segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Família e amigos é que são bons


Uma semana rodeada de carinho e atenção. Maneca e Princesa vieram. Ida, amiga do tempo das Letras, também. E veio com Irma, quase moça, que nem existia quando nos conhecemos. O apê ficou pequeno, mas ficou tão bom. É bom quando é assim: pertinho. Tudo respira amor. O que sentem por mim, estendem ao meu filho. Emoção enorme de vê-lo com a Princesa; ela, meu primeiro amor de filha. Dorme no seu colo, como se. E eu fico olhando e sentindo. E ainda aquelas longas conversas com Maneca, que conta tudo tim tim por tim tim. Tim tim por tim tim é que é bom.

Atormentam-me

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meus excessos.
os livros não lidos.
a casa quando desarrumada,
as notícias tristes do mundo.
meu francês desaparecendo.
impaciência sem razão.
saudade dos de longe.
telefone.
coca-cola.
o tempo que corre.
horas perdidas na Internet.
textos inacabados.
os não publicados.
as manhãs.
viagens não feitas.
aquele maldito.
este lugar.
os medos que agora sinto.
insônia. vez ou outra apenas.
oportunidades abandonadas.
o que não disse.
o que disse em excesso.
o que não fiz.
os três quilos a mais.
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Música mundana, de John Neschling

(Um apêndice antes de começar: não dá para ler Ulisses tendo um bebê em casa. O grosso volume é uma concorrência e tanto. Como diz o Bozoca: livro grande demais é desconfortável. Pesa! Então, voltei por ora às leituras menos ambiciosas. Nas madrugadas, estou lendo Um homem sem profissão, de Oswald de Andrade. Fácil de segurar. E hoje, enquanto esperava o peixe delicioso feito pelo sogro, terminei Música mundana, de John Neschling).


Sempre tive grande admiração por este homem, embora nada entenda de música clássica. A cada vez que lia algo sobre ele, relacionava-o a pessoas que muito admiro e que pautam sua vida pela disciplina e seriedade nos seus projetos de vida. Uma admiração que vem da minha vontade - e incapacidade - de ter esta mesma disciplina. Não sei quantas vezes eu e minha amiga Mari planejamos assistir a um concerto na Sala São Paulo, mas o pouco contato com esse tipo de música sempre nos impediu. No fundo, achava que Neschling sempre estaria lá. Haveria tempo. Como a história nos mostrou, eu me enganei.

O livro, autobiografia concisa,  foi escrito após a sua saída tumultuada da Osesp. Subrepticiamente, não trata de outra coisa, mas o faz de modo verdadeiro e apaixonado, contando sua vida desde os primeiros momentos de interesse pela música. Os seus arroubos, as  suas histerias, a sua fama de mal,  devem ocupar apenas seu corpo. A sua escrita é de um erudito. Um homem elegante com a sua dor. E isso me instiga muito. Se ele errou na condução da Osesp, o fez porque toda a sua vida foi pautada pela obsessão da perfeição.  Talvez seus inimigos estejam certos, e a criatura, de tanto amar a sua criação, acabou por destrui-la.  O fato é que ele construiu uma orquesta do nada. E hoje, mesmo quem não tem intimidade com música clássica, sente enorme orgulho da existência da Osesp. Não se encontra muita gente que consiga realizar um  feito assim. Não à toa as pessoas obcecadas pela perfeição reclamam de enorme solidão. Para Neschling, não existe nada mais além da música. E assim ser, tem seu preço.
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

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"Quem me dera que, ainda que inventadas, essas memórias fossem minhas".

In: Satolep, de Vitor Ramil.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

para o filho


Poeminha, a vida é um milagre. E às vezes esquecemos disto, você logo vai perceber. Porque a morte é o inverso da vida, agimos como se ela não existisse. Mas ela existe, filho. Os perigos são muitos. Por isso, ontem, eu, sua avó e seu pai demos uma choradinha depois de um pequeno tombo seu. Não foi quase nada, mas foi muito para nós. Não estamos preparados para que qualquer coisa de ruim aconteça com você. Nunca estaremos. E eu acho isto uma das coisas mais loucas de ser mãe. Não tem volta, filho. Eu sinto muito fortemente que, se você desaparecer antes de mim, nunca mais poderei ser feliz outra vez. E isso é muito amedrontador. As tantas perdas por que já passei me ensinaram que tudo pode ser superado. E que há perdas que nos trazem ganhos ainda melhores. Filho, pode-se perder um amor, aquele amor que juramos ser para sempre, que queremos que seja para sempre, e pouco tempo depois já estarmos prontos para um novo amor, uma nova história. Aconteceu assim comigo, e é por isso que você existe. Mas até mesmo pensar na possibilidade da perda de um filho é intolerável. Não há suporte. É como disse aquela atriz meio desmioladinha (no bom sentido), a Maria Paula, amor pelo filho é um amor com medo. Medo da perda. Porque o amor é demasiado grande. E assim como é intolerável pensar na perda, eu me vejo não querendo desaparecer - o que me era tão fácil. Faz dias que quero voar de monomotor com um amigo nosso... mas agora mil pensamentos me assaltam. E se algo acontecer? e se o avião cair? Mas não precisa ter medo, filho. Deixa que eu tenho. Sei que este medo vai se assentar aqui em mim. A vida é um milagre, entre outras coisas, porque vivemos como se nunca fôssemos morrer. E é assim que deve ser para que nos sobre apenas a alegria.
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Satolep, de Vitor Ramil


Meu caso de amor com Vitor Ramil é antigo. E é musical. Fã de carteirinha. De ir ao show, pedir autógrafo e tirar fotografia ao lado. Então, ler Satolep é uma extensão deste amor. É uma declaração deste amor. Vivo um tempo de declarações.  E este livro é também uma declaração de amor a cidade de Ramil, Pelotas. A história se faz a partir de fotografias da cidade antiga. Vemos os casarões antigos, as ruas, as praças... O preto e branco enche-nos de nostalgia. Mas a história não é nostálgica. Surpreendentemente, é quase um suspense, movido pelo fantástico, em que cada lance é decidido pelas fotografias. E mesmo com a instauração do fantástico, a narrativa é sóbria. Para o narrador, trata-se de não aceitar que a Satolep que ele vê seja ruínas um dia, enquanto que para o autor trata-se de fazer mover a memória - pessoal, insubstituível, fantasmagórica - para não se deixar vencer pela desaparição inevitável. Vê-se uma Satolep que não mais existe.

Assim, as histórias das personagens funcionam como uma forma de provar a existência do que não existe mais. O fotógrafo que retorna à cidade, renegando a casa do pai e se encontrando com personagens próprias e ilustres do Rio Grande do Sul, quer, no fundo, não se deixar vencer pelo esquecimento. Daí que a lógica das fotos não é óbvia. Elas são não "o que aconteceu", mas o que acontecerá, como se o ser humano, e só ele, pudesse refazer tijolo por tijolo aquilo que o tempo fez desmoronar. Daí a narração para interlocutores que só têm voz no último texto ser tão necessária (não vou dizer aqui que, virtualmente, somos nós leitores estes interlocutores, porque estou farta de textos que aludem ao leitor!!!) . É a narração que presentifica as fotos, que esvai a nostalgia, instalando o suspense.

