber. Listas e listas de livros a comprar, de filmes vistos e a ver. E muita música, sobretudo clássica. E há também muitas citações de outros autores. E aquelas bizarrices que nos fez refletir - eu e Bozoca - que diário publicado post-mortem deixa sempre a dúvida: deveriam ter sido publicados quando a autora não o fez em vida? A bizarrice mais recorrente: ela não gostava de tomar banho. Escreve inúmeras vezes sobre isto. Martiriza-se por que não gosta. Fica feliz quando sente que está progredindo. Vejam. Uma intelectual respeitada, admirada, "e é capaz de a partir de agora ser lembrada por causa disso". Tudo se resume, assim, à imagem. É a imagem que é flechada, condenada, nos diários que supostamente não serão lidos.

Agora, é esperar pelos outros dois volumes que sairão. Porque esta é uma característica deste gênero: ao mesmo tempo que causa em mim um fastio, causa também um fascínio.

SONTAG, Susan. Diários - 1947-1963. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Do diário de Susan Sontag

31/12/57

Sobre fazer um diário.

É superficial entender um diário apenas como um receptáculo dos pensamentos privados, secretos, de alguém - como um confidente que é surdo, mudo e analfabeto. No diário eu não apenas exprimo a mim mesma de modo mais aberto do que poderia fazer com qualquer pessoa; eu me crio.

O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Ele me representa como emocional e espiritualmente independente. Portanto (infelizmente) não apenas registra minha vida real, diária, mas sim - em muitos casos - oferece uma alternativa para ela.

Há muitas vezes uma contradição entre o sentido de nossas ações em relação a uma pessoa e o que dissemos que sentimos em relação a essa pessoa num diário. Mas isso não significa que aquilo que fazemos é superficial e só aquilo que confessamos para nós mesmos é profundo. Confissões, refiro-me a confissões sinceras, é claro, podem ser mais superficiais do que as ações.
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Rapidinhas

Mundo louco. Uniban. Apagão. Madonna no Rio. Basta uma passeadinha pela net para sacar que realmente não vale a pena ficar a par.

Tenho gostado mais de ver filmes antigos do que filmes de agora. Je suis un grand menteur, sobre Fellini, vale mais a pena do que muitos filmes que saíram do forno agora. Do que muita conversa jogada fora. Ouvir gente sabida é outra coisa. E Hiroshima mon amour, então, é até covardia comparar. Filme que me deixa com dor nas tripas. E meio melancólica: não é um filme sobre uma história de amor. É um filme sobre o "horror do esquecimento". Sei bem o que é isto. Eu sofro porque sei que vou esquecer. Cena: manhã fria em um estúdio de Paris. Um choro sentido, longo e, pensando bem, nada elegante. E eu digo que choro porque vou esquecer, porque é só naquele momento que sinto o que estou sentindo.

A revolução dos bichos, de George Orwell. Sempre a culpa por não ter feito aquelas leituras óbvias - meio obrigatórias para qualquer leitor que se pre... Dificuldade de gostar do discurso. Prefiro a fábula: os porcos andando sobre duas pernas mandando nos cavalos, nas galinhas, é de morrer de rir. Troco a sisudez da "mensagem" pela hilariedade da imagem. Deve ter algum filme baseado no livro. Vou procurar.

Horror à intolerância. Diante de alguns fatos, fiquei pensando que falta humor no mundo. Em mim, inclusive. Talvez com a diferença que eu fico alerta. Mas não sei se ficar alerta evita a minha intolerância (talvez intolerância com quem é intolerante!) ou só me deixa mais tensa. Só sei que não tenho fobias tão grandes com os seres esquisitos. Gosto das esquisitices. Gosto dos seres esquisitos que pensam. Ou que são engraçados. Só não gosto da pose. Horror à pose também.

