Poeminha, amar é tão fácil. educar é que são elas. filho, eu temo não ser uma mãe perfeita. tenho lido alguns sites de mães na ânsia de entender o que significa este troço danado de fácil e danado de difícil. na maioria das vezes, acho-as bem melhor do que eu. embora, na sã consciência, eu saiba que pensar assim é bobagem. é porque eu sinto que serei uma mãe exigente e às vezes ausente. amorosa, sim. muito amorosa. eu não poderia contar quantos beijos e abraços lhe dou por dia, nem quantas vezes digo que lhe amo. e cuido de você sozinha. não temos babá. e não sei quando teremos. muitas mamadas. e colos. e banhos. e arrumo você todo. você ja é estiloso desde agora (gostará de sê-lo quando crescer?). e faço massagens em você todos os dias. e me chicoteio porque não consigo acordar cedo para lhe dar banho de sol. você é cheiroso, muito cheiroso. gosto de homens cheirosos, filho. sempre gostei. e agora você é meu homenzinho.
eu recolho cada sorriso seu. que são muitos. você é muito, muito sorridente. já leio histórias para você. e lhe mostro o mundo colorido. hoje ficamos à beira do rio. e eu sacudi meus pés na água como você faz na banheira para que você sentisse que o rio não é mais do que a sua banheira em tamanho maior. assim não é preciso ter medo. falo isso tudo para você. falo como adulto, sem colocar os "l" no lugar dos "r". mas minha voz às vezes sai meio infantilizada. e automaticamente faço o barulho de "carrinho" que você aprendeu com seu pai e não para de repetir. enfim, nada lhe falta. meio criança meio adulta, é assim que sou com você.
mas sou exigente, filho. não acho que deva sempre lhe dizer sim. você tem apenas três meses e eu já acho isto. é por isso que agora você chora no berço. eu e seu pai estamos tentando lhe ensinar a dormir mais cedo. é muito cedo para dormir tão tarde, filho. preparamos seu cantinho - e seguimos o mesmo ritual todas as noites. e mesmo assim você chora. não lhe abandonamos. vamos lá de cinco em cinco minutos dizer-lhe que está tudo bem, que é apenas hora de dormir. mas ainda assim você chora. até quando? não sei, filho. mas sei que como estava, era muito difícil para mim e seu pai. horas e horas lhe ninando, balançando na rede, e você nem dormia nem ficava em paz acordado. aí resolvemos seguir o conselho do médico: "ensine seu filho a dormir sozinho". e assim tem sido. quando você finalmente resolve, crava os olhos no seu coelho e dorme gostoso. só acorda manhã alta. foi sempre assim. se alguma vez me ouvir dizer que, quando você nasceu, perdi noites de sono, pode me desmentir (logo você vai perceber que as mães adoram exagerar seus feitos!). você apenas não quer dormir cedo, embora a irritação, o choro, as mãozinhas esfregando os olhos deixem claro que você tem sono. mas não quer dormir e, por isso, chora. e chora como quem pede colo.
poderei evitar todos os seus choros, filho? acho que não. aprender doi. existe o sim e o não neste mundo. muitos sins e muitos nãos. e eu posso estar enganada, mas tenho cá em mim que se eu lhe disser apenas sim talvez contribua para que você seja como estes seres sem vontade que eu vejo a cada dia. seres sem força, sem ação, sem paixão - engolidos pela vida de todos os dias. entediados pela quantidade de facilidades que a vida lhes ofereceu. todos os sins do mundo. nenhum não.
nestas noites, você tem ouvido seus primeiros "nãos". é a primeira bola que lhe jogo. agora, você vai ter que aprender a dormir sozinho, no seu berço. e descobrir que mesmo assim está protegido.
nestas noites, você tem ouvido seus primeiros "nãos". é a primeira bola que lhe jogo. agora, você vai ter que aprender a dormir sozinho, no seu berço. e descobrir que mesmo assim está protegido.
dói, filho. mas eu sou durona. e você vai ter que aprender a lidar com isso.


