Como está dito em algum lugar do livro: "o inesperado é a regra".
Queria ser aquela que fotografou a cidade da infância.
Por diversas vezes, pensei nisso.
E por diversas vezes adiei esperando ter a máquina perfeita.
Quando vou aprender que o tempo leva tudo?
E que não adianta esperar?
Queria eu escrever as memórias da minha cidade.

Seriam memórias totalmente opostas, é certo. Porque o frio, a bruma, a umidade tomam conta de Satolep, assim como o sol toma conta do Nordeste brasileiro, de onde vim. É a estética do frio de que fala Ramil e que, no livro, está na boca, por exemplo, do Cubano: "o frio geometriza as coisas", um frio que não vai embora nem quando o calor começa. Pelotas como lugar frio é uma maneira de demarcá-la como diferente, apreensível apenas para aqueles que, como o personagem Selbor, a vivencia através de seus mitos, seus homens, de uma forma particularizada e poética.
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sobre o presente



um blog é, principalmente, sobre o presente. às vezes, eu volteio pelo passado. atrás das  minhas memórias. ou são elas que vêm atrás de mim e ficam pisando em meus calcanhares até fazerem calo. e ainda assim,  fica tudo distorcido pelo presente, que é a matéria-prima desse tipo de escrita. daí por que sempre imagino mil postagens, e destas saem duas, três. o presente se impõe.
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"Muita gente anda pelo mundo sem saber pra quê: vivem porque veem os outros viverem. Alguns aprendem à sua custa, quase sempre já tarde demais pra um proveito melhor. Eu sou um desses".

Frase de Satolep, de Vitor Ramil, atribuída a João Simões de Lopes Neto, que preciso ler.
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

revisteiro coca-cola



Quando eu vi a ideia no blog da Mika Lins, não resisti. Imaginei logo que queria algo parecido. A caixa dela tem mais bossa - é de madeira. Mas achei esta em uma tarde maravilhosa. Vi que era a hora. Estava tão encardida, tão suja, tão jogada... Já estava carregada de histórias. Como tudo aqui em casa, tem muito a ver comigo. Afinal, coca-cola é meu maior vício. Eu nunca tive nada contra a coca-cola. Pelo contrário. Na gravidez, foi mais fácil parar de beber cerveja do que. Já no tempo da ideologia, eu achava estranho o ódio a coca-cola, que representava o ódio aos Estados Unidos e tudo que eles supostamente representam. Também não tenho ódio aos Estados Unidos - e, acreditem, sempre fui de esquerda, quando fazia sentido usar este rótulo. E ainda agora, quando não faz mais sentido, preparo-me para votar na Dilma. E mesmo assim, tenho muita vontade de andar pelos museus de Nova Iorque - e quem sabe não será em breve... A Disney, acho um horror. Mas é culpa dos brasileiros. Todo descerebrado adulto que tem dinheiro vai a Disney nas férias... Mas quando estava em Paris fui a Eurodisney... que é uma cópia pálida da de Orlando. E por aí vou - sem rótulos. Não misturar alhos com bugalhos. Não seguir as palavras de ordem, eis.


O que eu gosto é de  não ser escrava de nenhuma moda. Gosto da liberdade que a casa dá. E apenas a casa dá. Porque a casa é um parque de diversões. E pede autoria. Não pede quadro que combina com sofá. Pede a a bobeira, o trash, o kitsch.

Loucos por cinema 2

O cinema já me salvou muitas vezes. Quando era criança, imaginava-me psicóloga. Depois, jornalista. Não deu nem uma nem outra. Na época, não existiam estes cursos em Porto. Escolhi Letras - porque gostava de ler. Mas se pudesse retroceder no tempo, teria feito Cinema. O cinema já me salvou muitas vezes. Quando morei em Campinas, não conheci a cidade por causa dos filmes. Em um ano, praticamente não conheci nada. Via um, dois, até três filmes todos os dias. E isso me bastava. Em Paris,  já foi o contrário. Conheci muito da cidade por causa dos filmes. Escolhia os cinemas a partir dos lugares que não conhecia. Antes dos filmes, sempre dava umas voltas pelos arredores. Agora os filmes me salvaram outra vez. Porque é foda ficar janeiro em casa. A impressão é que o mundo todo está em alguma ilha de Caras - e nós em casa, curtindo uma conta no vermelho. Ok, não tão dramático nem tão vermelho, afinal temos o Poeminha. E evidentemente não é na ilha de Caras que quero ir, mas, sim, na lista de lugares que ainda quero ir antes de morrer). Mas  como ia dizendo, é certo que o cinema já me salvou muitas vezes. E salvou-me agora. Eu estava bem entre os livros. Mas sempre vinha uma nostalgia, uma tristeza. Até que vieram os filmes. Três noites, oito filmes. Delícia, delícia. Todas as histórias fazendo da minha uma história bonita. O paraíso, simplesmente o paraíso.
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E, claro, deu uma puta vontade de comprar um datashow, que estão cada vez mais com uma qualidade espantosa - cinema em casa. Este da foto é emprestado de um amigo. O bom é que é daqueles amigos que se pode sempre pedir emprestado. 
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Loucos por cinema


  • Amantes [EUA, 2009], de James Gray
  • 500 dias com ela [EUA, 2009], de Marc Webb
  • Revólver [França, Reino Unido], de Guy Ritchie
  • Valsa com Bashir [Austrália, Bélgica, Finlândia, França, Alemanha, Israel, Suíça, EUA ], de Ari Folman
  • Revanche [Áustria, 2008], de Götz Spielmann
  • Rio congelado [EUA, 2008], de Courtney Hunt
  • Bastardos inglórios [EUA, 2009], de Quentin Tarantino
  • Estômago [Brasil, 2007], de Marcos Jorge
Recomendo todos. Porque, modéstia às favas, eu entendo um pouco do babado.

    para o filho




















    Poeminha, eu te amo cada dia mais.
    Sem eufemismo.
    A cada dia, mais amor.
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    sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

    para o filho



    Poeminha, amar é tão fácil. educar é que são elas. filho, eu  temo não ser uma mãe perfeita. tenho lido alguns sites de mães na ânsia de entender o que significa este troço danado de fácil e danado de difícil. na maioria das vezes, acho-as bem melhor do que eu. embora, na sã consciência, eu saiba que  pensar assim é bobagem. é porque eu sinto que serei uma mãe exigente e às vezes ausente. amorosa, sim. muito amorosa. eu não poderia contar quantos beijos e abraços lhe dou por dia, nem quantas vezes digo que lhe amo. e cuido de você sozinha. não temos babá. e não sei quando teremos. muitas mamadas. e colos. e banhos. e arrumo você todo. você ja é estiloso desde agora (gostará de sê-lo quando crescer?). e faço massagens em você todos os dias. e me chicoteio porque não consigo acordar cedo para lhe dar banho de sol. você é cheiroso, muito cheiroso. gosto de homens cheirosos, filho. sempre gostei. e  agora você é meu homenzinho.

    eu recolho cada sorriso seu. que são muitos. você é muito, muito sorridente. já leio histórias para você. e lhe mostro o mundo colorido. hoje ficamos à beira do rio. e eu sacudi meus pés na água como você faz na banheira para que você sentisse que o rio não é mais do que a sua banheira em tamanho maior. assim não é preciso ter medo. falo isso tudo para você. falo como adulto, sem colocar os "l" no lugar dos "r". mas minha voz às vezes sai meio infantilizada. e automaticamente faço o barulho de "carrinho" que você aprendeu com seu pai e não para de repetir. enfim, nada lhe falta. meio criança meio adulta, é assim que sou com você.