Maria Gadú canta pra caralho. E tem um jeito de quem não está nem aí - que adoro. Vale a pena todo o CD: é delicado - uma "bela flor". Gostei também do novo CD da Céu - mas gosto mais do primeiro. Legal isto de ela ter "dado um tempo", e ter colocado o nome do CD de "Vagarosa" - e tudo é meio lento mesmo, com aquela ginga de malandro - samba e reggae... E na faixa "Vira lata", tem meu amado Luiz Melodia. O iê iê iê de Arnaldo Antunes é coisa de gênio. Ui! Da minha parte, continuo com aquela estranheza de sentir que Arnaldo quer cantar certinho, bonitinho. Sinto falta do grito, já disse. Mas gosto destes trabalhos conceituais. É preciso ouvir o CD todo para compreender a proposta. Dá para voltar no tempo e curtir a atmosfera do iê iê iê.

Sim. Vida. E meu filho aqui ao meu lado. E o amor Tatu ao meu lado.
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Presentão


Neste ano, não teve festinha de niver. Talvez pelo dinheiro parco. Talvez, ostra. Mas Tatu me deu um presente tão bacana, tão "desejo de nós dois", que eu quero registrar aqui, embora já faça tempão. Não que eu entenda de vinho, mas gosto muito. Gostamos muito. Agora é so degustar na temperatura certa...
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Duro é parar os vinhos lá dentro!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Sobre Kafka

Nas palavrinhas:

Olá! Quero dizer que amo seu blog mas nunca tive o ímpeto de me manifestar. Sou uma amante das letras, e dos livras, claro. Estudo biblioteconomia (!) e queria tirar uma dúvida com você. Conheci o Kafka aqui (vergonha, rs) e fui ansiosamente providenciar um livro dele. Como não conhecia nunhum, fiquei com o Metamorfose, mas como não sou tão veterana em leitura como você, não estou entendendo muito bem o livro (vergonha 2, rs). ... Não sei se você já leu esse livro, mas, em caso afirmativo, poderia me ajudar a pegar a linha de pensamento, ou a crítica, sei lá, que está escondida nesse cotidiano narrado na obra. .
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Natália Branco, quem é você? além de ser palavras, tem um corpo, uma história? E como chegou aqui? E por que nunca tinha se manifestado? Pois vejam o que é um blog, como são grandes as dimensões das suas portas. O blog é o lugar da hospitalidade por excelência; entrar e sair pode ser a qualquer hora e sem deixar rastros. Isso é tão bonito e ao mesmo tempo tão assustador para quem escreve.

Natália me pergunta sobre Kafka como se eu pudesse responder as suas questões... Sinto uma espécie de pudor que me paralisa, como sempre acontece quando pressupõem, de antemão, que eu sei falar sobre algo. Sei que essa sensação não condiz com a minha condição de professora [e quem disse que precisamos ser coerentes em tudo?] ...

Natália, você deve saber que este blog não faz crítica, que não passa de uma colcha de retalhos sobre o que leio, vejo e vivo. Não há nenhuma análise aqui, apenas devaneios. Por isso, não sei responder ao que me pergunta. Tudo que posso dizer sobre Kafka é que ele me atinge enormemente, embora tambem não o compreenda. Kafka é um escritor que nos dá machadadas sem que saibamos a razão. Eu fui em Praga buscando encontrá-lo. Isto é, buscando, através do seu mundo, das ruas onde andava, do frio que passava, das cores que via, os possíveis traços da sua literatura. E Praga é uma cidade avermelhada, nem mesmo é cinza como Paris, embora seja muito fria. Talvez Kafka seja assim: avermelhado e frio. Em A metamorfose sinto isto: por um lado, toda a frieza, por outro, o vermelho, a saída, a esperança. Não é assim? À medida que ocorre o aniquilamento de Gregor Samsa, ocorre a reestruturação da sua família. Talvez este seja, de fato, o grande absurdo na obra kafkiana: o lado terrivelmente humano.