    mas sou exigente, filho. não acho que deva sempre lhe dizer sim. você tem apenas três meses e eu já acho isto. é por isso que agora você chora no berço. eu e seu pai estamos tentando lhe ensinar a dormir mais cedo. é muito cedo para dormir tão tarde, filho. preparamos seu cantinho - e seguimos o mesmo ritual todas  as noites. e mesmo assim você chora. não lhe abandonamos. vamos lá de cinco em cinco minutos dizer-lhe que está tudo bem, que é apenas hora de dormir. mas ainda assim você chora. até quando? não sei, filho. mas sei que como estava, era muito difícil para mim e seu pai. horas e horas lhe ninando, balançando na rede, e você nem dormia nem ficava em paz acordado. aí resolvemos seguir o conselho do médico: "ensine seu filho a dormir sozinho". e assim tem sido. quando você finalmente resolve, crava os olhos no seu coelho e dorme gostoso. só acorda manhã alta. foi sempre assim. se alguma vez me ouvir dizer que, quando você nasceu, perdi noites de sono, pode me desmentir (logo você vai perceber que as mães adoram exagerar seus feitos!). você apenas não quer dormir cedo, embora a irritação, o choro, as mãozinhas esfregando os olhos deixem claro que você tem sono. mas não quer dormir e, por isso, chora. e chora como quem pede colo.

    poderei evitar todos os seus choros, filho? acho que não. aprender doi. existe o sim e o não neste mundo. muitos sins e muitos nãos. e eu posso estar enganada, mas tenho cá em mim que se eu lhe disser apenas sim talvez contribua para que você seja como estes seres sem vontade que eu vejo a cada dia. seres sem força, sem ação, sem paixão - engolidos pela vida de todos os dias. entediados pela quantidade de facilidades que a vida lhes ofereceu. todos os sins do mundo. nenhum não.

    nestas noites, você tem ouvido seus primeiros "nãos". é a primeira bola que lhe jogo. agora, você vai ter que aprender a dormir sozinho, no seu berço. e descobrir que mesmo assim está protegido.

    dói, filho. mas eu sou durona. e você vai ter que aprender a lidar com isso.


    segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

    Opinião de amiga

     A Kotz disse: "olha como é legal esta luminária!". E depois acrescentou: "mas o que não é legal neste apartamento?". ok, opinião de amiga não vale. Mas é bom ouvir...

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    eu não disse que ficávamos paquerando?
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    ainda agora, na varanda, a chuva cai. e nós.
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    sábado, 9 de janeiro de 2010

    Soda acústica



    conheci o soda acústica no palco do Itaú Cultural de Sampa. na época, eu não sabia, mas vivia uma solidão a dois dos diabos. pois foi assim, numa solidão a dois, que ouvi pela primeira vez o Soda. e me apaixonei por eles ali. eu e minha solidão. uma amiga me disse que o nome da banda cheirava a coisa de adolescente. mas eu garanto que não é coisa de adolescente. não o nome, e sim a música que vem da banda. esta rapaziada - Rinaldo, Anderson, André -   é pop. é jovem. é cabeça (ainda se usa esta gíria?). é uma delícia de ouvir.

    é bem inteligente sem ser pretensioso. quer dizer, às vezes é pretensioso - numas letras que querem salvar alguma coisa - demoEGOcracia. mas tem uma ironia tão boa, uma utopia tão boa, que vale ouvir muitas vezes. um som que soa diferente. pouquinhas notas. mas coisa fina - aqui e ali,  a repetição comanda e - epa - uma nota arranha  diferente, estranha, surpreendente, dissonante. um cuidado com a palavra. poesia. coisa de poeta  - adoro se "e se eu for um arremedo/ o início de um ano velho/ janeiro sem enredo"::: a expressão do nosso tempo, da nossa  hesitação diante das coisas do mundo. tem um quê de bandas alternativas. me lembram uma porção de bandas e me lembram nenhuma ao mesmo tempo - e isso se chama originalidade (mais uma palavra démodé). me lembram Arnaldo Baptista. me lembram os the darma lóvers. e como disse, lembram eles mesmos - uma consiciência musical de quem sabe por que canta, por que quer ser artista, por que quer fazer música.  

    sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

    (re)soluções do novo ano

    - voltar a assistir a um filme por dia (ao menos).
    - voltar a tirar fotografias com a mesma constância e alegria.
    - cuidar menos da casa. mas comprar uns mimos para ela que estão na lista.
    - gastar menos.
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    o bicho da seda tece. não sabe se uma colcha colorida. ou algo mais sóbrio - preto e branco talvez. agora ele trabalha bem na minha frente. paqueramos. dividimos a mesa. e a felicidade. às vezes, me deixa sozinha. eu peço. e ele deixa. 
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    quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

    bortolotto


    estou vindo agora da leitura do "atire no dramaturgo", do mário bortolotto. aquele, que levou três tiros e trouxe de volta a discussão sobre a segurança na praça roosevelt, em são paulo. aquele responsável pela tão propalada "revitalização" da mesma praça. leio o blog do bortolotto faz tempo. não teve nada a ver com os seus tiros. tem a ver com a minha paixão pelo teatro de sampa, que me faz falta como o diabo. assisti a algumas peças na praça roosevelt. o ar underground é ducaralho. eu gostaria de ter me embriagado lá mais vezes. na última vez que fui a sampa, aniversário, perambulei por lá. já faz tempo. nem eu podia adivinhar como minha vida mudaria a partir dali. talvez eu desconfiasse dada a quantidade enorme de telefonemas que recebia do Tatu enquanto perambulava, extasiada com a constatação de que nenhuma lembrança de um amor partido tirava a minha alegria de estar ali, de conhecer o espaço cultural de sampa como a palma da minha pica, se tivesse uma  - à la leminski. agora tudo acontece sem mim. mas eu engreno outras vivências. e a saudade de lá é sempre domada pela nova vida que se faz. eu olho e agradeço. eu olho e me espanto.

    mas leio que não sou besta, amém. viver como ameba nem um único dia, que por aqui o tempo pode ser curto. e se for? terei vivido tudo. estou só esperando que minha conta corrente coopere um pouquinho mais comigo para cair no mundo. difícil demais quando me faço tão indisciplinada. a disciplina é sempre tão careta. a piada aqui em casa é que eu gasto meu salário, o do tatu, meus bicos e também os dele. mas agora é novo ano e eu vou criar juízo. depois perco de novo.

    mas, voltemos.  lindo o modo como bortolotto lidou com a sua sobrevivência. ele ele ele. chorei um bocadinho. ando assim. vida longa ao dramaturgo que ele merece. vida longa à praça roosevelt e aos bêbados que passam por lá querendo respirar um pouco dessa loucura sã que é querer viver acreditando que a cultura vale - até mesmo três tiros.
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    quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

    Show do Binho e a vida



    A vida é mesmo linda. Com meu filho ficou  fácil. Nunca gostei da tristeza. Já fui triste, mas mesmo quando era deixava que meu sorriso comandasse e acomodasse as tristuras. Às vezes, basta-me um filme. Ou uma frase em algum livro. Nem isso. Só uma folheada já me faz ganhar o dia. Ou um email. Comunico-me  menos com aqueles que estão longe, mas mesmo a falta de comunicação me traz o prazer do gesto raro. Saturada das facilidades da Internet, comovo-me quando venço a mim mesma e chego até ao outro. Bebo uns goles de vinho nas quase madrugadas. Poeminha há de perdoar algumas gotas que vão para ele: "filho, vinho é tão bom, sair um pouco de si mesma é melhor ainda!". Todos em mim: mari, marie, binho, manu, maneca, jéssica, mana, arev. Tanta a distância de tantos que amo.