O que ainda posso lhe dizer, de forma canhestra, é que os livros de Kafka não se deixam compreender como certa literatura se deixa - mas isto você já sabe. Ele é absolutamente real nas situações mais inusitadas. E isto causa espanto: mostrar aos nossos olhos descrentes o imponderável, o inimaginável. Mas se fosse só isto, seria pouco. Este inusitado é formado por uma fina camada grotesca, abjeta., que nos choca e ao mesmo tempo nos seduz. Ninguém fica feliz lendo Kafka - e saber disso me ajuda a constituir meu gosto literário. Explico: gosto de estar feliz. Para mim, é quase um imperativo. E por outro lado, sinto em mim a densidade do mundo, como se exisitisse algo pesado contra o qual seja sempre preciso lutar. Pois travo esta luta com autores como Kafka, Genet, Beckett, Thomas Bernhard. Não que eles me deem alguma lucidez. É o contrário. Nas interrogações abismais existentes nos textos destes autores, encontro meu tênue equilíbrio, o único possível no espaço da loucura. Veja então: Kafka é o remédio e o veneno; exatamente o que eu penso que seja a literatura.

Um abraço, Natália. E espero que você volte, mesmo que eu não tenha respondido as suas perguntas. As fotos foram tiradas em Praga. Constatei que ele está em toda parte por lá, como um fantasma. Tomara que você goste.


domingo, 1 de novembro de 2009

Loki, de Arnaldo Baptista

Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?


Loki
é um cd excepcional. Lançado em 1974, no ano em que nasci, continua tão belo, tão atual, tão visceral, como se tivesse sido lançado ontem. Minto. É dificil encontrar um cd hoje em dia que tenha tanta verdade - sabe quando quase se vê as veias latejando, aquela dor latente, demorada? é assim o cd de Arnaldo Baptista. Eu nascia enquanto ele ia cada vez mais longe na sua caminhada rumo à morte. Salvo por um anjo depois de alçar voo, virou menino outra vez. É o que se pode ver no documentário que carrega o mesmo nome deste cd. O documentário é lindo, mas não é visceral como o cd. Falta a dor que está exposta em cada música. Como ele é um sobrevivente, retiraram a tristeza do documentário. Mas a tristeza está no cd de 1974 e está também no último que ele lançou - Let in bed. Mesmo menino, Arnaldo está marcado. Viver a vida como se ela fosse arte tem seu preço. Ou não é nada disso. Talvez tudo seja tão difícil porque o que ele experimentou foi "o barato de ser ser humano". E como é dificil "ser ser humano!" Não há fórmulas. Às vezes, pensamos que estamos no rumo, que está tudo certo, aí vem o vento e leva tudo. "Será que é difícil esquecer os males?". Ou a gente se brutaliza! É tão perturbador ouvir um cd desse tipo. Parece que doi. E ao mesmo tempo dá uma felicidade, uma alegria por estar viva e ter tido a oportunidade de ouvir uma belezura desta. Ah, viver é tão perturbador. Tem destes encontros que nos dão tudo e nos tiram tudo. Arnaldo viveu isto de modo extremo. E ele sabia disto: "O que é isso, meu amor?/ Será que eu vou morrer de dor?" Sim, morreu. Mas o anjo estava bem ali para fazê-lo menino outra vez. Ainda bem.
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* postagem para o Tatupai, que amou este cd desde a primeira audição e que a cada vez fala dele com os olhos brilhando.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

mutum


Mutum no dia do aniversário, depois que os amigos se foram, entre uma mamada e outra. e no silêncio, lágrima rolou. mutum dentro de mim. um sertão. ali, a infância perdida. aquela tristeza. aquele mundo adulto aniquilando o mundo criança. aquele choro sentido, muitas vezes. tantas vezes que foi preciso esquecer toda a infância. se houve felicidade, algum dia, não há como saber. as memórias são todas memórias tristes. como quase todas as memórias. o sertão. a paisagem, de cócoras no parapeito da cozinha. as roupas voando no varal. a louça suja nas tábuas velhas servindo de pia. a água caía no chão e respingava nos pés cheios de frieira. as paredes de tijolos descobertos. e muita, muita areia. por toda parte. sapos na boca da noite. pular entre um e outro. brincar escondida, que ninguém soubesse. os olhos arregalados. os olhos bem apertados fingindo dormir enquanto ouvia a mãe bem tarde da noite. só bem tarde da noite. areia quente meio dia e meia na hora de voltar da escola. estômago que nunca parava de roncar. o desejo de que sobrasse um ovo ao menos uma vez. uma única vez e já teria sido o bastante. cadê a vida, ela existe, deus? deus era um ser cruel que matava os cachorros aos poucos sem que nada pudesse ser feito. deus abandonava a menina magrela e amarela fraca das pernas. deus na terra do sol só existia por teimosia. mutum era um mundo e também um estado.



o certo é que nunca se parte de vez de mutum. embora a única chance de se salvar seja ir embora. seja emudecer. até que ele volta sem avisar.

mutum é o filme de sandra kogut. aqui, são minhas memórias. as fotos são da minha última viagem à cidade da infância.

Decoração e outros afins

Minha irmã Maneca, após um comentário meu sobre decoração, solta esta: "Mana, para falar a verdade, se eu disser a algumas pessoas que você agora liga para estas coisas, elas não acreditariam". Será mesmo?, é o que eu me pergunto agora. Na verdade, sempre tive uma preocupação com a casa, mas entendo o que Maneca quis dizer. "Ligar para essas coisas" relacionava-se a objetos de decoração relativamente caros. Para mim, tem a ver com aprendizado. Uma vez meu amigo Binho me disse que eu não tinha nada a agradecer a quem me ensinava algo, pois o aprendizado deriva da vontade. É algo que vem de nós quando pensamos que vem do outro. Então posso dizer que sempre tive uma "queda" por uma série de coisas e depois fui aprimorando meu gosto. É a este tipo de aprendizado que me refiro. Podemos gostar de música, de livros, de filmes e mesmo assim passarmos a vida inteira consumindo com um "gosto médio", sem se preocupar de fato em aprimorar a tal "queda". Eu vou no sentido contrário. Gostando de música, de livros, de filmes, cada vez mais nos últimos anos tenho me pautado pela pesquisa. Embora lenta, seletiva, displicente, o que busco mesmo é me rodear "do bom e do melhor". Podem me dizer que isso é coisa de gente metida à besta (de fato, era o que minha irmã me dizia). Eu prefiro pensar que é uma atitude inteligente de não querer me pautar pelo gosto médio, que em alguns casos é pior do que não ter gosto algum. Se eu vou dispender meu tempo lendo um livro, por que deveria ler o último best seller indicado pelas revistas quando posso ler um clássico que indubitavelmente é bem melhor do que aquele (ok, seria preciso discutir a questão do que significa este "melhor")?.

Voltemos à decoração. Pois bem. Quando desisti de morar de "modo provisório", resolvi arrumar a casa, mesmo sem ter casa. Comecei em Sampa. Nosso apê (meu e da Mari) era muito charmoso. Aqui em Vilhena, resolvi que começaria a comprar meus móveis "definitivos". Estou há mais de ano nesta história. Natural que me interessasse por decoração (a pesquisa, a pesquisa...). Eu já estava com boa parte do apê arrumado quando conheci um blog interessantíssimo chamado Decoeração. De lá para outros, foi um pulo. Assim, eu cheguei na minha cadeira de amamentação (que derivou o comentário da Maneca). É uma cadeira de balanço Eames e tenho minhas dúvidas se é boa para amamentar, mas é com certeza boa para ler historinhas... e é linda! Encomendei-a em Sampa e, é verdade, vou pagar os tubos pelo frete. Não é a primeira vez que faço isto. A transportadora que trouxe minhas coisas para cá é "estilo caseira". Vez ou outra eles "quebram o galho" das minhas maluquices (e cobram mais barato do que outras).

Por que seria estranho eu gostar de decoração? É a questão da imagem. Deveria uma pessoa que passa a maior parte do seu tempo ocupada com atividades consideradas nobres, como ler, escrever e tal, preocupar-se com estas coisas mundanas? Não seria mais apropriado morar em um galpão? O que as pessoas que pensam assim não percebem é que, mesmo se morasse em um galpão, ele acabaria tendo a "minha cara", ele se impregnaria do meu estilo. Não há nada de incoerente na minha atitude. A beleza está em tudo. E eu quero viver rodeada de beleza. Uma beleza que tenha a ver comigo, com minha história. E agora com a história de Tatu.