    Fomos ver o show do Binho em uma cidade a quatro horas daqui. Ji-Paraná. O show foi ducaralho. Bado estava lá nos violões. Mettal nas projeções. E Carlos Moreira nos poemas. Eles são desconhecidos em âmbito nacional, mas é uma turma fudida de boa. Música de primeiríssima qualidade. E são gentes raras. Amo tanto o Bado e o Binho que nem sei. Ensinam-me um mundo a cada vez. Plateia quase vazia. Ser público é para quem tem sorte. Eu tenho muita. Eu, meu filho, Tatu, o amigo dele nas estradas, ouvindo muita música e jogando muita conversa fora. A vida é mesmo linda. E depois do show sempre rola um barzinho. Eu, meio preocupada com o barulho por causa do Poeminha, mas ele dormiu entregue aos seus sonhos, e eu senti que podia ser eu mesma sendo mãe.

    Tenho seguido meu caminho. É o meu modo de me proteger do mundocão e de mim mesma. Dois, três dias sob tensão e já me vem uma vontade de esquecer tudo - tempo, tempo, tempo, salve-me. Depois do show do Binho, passamos a tarde em um hotel fazenda. No meio da floresta, escorreguei, quase ralei o joelho e lembrei do que realmente vale a pena, e por que estou aqui.
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    O cinema

    "O cinema não tem regras. Por isso ainda o amam"
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    "É preciso viver as histórias para inventá-las".

    Jean-Luc Godard, em Paixão.
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    tão difícil a reinvenção de si.
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    segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

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    3 dos 90 dias. vamosverseconsigomereinventar.
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    sábado, 2 de janeiro de 2010

    para o filho


    Poeminha, você foi a estrela do natal e da festa do ano novo. a família do seu pai em volta de você. datas importantes, filho. para mim, sempre alguma saudade. e alguma tristeza dos muitos natais que não tive. você os terá, filho. eu prometo.

    à meia-noite, eu e você vivemos um momento lindo. posso lhe garantir que vivi um dos momentos mais poderosos da minha vida (e olha que cultivo com amor momentos poderosos). saímos de casa para ver a queima de fogos. eu não queria ir. vontade de lhe proteger. como imaginei, você se assustou. com os primeiros barulhos, chorou forte. e eu, instintivamente, lhe ofereci o peito. e o peito, eu descobri, é muito mais que um alimento. é um escudo, filho. nada mais lhe assustou. nem um único movimento indicou que você ainda escutava os barulhos que segundo antes tanto lhe assustava. foi tão bonito. veja, meu filho. a sua presença, a sua tranquilidade fez dessa "virada" a mais bonita de toda a minha vida. e sabe por que, filho? porque, quando lhe protegi, me senti inteira. foi você quem me protegeu. chorei. e de pura felicidade. senti que todos os vazios ou todos os transbordamentos de ano novo foram nada se comparados com o que eu e você vivíamos ali. comunhão plena.

    nem sempre será assim, você vai ver. nem sempre poderei lhe proteger das dores do mundo. muitas vezes, você estará sozinho. em outras, não vai querer minha proteção. ou não vai precisar. mas saiba, filho, que eu descobri algo no primeiro minuto de 2010: que, enquanto eu viver, você poderá contar comigo. eu estarei sempre a postos.

    obrigada, meu filho, por existir. você e seu pai me completam.
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    terça-feira, 29 de dezembro de 2009

    Sobre os amigos ou "o que desejo"


    Eu queria fazer um texto bem especial para o fim do ano. Mas nada me vem. Eu poderia falar da leitura de Maus. Ou do cd do Otto, que amei. Ou do Soda acústica, que ouço e me orgulho como se fosse parte de mim. E nada. Fica tudo aqui. Então eu lembrei que não escrevi realmente sobre o SILIC, simpósio de literatura contemporânea que organizamos. E de como foi maravilhoso ter hospedado meus amigos Binho, Márcio e Mettal, que foram convidados para o simpósio. O SILIC foi arquitetado amorosamente pelo grupo de pesquisa. Não tivemos financiamento institucional. Um ficou no sofá, outro na rede e outro no colchão de casal que era do Tatupai antes de encontrar a Tatumãe. O que só se faz com os amigos, bem poderia ser o título. Acho que para todos foi uma grande festa, tanto que ou por necessidade ou por vontade todos deram uma "esticadinha"depois do simpósio. Poeminha ainda estava na barriga, mas foi muito paparicado. Memórias. Depois que eles se foram, foi um baque - amortecido pela chegada do Poeminha e pela vinda da minha família. Quando o apê ficou de novo vazio, e eu e Poeminha ficamos por aqui, bateu forte a solidão. E haja relembrar. Isso tudo porque Márcio, Mettal e Binho são amigos maravilhosos. Eu passaria toda a vida conversando com eles. Como é bom! Conta, sim, eles serem muito sabidos. Eu sei levar bem as conversas corriqueiras, mas, ao pensar nos "meninos", me vem a certeza de que, nestas conversas, há um certo "fingimento social", pois o que eu gosto mesmo é de partilhar saberes, sobretudo quando não há nenhum pedantismo. Quando tudo flui naturalmente. Fala-se de coisas interessantes porque vive-se de forma interessante. Nada de assuntos institucionais. Os meninos vivem no corpo os seus interesses. Não leem ou estudam ou ouvem música ou veem filmes por obrigação. Não há pose. Só entrega. E eu sinto falta disso. Sinto falta deles. E de mais um tanto de gente que conheço. Eu brinco: "será que meu filho vai gostar de coisas ou vai gostar de não gostar?". Sinceramente, eu espero que ele escolha a primeira opção. Viver como um lesma, sem gostar de gostar, é um pouco como estar morto. Tem muita gente morta por aí e não sabe.
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    Então é isto que eu quero desejar a minha meia dúzia de leitores: que gostem de gostar. Que aprendam a reinventar o seu dia a dia. Eu também quero aprender muito mais. Meta? Mergulhar ainda mais no meu paraíso artificial. Tenho ensaiado. E tem sido bom. É isto. A todos, um grande mergulho em si mesmos. Nem todo dia o céu é azul. E nestes dias, só o paraíso artificial nos salva.
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    Tenho vontade de sair pelo mundo. E às vezes cantarolo baixinho com algum espanto e algum medo: "será que eu vou virar bolor?". Sempre muitas perguntas no fim do ano, mesmo que se preencha todo o tempo. Deve ser por isso. Preencher tudo para que não sobre nenhuma pergunta. Eu gosto de perguntar. Mas às vezes, muito medo de responder. Sou muito lúcida. Sou. E por sê-lo, por vezes fujo. Viver no exílio é sempre uma forma de vivenciar a dor. E eu me sinto no exílio. Embora me sinta em casa. Contradições de que a vida é feita. Ano 10 depois do fim do mundo. Tempo tempo tempo. Ano lindo, este que está passando. Um pedaço de mim foi gerado, cresceu, saiu para o mundo e agora está aqui por inteiro. Não tem nada igual. Procuro alguma foto no hd para dizer que ainda assim algumas vezes sou só eu. Eu na minha cabeça. com minhas vontades meus desejos minhas frustrações. Mas não tenho nenhuma foto sozinha no último ano. E isso me assusta um pouco. Um bocado. Então me sobra uma foto do palhaço do cirque de soleil - um momento todo meu. Mais não digo. Divã online pede sutileza. Elegância não faz mal. E por falar em elegância, hoje eu estava no supermercado, uma gripe de dá dó, e vejo uma moça elegantíssima. Nada fora do lugar. E antes que eu sentisse inveja, ou motivada pela inveja, um pensamento me cai como um raio: "que tipo de gente se produz assim para vir ao supermercado? é o cúmulo da deselengância". Ponto de vista. Gostar de cara lavada e sandália havaiana dá nisso. Então tá. Estou lendo Ulisses. Há três dias, acordei decidida a ir até ao fim desta vez. Por que? cansei de ir de um livro a outro. Exceto Maus, nenhum de fato realmente me arrebatou. Um ou outro me encantou, me divertiu, fez passar o tempo, mas... sempre o mas. Acho que é hora de. Estou em busca, eis. Ainda sou aquela menina.
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    quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