Foto: o desenho da estante, como já disse aqui, fomos eu e Tatu que criamos, assim como criamos o quarto do Poeminha. Decidimos juntos tudo que vamos comprar. Esta é a boa notícia. Tatu aprova e me ajuda na decoração do apê.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

3.5


estou aqui. estar aqui é muito. reinventei a vida. ou ela se reinventou e eu, sortuda, me vi inteira. reinventar a vida é como uma fruta madura retirada do pé e comida na hora, sem se preocupar em lavar. uma fruta que se come sentindo-a escorrer pelos cantos da boca.
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feliz. nem precisava dizer, né?
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O perfume, de Patrick Süskind


Mas o ódio que sentia pelas pessoas permaneceu sem eco. Quanto mais ele as odiava nesse momento, tanto mais elas o adoravam, pois nada percebiam dele senão a sua aura, a sua máscara odorífera, o seu perfume roubado, e este era, de fato, divinamente bom.

Terminei a leitura de O perfume, de Patrick Süskind. Estava lendo-o quando Poeminha resolveu vir ao mundo. Depois, ele ficou um tempinho na cabeceira. Aliás, é uma releitura. Havia assistido ao filme em Paris em um dos cinemas mais bonitos de lá. E não gostei muito. Porém, não lembrava muito do livro. Só minhas marcações revelavam que eu já o havia lido. Esta memória tirana. O livro é formidável - infinitamente melhor do que o filme, constato agora, embora não goste muito desta comparação, em que o livro, para os aficcionados, sempre acaba por ganhar. Esta é uma daquelas comparações que não dá em nada, além de ser previsível. Como eu gosto de cinema tanto quanto gosto dos livros... Mesmo assim, arrisco um palpite de o porque de o filme ser tão distante da excelência do livro: a culpa é do protagonista que, no filme, parece um abobalhado, enquanto que, no livro, ele se parece premeditadamente abobalhado. Eis toda a diferença. O verme Jean-Baptiste Grenouille, de fato, é um homem mau. E a narrativa da sua vida, desde a hora do nascimento até ao momento em que decide extingui-la, é para reiterar esta maldade, que acaba por destacar a de todo ser humano com o qual ele convive. Neste sentido, as forças antagônicas estão irremediavelmente ligadas: a vida e a morte, o odor bom e o odor fétido, a explosão de cheiros (sentida por Grenoille) e a ausência de cheiros (inexistente em seu corpo). Daí vem a inexistência de sentimentos ligados ao corpo. A matéria seria desnecessária, se não fosse ela que carregasse os odores.

Como trazer para a linguagem o olfato? O ar fétido da Paris do séc. XVIII, a podridão das ruas, o corpo nojento das pessoas, a putrefação das comidas, o fedor dos cadáveres, o horror, o horror... embora a linguagem seja clássica, está tudo aqui. O escritor alemão nos conduz por uma viagem inebriante pelos infinitos odores do mundo. Aproximamo-nos tanto do abjeto quanto do sublime e nos damos conta de que eles estão sempre próximos. E espantados, concluímos que é para esconder o abjeto que buscamos o sublime. As garras daquele são as asas deste.

É, portanto, a história da incompletude de um eu que, sabendo-se deus, reconhece como ninguém a solidão. E a solidão leva ao mais primitivo dos sentimentos: o ódio - que bem pode ser amor.

Soberbo!



segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O fetiche dos livros

Fazia tempo que não lia páginas tão primorosas sobre o fetiche produzido pelos livros, como li agora em Bibliomania, de Flaubert, um pequeno grande conto inspirado em uma suposta notícia judicial. Sempre digo que possuir livros, constituir uma biblioteca, tem muito a ver com aquilo que Caetano Veloso chama de "amor tátil". É também um fetiche, uma assombração, uma obsessão, escravidão até.

E que conto! Flaubert faz uma pequena obra-prima aos 15 anos de idade. A história de Giácomo, o livreiro:

"Tinha trinta anos e já passava por velho e acabado; possuía alta estatura, mas curvado como a de um ancião; ... Raramente era visto nas ruas, a não ser nos dias em que eram vendidos em leilão lotes de livros raros e curiosos. Então, não era mais o mesmo homem indolente e ridículo, seus olhos se animavam, corria, caminhava, saltitava, mal podia moderar sua alegria...