    para o filho


    Poeminha, seu pai sempre dança com você. e sempre dança para mim. você vai ver: dou muitas risadas nestes momentos. ele e sua cara de menino maroto dançando pela casa, olho no olho esperando a minha reação. também dançamos juntos, eu e ele.

    e não há um só dia em que eu não faça o mesmo com você. eu e você agarradinhos. já cantar, não dá. tudo que consigo fazer é uns "humhumhum". não tenho voz. não tenho ritmo. mas lhe embalo como quem sabe. aproveito agora que você não percebe que não sei.

    talvez você já perceba que nunca falta música aqui em casa. eu coloco várias pensando em você. dizem que música clássica é bom para afinar seu ouvido. por isso, temos ouvido muito. chopin schubert mahler nelson freire. e também muito jazz. mas também escutamos "todo tipo". eu gosto muito de vozes femininas. seu pai gosta muito de chico buarque. desde a barriga que ele coloca para você ouvi-lo. e agora estamos ouvindo o novo cd do otto. na primeira vez, ele tocou inteirinho com nós dois na rede. muito, muito bom. ora você arregalava o olho, ora resmungava, ora chupava a mão, e já no finzinho se espreguiçou todo como quem diz "já chega".

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    coleções


    O colecionador é um escravo. É como alguém num deserto: sempre sedento. Nunca se satisfaz com o que tem; o olhar está sempre no que, aparentemente ao seu alcance, ainda não lhe pertence. O "ainda não" é o copo de água do colecionador. É o que lhe impulsiona.


    Sempre me espantam os números dos colecionadores. Ed Motta disse numa entrevista que tem mil garrafas de vinho. Um amigo meu tem uns três mil vinis. Outro, uns cinco mil livros. Eu tenho mais de mil cds. Quantos livros, não sei. Não conto. Só sei dos cds por causa da estante. Tenho vários amigos que ultrapassam a casa do milésimo em relação aos seus gostos musicais e livrescos. O número mil parece ser um número fetiche. É excessivamente tentador para um colecionador.

    Quanto a mim, considero que só tenho uma coleção: a de corujas, que anda meio combalida e está muito longe de alcançar este número. Falta muita água para matar minha sede. E acho que sempre faltará.
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    para o filho


    Poeminha, você é como a sua mãe. dorme bem tarde da noite. e durante a manhã. tem dias que só acorda meio-dia. então, quando você crescer, se continuar a ter insônia, vou lhe dar um conselho: goste da noite. é preciso gostar daquilo que lhe chega como um espanto - e de modo irreversível. não se torture tentando dormir. quando eu comecei a ter insônia passava horas de olhos arregalados no escuro. hoje passo muitas horas de olhos arregalados, mas nunca mais no escuro. você vai perceber logo: olhos servem para ver o mundo. e a noite é um mundo todo.

    pode ser em uma destas noites que você leia o livro da sua vida, ouça uma música que nunca vai esquecer, beba seu primeiro porre, passe a noite inteira conversando com um amigo ou com um amor que você nunca mais vai amar como naquela noite. ou talvez seja em uma noite assim que você veja um filme do bergman e lamente que ele não esteja mais vivo para continuar fazendo pérolas de beleza e dor.

    Pode ser também que em uma dessas noites você nine seu filho para que ele aprenda a dormir um pouco mais cedo do que você.

    domingo, 20 de dezembro de 2009

    Faça você mesma


    Eu não sou muito adepta do "faça você mesma". Falta-me criatividade e paciência para o manuseio da "coisa". Além de sempre achar tudo meio tosco. No entanto, em tempo de grana parca, com papéis se espalhando pela casa toda, "fiz eu mesma" esta estante com caixotes de supermercados e pedaços de madeira. Estes me acompanham há um tempão, desde a morada em Rio Preto. A versão anterior da estante era com tijolo, mas era muito, muito tosca. Feria demais meu senso estético. Cheguei nesta, enfim! É ainda tosca, mas me parece mais bacana. Continuo imaginando algum móvel bonito neste lugar, mas agora dá para esperar. Afinal, meu mantra para consumir menos tem sido "PRECISO ir bem ali mostrar o mundo aos meus dois homens".
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    sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

    O livro amarelo do terminal, de vanessa barbara

    "o livro amarelo do terminal", de vanessa barbara, é bárbaro (hehe! como resistir a este trocadilho infame!? só se eu escrevesse tão bem quanto ela!). eu já sabia disso antes de darem a ela o Prêmio Jabuti 2009 de jornalismo. em 2003, vanessa perambulou pelo tietê para escrever a reportagem de conclusão do seu curso de jornalismo. e deu no que deu: um livro delicioso. dizem que é reportagem. eu acho que é crônica, daquelas de dar água na boca. e uma pontinha de inveja: "por que não fui eu a escrever isto?". a primeira frase já me pegou de jeito: "A rodoviária do tietê é uma cidade de coisas perdidas". eu já disse aqui que gosto de definições. e esta é inusitada. e é assim, de inusitado em inusitado que ela vai tecendo a vida dos que passam e dos que vivem na rodoviária do tietê. esta é uma boa sacada: há uma multidão que por lá passa, mas que por lá também vive, mesmo que temporariamente: os vendedores, os balconistas, os vigilantes etcetcetcetcetcetc. e ela fala com toda esta gente. e nos conta histórias deliciosas sobre eles. as páginas são irritantemente amarelas e azuis. o projeto gráfico bem que podia ser menos exagerado. mas isso é o de menos. importante é que o leitor se diverte e aprende. muitas historinhas de bastidores. tem espaço pra tudo: até pra desancar seus colegas de jornalismo, em uma seção intitulada "a imprensa". nela, finalmente entendi porque todas as reportagens parecem iguais. porque são mesmo. um "gerador automático de reportagens" dá conta de dar todas as informações do movimento do Tietê em épocas de ( ) carnaval, ( ) páscoa, ( ) natal. todas as informações, vírgula. é esta diferença que faz o livro de vanessa. ela foi atrás do que ninguém vê. e a partir daí disse de um jeito que ninguém diz. deve ter aprendido com os grandes que a matéria de toda boa história - seja jornalismo, seja ficção - é o humano.

    para o filho

    "Poeminha, quase todos os dias vamos à casa da sua bisa. a sua avó, que mora longe, também está aqui. tem também a tia. três mulheres que ficam enlouquecidas quando lhe veem. disputam cada um dos seus sorrisos. é bonito de ver. mas bonito mesmo é ver a cara de felicidade do seu pai. ele nem precisa ser expansivo - sim, sim, você vai ver que ele tem um sorriso tímido - para que eu perceba todo o amor que ele sente por elas. por nós".
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    tarde saudade

    em uma tarde como esta, chuvosa, com o filho dormindo na rede, sinto saudade de muitas coisas e muitas pessoas. "A saudade/ é brigitte bardot/ acenando com a mão/num filme muito antigo".
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    sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

    Cabelo liso

    O mundo quer cabelo liso. Eu que tenho poucas melengas lisas sempre achei muito estranho. Tanta mulher linda estragando o seu cabelo lindo... Até quem tem cabelo liso, quer mais liso ainda, aí fica todo mundo igual com cara de quem acabou de sair do cabeleireiro. Sem querer, perde-se a noção da diferença. Mas isto não é de agora. Que o diga Sarará miolo, do Gilberto Gil, que é boa para dançar e para pensar.

    Sara, sara, sara, sarará
    Sara, sara, sara, sarará
    Sarará miolo

    Sara, sara, sara cura
    Dessa doença de branco
    Sara, sara, sara cura
    Dessa doença de branco
    De querer cabelo liso
    Já tendo cabelo louro
    Cabelo duro é preciso
    Que é para ser você, crioulo
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    acordinho

    Acho que vou fazer um acordo comigo: a cada vez que ler um livro, terei direito a outro. O que pode à primeira vista parecer uma grande vantagem é na verdade uma forma de punição. Sempre compro mais livros do que dou conta de ler. O tempo é tirano.
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    quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

    O melhor açúcar do mundo


    Um filho vem e ensina a cada dia uma coisa. Registro isto para não esquecer. Tenho sentido vontade de escrever mais sobre o Poeminha. Explico: este blog existe porque não tenho boa memória. Esqueço muito facilmente tudo que me acontece, seja uma leitura, um filme, um acontecimento. Uma psicóloga que à época me parecia muito incompetente me falou uma vez que minha memória só lembrava do que tinha acontecido de ruim. Por via das dúvidas, resolvi me prevenir. O blog, desde a sua primeira versão, que sumiu no buraco da net, foi feito para funcionar como uma espécie de memória artificial: eu não queria esquecer os anos de doutorado.

    Durante a gravidez, escrevi muito pouco sobre o fato em si. Sobre o que sentia, o que pensava, o que fazia por causa deste acontecimento. Pudor. Não queria dizer o que toda mãe diz: tudo açucarado demais para o meu paladar que passou a gostar de doce de leite apenas durante a gravidez (talvez porque gostava na adolescência e havia esquecido). Nem biscoito recheado eu engulo. Nem chocolate.

    Mas nestes dias me veio um susto. Eu trocava a fralda do Poeminha e constatava mais uma vez que é nesta hora que ele, aos dois meses, mais emite ruídos (solta gritinhos, gemidos, de modo alegre e concentrado). Parece que quer conversar. E o que dizer das caras engraçadas que faz logo depois que mama? Acomodando o leite, preparando-se para "arrotar", ele se espreme, geme, se espreguiça, faz biquinho... E que delícia é isto, que alegria infinda observar tudo que ele faz. O susto: e se eu não lembrar depois, se for para o sumidouro da memória, onde está a maioria de tudo que vivi e não registrei? E se eu não tiver nada para lhe contar deste tempo? Ou pior: e se ele ler, um dia, este blog e perceber que eu escrevi muito pouco sobre ele? Eu que já morro de medo de que ele cresça tendo a sensação de que eu lhe abandono por causa dos livros e dos filmes?

    Como minha meia dúzia de leitores já está acostumada à mistureba que é este blog, fica então o aviso: vez em quando, vai ter conteúdo açucarado - o melhor açúcar do mundo. Isso me traz uma certeza: a escrita, qualquer que seja ela, é antes para si do que para o outro. Porque ninguém mais se deleita e/ou se tortura com o que escreveu do que o autor. E nada neste meu momento é mais importante do que cuidar do meu filho, aprendendo com ele como se nasce, como se cresce, afinal eu não lembro de como nasci, como cresci. Fico pensando que observar o filho é também uma forma de se observar, de se ver em um tempo em que isto ainda não é possível. Que eu seja então fiel ao meu princípio, que este blog continue sendo o que procurava ser: "Sem análise nem crítica. Somente aquilo que advém de Barthes: humores. O jogo estéril do gosto/ não gosto. "Para guardar". "A regra = oferecer o íntimo, não o privado".
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    sexta-feira, 27 de novembro de 2009

    sobre os sacos de lixo e o amor


    Moro no segundo andar. Quem mora em apartamento sabe que o ato de levar o lixo é sempre uma chatice. Ainda mais quando não tem lixeira no andar. E eu, sem consultá-lo, instituí que isso seria obrigação do Tatupai. Será que levada pelas cenas dos filmes hollywoodianos, que têm sempre uma mulher mandando o homem levar o lixo pra fora? Eis um ritual de "estar casada". E eu que corria de casamento, me espanto em constatar que desde o primeiro "amanhecer" Tatu morou aqui. Até nos dias em que viajei, ele ficou com a chave. Lembro de ter tentado resistir sem convicção alguma. Ainda cheguei a perguntar: "você não vai mais dormir na sua casa?". Ele me perguntava se eu queria que ele fosse e eu, mal acreditando, me ouvia dizer que não. Não que eu soubesse que já o amava. Havia uma dor latente apenas amortecida. Mas rapidamente percebi que adorava a sua companhia. E que o esperava. Algo que me lembrava apenas as minhas grandes paixões. Confesso que nunca "esperei" as pessoas que namorei por anos seguidos. Pelo contrário, sempre corria como uma louca para fazer tudo o que eu queria, porque sentia muito fortemente que o outro ia me "atrapalhar", ia roubar meu tempo. E ele, eu esperava. E continuo esperando. Surpreendo-me lhe telefonando perguntando se ele virá do trabalho direto para casa. Por pura vontade que ele diga que sim.

    E o que isso tem a ver com os sacos de lixo? É que mais uma vez eu me surpreendi, diante de uma pilha de saco de lixo (porque ele simplesmente sempre "esquece" que deve levar o lixo), pensando de modo diferente. No meio da minha irritação, eu pensei: "Ué, por que estou irritada, se ele nunca me disse que levaria os lixos? Se fui eu quem lhe impus esta tarefa?". Eu me vi então entre escolher a imagem ideal (a mulher que tem um companheiro que lhe ajuda de forma expontânea) e a imagem real (esta, de quem mora com alguém que é capaz de sair altas horas da noite para comprar algo que você quer, mas que é incapaz de ajudar em qualquer serviço de casa, sem que haja antes negociação). Escolhi então a imagem real e fiquei em paz. Senti muito fortemente que quero esta família, quero este homem, mesmo que a imagem vendida pelos filmes hollywoodianos e europeus não seja possível por aqui.