À noite, os vizinhos podiam ver, através das vidraças do livreiro, uma luz que vacilava, depois progredia, afastava-se, crescia, e a seguir, uma vez ou outra, se apagava... Tais noites ardentes e febris, ele as passava com seus livros. Circulava entre suas estantes, percorria as galerias de sua biblioteca com êxtase e encantamento; depois detinha-se, com os cabelos em desordem, os olhos fixos e faiscantes, as mãos trêmulas ao tocar a madeira das prateleiras; que eram quentes e úmida.
Apanhava um livro, folheava suas páginas, manuseava seu papel, examinava suas douraduras, a capa, os tipos, a tinta, as dobras, e o arranjo dos desenhos para a palavra finis; depois, trocava-o de lugar, colocava-o numa prateleira mais alta, e permanecia horas inteiras a observar-lhe o título e a forma. ...

Oh! ele era feliz, esse homem, feliz em meio a toda essa ciência cujo alcance moral e valor literário mal penetrava; era feliz, sentado entre todos esses livros, passeando os olhos sobre as letras douradas, sobre as páginas gastas, sobre o pergaminho desbotado; amava a ciência como um cego ama o dia. Não! não era de modo algum a ciência o que ele amava, mas sua forma e expressão; amava um livro porque era um livro; amava seu cheiro, sua forma, seu título".

Algum leitor pode negar que seja assim? pode negar que não se viu, ao menos uma vez, no lugar deste livreiro?


confissão incômoda

Depois da leitura de Bibliomania, de Flaubert, sinto-me mais normal. Pensando bem, sinto-me mais cômoda com minha anormalidade. Há tantos zunidos no mundo - e eu me pergunto por que estou com esta vontade medonha. Deve ter sido excesso de gente. Amo, mas enjoo. E este negócio de ser mãe tem um lado complicado. Deus e o diabo querem dizer o que devo fazer. E tudo gira em torno do fato de ser mãe. Falta-me humildade para viver isso com tranquilidade. A relação com o Poeminha, linda. Quando ele chora, dá vontade de colocá-lo de volta no útero, mas não me desespero. Criança chora porque não sabe falar. Dá vontade de dizer isso a todos. Ou dá vontade de não dizer nada. Tatupai está vivenciando isto de outra maneira. Está tão feliz que quer o mundo todo perto dele. E eu, uma ostra, menos para eles dois.
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terça-feira, 13 de outubro de 2009

a isso dou o nome de amor


Elas foram embora ontem. Minhas duas irmãs e minha sobrinha. Mana Mácia veio de Fortaleza. Maneca veio de Porto Velho. Distâncias enormes deste Brasil tão grande. Tia Fá também veio. Princesa ficou apenas três dias. Mana, doze. Ela queria ter acompanhado o parto do Poeminha, mas ele estava ansioso para ver o mundo, viver a vida fora da sua "zona de conforto", como disse a Cy. Foram dias bonitos. É bonito como me relaciono com minhas irmãs. Aprendemos a nos amar. Sim, porque amar é um aprendizado, não é uma imposição marcada por laços de sangue. Amar bem. Amor tem a ver com admiração, cuidade, entrega, cumplicidade, emoção. Há muito disso tudo em nós. E cada vez mais. A ausência mais sentida foi a da minha mãe. De tanto perguntarem por ela, comecei a sentir a sua falta. Este ainda é um amor de longe. Ainda bem que é amor.

Minhas irmãs e minha sobrinha têm vindo até a mim. Me comovo quando penso. Foi assim na minha defesa de doutorado. Elas foram. E também foram dias belos. Mas como eu só senti de fato que era um momento marcante na minha vida quando vi os dias acontecendo, a emoção demorou a bater. E na defesa tinha Sampa para mostrar. Era um aperitivo e tanto, o que justificava a ida delas. Aqui em Vilhena não há aperitivo algum. Vivemos à margem da cidade, construindo espaços de delicadeza longe das suas ruas. Então, o que elas viriam fazer aqui? agora, sei a resposta. Vieram por mim e pelo Poeminha, vieram sentir os primeiros dias da sua vida. Como já disse: dou a isso o nome de amor.
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post-scriptum: a Mana bem lembrou que, de fato, além de cuidar do Poeminha, o que fizemos o tempo todo foi assistir a filmes, comer e conversar sem parar - esparramadas no nosso sofá tamanho família! Eh vidão!

sábado, 10 de outubro de 2009

Imagens, de Bergman

Há uma cena terrível em Fanny e Alexander, de Ingmar Bergman. Uma cena de castigo físico. O padrasto pune com uma vara o pequeno Alexander, que tenta manter a dignidade. Este filme, aliás, é terrível, embora o final seja redentor. Bergman é medonho em todos os seus filmes. Não dá para sair ileso de nenhum deles - as dores das almas dão fisgadas constantes. Nossas culpas, até as que julgamos inexistentes, dão o bote na calada da noite.

No entanto, medonho mesmo é constatar no livro Imagens, uma espécie de memórias cinematográficas deste cineasta sueco, que esta cena fazia parte do seu banquete familiar. Bergman é daqueles artistas que não deixa a menor dúvida de que seus filmes saem das suas entranhas, que os fantasmas que aparecem neles, por mais pavorosos que sejam, são seus próprios fantasmas. Daí ser tão difícil ler este livro, embora eu o leia agora com imenso prazer, nos espaços de sono do Poeminha, enquanto observo a movimentação das minhas irmãs que vieram ficar comigo nestes primeiros dias de nascimento.

Tem algo de terrível neste homem que impingia a si - e também aos que conviviam com ele - tanta dor ao mesmo tempo que transfigurava tudo na arte. Não vejo nele separação entre dor física e psicológica, tamanha a naturalidade com que convive com as duas. É mais do que naturalidade. É uma forma de fúria - a mesma que fez dele um dos maiores cineastas de todos os tempos.

O que mais me comove é a impressão de que, por mais terrível que seja uma cena de Bergman, ela é mais terrível para ele do que para seu espectador. É o caso da cena da vara. No filme, é o padrastro que a aplica, então podemos transferir toda nossa raiva para esta figura, imaginar que ele é capaz de imprimir castigo tão cruel porque é um padrasto. Mas para Bergman não havia essa mediação, que ele oferece ao espectador como se dissesse que sabe que sem ela a dor seria muito maior.

sábado, 3 de outubro de 2009

poeminha


poeminha Bernardo nasceu. o que acontece todos os dias com tantas mulheres, quando acontece conosco, ganha a forma de um milagre. veio assim, alguns dias antes do esperado, porque já veio sábio, adivinhou que não devia ficar mais tempo na barriga, pois corria o risco de não ver o sol, a lua e as pessoas e ele queria ver o sol e ver a lua e ver as pessoas. chorou como todos os bebês, e eu como todas as mães. não me deixou sentir dor, embora eu, tão pouco afeita à dores, estivesse disposta a senti-las, mas não me frustrei. é bom ser contrariada e depois sentir apenas a beleza do momento. dizem que ser mãe tem um pouco disso. agora estamos aqui envoltos em ternura. cada dia uma descoberta, um susto, uma surpresa. ser mãe é tudo e é tanto. em uma das noites, enquanto ele dormia, eu não preguei o olho - chorei e sorri transbordando a emoção que eu não sabia existir. o que é a plenitude, senão o inalcançável?, é o que sempre pensei. mas ali, no meio da noite, senti a plenitude. e continuo sentindo-a. ele tem um jeito tranquilo mas já com os olhos arregalados para o mundo. atento aos barulhos, aos gestos, aos seus e aos nossos.

eu e o tatupai estamos inundados de amor e de felicidade. ontem, fez um ano que estamos juntos. não deu para comemorar como dita a cartilha dos namorados, mas nos sentimos inteiros confiando na nossa história, nos nossos caminhos. inteiros pai e mãe. inteiros amantes. por inteiro amados e amando.