    E comecei a pensar que isso é amor. É simplesmente amor. E que não quero perder isso por nada. Nem que eu tenha que levar os lixos (embora eu vá continuar tentando que ele os leve!).
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    terça-feira, 24 de novembro de 2009

    O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli


    Lourenço Mutarelli tem arrebanhado prêmios literários por aí [Jabuti, BrasilTelecom e tal e tal]. É um querido dos cineastas. É um quadrinista super talentoso. É um escritor que "acontece". E parece ser super gente boa - e assim meio louco. É o que acho quando leio seu blog, que já teve outro endereço e que talvez nem vá para frente. Com esse currículo quem não tem vontade de ler algum dos seus livros? Eu comecei com O cheiro do ralo. Ok. Foi uma escolha óbvia, própria de quem gosta de cinema. Mas a razão é boa: Marçal Aquino, o escritor, esteve por estas paragens rondonienses. E tanto falou, tanto disse, sobre este livro/filme, que eu acabei comprando-o e lendo-o. Adianto: é uma delícia. Não é uma obra-prima com linguagem refinada. É uma obra com a linguagem descolada do nosso tempo. Leva-se um susto logo ao folhear. Visualmente, parece poesia. Cada frase em uma linha em boa parte do livro. Frases curtas de uma mente obsessiva, como é a do narrador protagonista, que, no filme, tem o rosto do Selton Mello, mas no livro é a cara do cara do comercial da Bombril. Simples assim.



    Mutarelli tem coragem. Escreve um livro em que quase nada de diferente acontece. Dias após dias - fedorentos. Ele, o narrador, não tem caráter algum. Poucas coisas, até a uma certa altura, tiram-no do sério: o cheiro do ralo, a bunda que ele quer comprar, a noiva que ele dispensa quando os convites já estão na gráfica. Ele é um comprador. E as pessoas que passam por ali para lhe vender bugigangas - e sentem o cheiro do ralo - no fundo sabem que ele "chuta baixo" o valor. Ele compra, as pessoas estão à venda. Tem uma crueldade engraçada neste princípio torto. O narrador é torpe, mas é também engraçado. No fim, torcemos por ele. Mas aí já é tarde. É a solidão, a loucura, o desamparo, o azar dos malditos o que sobra. E o ralo, e não o ser.


    Mutarelli faz parte daquele tipo de escritor que não está nem aí para as convenções literárias. Geração Beat anos 2000. Escreve com a linguagem das HQs, das ruas, do teatro jovem. Não é todo dia que tenho vontade de ler esse tipo de texto, mas que é uma delícia, ah isto é. Lembra minha primeira leitura - fascinada - de Feliz ano velho, do Marcelo Paiva. E tambem tem muito a ver com meu lado que gosta da Clarah Averbuck. Espero que meu filho leia esta gente toda. Eu já disse de inúmeras formas: gosto de gente esquisita. Ler Mutarelli é como ver um filme com um enorme saco de pipoca e uma coca-cola ao lado. Para o bem e para o mal, é esta a minha imagem.
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    os desenhos são dele.
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    A literatura segundo Silviano

    A literatura é sempre parte do corpo de quem escreve. Dos seus sentimentos, das suas idéias, dos seus sofrimentos e alegrias. É tudo aquilo que nos constitui, e que a gente julga que possa servir de matéria-prima para se fazer algo que possa transcender a questão meramente autobiográfica.

    Silviano Santiago.

    Dias


    o filho dorme na rede branca. presente da tia.
    o calor é aos poucos substituído por um vento de chuva.
    a cortina balança.
    eu terminei ainda há pouco um livro de Silviano Santiago, O falso mentiroso.
    talvez a chuva venha.
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    quarta-feira, 18 de novembro de 2009

    Os diários de Susan Sontag

    Em que eu acredito?

    Na vida privada

    Em mostrar cultura

    Em música, Shakespeare, prédios antigos

    Os diários são os blogs de antigamente. Mas eu que tenho pilhas de diários, no mesmo instante em que escrevo essa frase, discordo dela. Porque por mais que digam que quem escreve diário espera ser lido, não é bem assim. A possibilidade de não sê-lo faz com que escrevamos coisas que jamais escreveríamos em um blog - escancarado na sua essência. Duvido que Kafka, nos seus diários, sangraria daquele modo se fosse em um blog. Ele sangra na sua literatura, mas tranvestido de "ele". Ficção. A primeira pessoa do singular, para quem tem algum bom senso, é poderosa. Obriga-nos a selecionar.

    Pensava nestas coisas lendo o primeiro volume dos Diários, de Susan Sontag. Não leio muito este gênero, mas Sontag é uma figura que dá vontade de saber mais. Amou o que eu amo - Roland Barthes. Uma norte-americana fascinada pela Europa. E que registrou seus pensamentos em mais de 100 cadernos durante toda a vida. Este primeiro volume compreende os anos de 1947-1963. Sontag é muito jovem, são seus anos de formação. Em todos os sentidos. Os diários são antipáticos. E o que há de mais interessante é perceber como ela tinha medo de ser lida: enquanto esteve casada, numa relação heterossexual, há uma impessoalidade que beira à obsessão. Depois, ela se solta, é a queda livre sem rede de proteção. Assume todas as dores e as delícias de suas relações homossexuais. E isto acontece justamente quando vai para Paris. Fica a impressão de que lá todas as experiências são possíveis.

    Os diários dão a medida exata da sua obsessão pelo saber. Listas e listas de livros a comprar, de filmes vistos e a ver. E muita música, sobretudo clássica. E há também muitas citações de outros autores. E aquelas bizarrices que nos fez refletir - eu e Bozoca - que diário publicado post-mortem deixa sempre a dúvida: deveriam ter sido publicados quando a autora não o fez em vida? A bizarrice mais recorrente: ela não gostava de tomar banho. Escreve inúmeras vezes sobre isto. Martiriza-se por que não gosta. Fica feliz quando sente que está progredindo. Vejam. Uma intelectual respeitada, admirada, "e é capaz de a partir de agora ser lembrada por causa disso". Tudo se resume, assim, à imagem. É a imagem que é flechada, condenada, nos diários que supostamente não serão lidos.

    Agora, é esperar pelos outros dois volumes que sairão. Porque esta é uma característica deste gênero: ao mesmo tempo que causa em mim um fastio, causa também um fascínio.

    SONTAG, Susan. Diários - 1947-1963. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

    Do diário de Susan Sontag

    31/12/57

    Sobre fazer um diário.

    É superficial entender um diário apenas como um receptáculo dos pensamentos privados, secretos, de alguém - como um confidente que é surdo, mudo e analfabeto. No diário eu não apenas exprimo a mim mesma de modo mais aberto do que poderia fazer com qualquer pessoa; eu me crio.

    O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Ele me representa como emocional e espiritualmente independente. Portanto (infelizmente) não apenas registra minha vida real, diária, mas sim - em muitos casos - oferece uma alternativa para ela.

    Há muitas vezes uma contradição entre o sentido de nossas ações em relação a uma pessoa e o que dissemos que sentimos em relação a essa pessoa num diário. Mas isso não significa que aquilo que fazemos é superficial e só aquilo que confessamos para nós mesmos é profundo. Confissões, refiro-me a confissões sinceras, é claro, podem ser mais superficiais do que as ações.
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    sexta-feira, 13 de novembro de 2009

    Rapidinhas

    Mundo louco. Uniban. Apagão. Madonna no Rio. Basta uma passeadinha pela net para sacar que realmente não vale a pena ficar a par.

    Tenho gostado mais de ver filmes antigos do que filmes de agora. Je suis un grand menteur, sobre Fellini, vale mais a pena do que muitos filmes que saíram do forno agora. Do que muita conversa jogada fora. Ouvir gente sabida é outra coisa. E Hiroshima mon amour, então, é até covardia comparar. Filme que me deixa com dor nas tripas. E meio melancólica: não é um filme sobre uma história de amor. É um filme sobre o "horror do esquecimento". Sei bem o que é isto. Eu sofro porque sei que vou esquecer. Cena: manhã fria em um estúdio de Paris. Um choro sentido, longo e, pensando bem, nada elegante. E eu digo que choro porque vou esquecer, porque é só naquele momento que sinto o que estou sentindo.

    A revolução dos bichos, de George Orwell. Sempre a culpa por não ter feito aquelas leituras óbvias - meio obrigatórias para qualquer leitor que se pre... Dificuldade de gostar do discurso. Prefiro a fábula: os porcos andando sobre duas pernas mandando nos cavalos, nas galinhas, é de morrer de rir. Troco a sisudez da "mensagem" pela hilariedade da imagem. Deve ter algum filme baseado no livro. Vou procurar.

    Horror à intolerância. Diante de alguns fatos, fiquei pensando que falta humor no mundo. Em mim, inclusive. Talvez com a diferença que eu fico alerta. Mas não sei se ficar alerta evita a minha intolerância (talvez intolerância com quem é intolerante!) ou só me deixa mais tensa. Só sei que não tenho fobias tão grandes com os seres esquisitos. Gosto das esquisitices. Gosto dos seres esquisitos que pensam. Ou que são engraçados. Só não gosto da pose. Horror à pose também.

    Maria Gadú canta pra caralho. E tem um jeito de quem não está nem aí - que adoro. Vale a pena todo o CD: é delicado - uma "bela flor". Gostei também do novo CD da Céu - mas gosto mais do primeiro. Legal isto de ela ter "dado um tempo", e ter colocado o nome do CD de "Vagarosa" - e tudo é meio lento mesmo, com aquela ginga de malandro - samba e reggae... E na faixa "Vira lata", tem meu amado Luiz Melodia. O iê iê iê de Arnaldo Antunes é coisa de gênio. Ui! Da minha parte, continuo com aquela estranheza de sentir que Arnaldo quer cantar certinho, bonitinho. Sinto falta do grito, já disse. Mas gosto destes trabalhos conceituais. É preciso ouvir o CD todo para compreender a proposta. Dá para voltar no tempo e curtir a atmosfera do iê iê iê.

    Sim. Vida. E meu filho aqui ao meu lado. E o amor Tatu ao meu lado.
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    Presentão


    Neste ano, não teve festinha de niver. Talvez pelo dinheiro parco. Talvez, ostra. Mas Tatu me deu um presente tão bacana, tão "desejo de nós dois", que eu quero registrar aqui, embora já faça tempão. Não que eu entenda de vinho, mas gosto muito. Gostamos muito. Agora é so degustar na temperatura certa...
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    Duro é parar os vinhos lá dentro!

    terça-feira, 3 de novembro de 2009

    Sobre Kafka

    Nas palavrinhas:

    Olá! Quero dizer que amo seu blog mas nunca tive o ímpeto de me manifestar. Sou uma amante das letras, e dos livras, claro. Estudo biblioteconomia (!) e queria tirar uma dúvida com você. Conheci o Kafka aqui (vergonha, rs) e fui ansiosamente providenciar um livro dele. Como não conhecia nunhum, fiquei com o Metamorfose, mas como não sou tão veterana em leitura como você, não estou entendendo muito bem o livro (vergonha 2, rs). ... Não sei se você já leu esse livro, mas, em caso afirmativo, poderia me ajudar a pegar a linha de pensamento, ou a crítica, sei lá, que está escondida nesse cotidiano narrado na obra. .
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    Natália Branco, quem é você? além de ser palavras, tem um corpo, uma história? E como chegou aqui? E por que nunca tinha se manifestado? Pois vejam o que é um blog, como são grandes as dimensões das suas portas. O blog é o lugar da hospitalidade por excelência; entrar e sair pode ser a qualquer hora e sem deixar rastros. Isso é tão bonito e ao mesmo tempo tão assustador para quem escreve.

    Natália me pergunta sobre Kafka como se eu pudesse responder as suas questões... Sinto uma espécie de pudor que me paralisa, como sempre acontece quando pressupõem, de antemão, que eu sei falar sobre algo. Sei que essa sensação não condiz com a minha condição de professora [e quem disse que precisamos ser coerentes em tudo?] ...

    Natália, você deve saber que este blog não faz crítica, que não passa de uma colcha de retalhos sobre o que leio, vejo e vivo. Não há nenhuma análise aqui, apenas devaneios. Por isso, não sei responder ao que me pergunta. Tudo que posso dizer sobre Kafka é que ele me atinge enormemente, embora tambem não o compreenda. Kafka é um escritor que nos dá machadadas sem que saibamos a razão. Eu fui em Praga buscando encontrá-lo. Isto é, buscando, através do seu mundo, das ruas onde andava, do frio que passava, das cores que via, os possíveis traços da sua literatura. E Praga é uma cidade avermelhada, nem mesmo é cinza como Paris, embora seja muito fria. Talvez Kafka seja assim: avermelhado e frio. Em A metamorfose sinto isto: por um lado, toda a frieza, por outro, o vermelho, a saída, a esperança. Não é assim? À medida que ocorre o aniquilamento de Gregor Samsa, ocorre a reestruturação da sua família. Talvez este seja, de fato, o grande absurdo na obra kafkiana: o lado terrivelmente humano.

    O que ainda posso lhe dizer, de forma canhestra, é que os livros de Kafka não se deixam compreender como certa literatura se deixa - mas isto você já sabe. Ele é absolutamente real nas situações mais inusitadas. E isto causa espanto: mostrar aos nossos olhos descrentes o imponderável, o inimaginável. Mas se fosse só isto, seria pouco. Este inusitado é formado por uma fina camada grotesca, abjeta., que nos choca e ao mesmo tempo nos seduz. Ninguém fica feliz lendo Kafka - e saber disso me ajuda a constituir meu gosto literário. Explico: gosto de estar feliz. Para mim, é quase um imperativo. E por outro lado, sinto em mim a densidade do mundo, como se exisitisse algo pesado contra o qual seja sempre preciso lutar. Pois travo esta luta com autores como Kafka, Genet, Beckett, Thomas Bernhard. Não que eles me deem alguma lucidez. É o contrário. Nas interrogações abismais existentes nos textos destes autores, encontro meu tênue equilíbrio, o único possível no espaço da loucura. Veja então: Kafka é o remédio e o veneno; exatamente o que eu penso que seja a literatura.

    Um abraço, Natália. E espero que você volte, mesmo que eu não tenha respondido as suas perguntas. As fotos foram tiradas em Praga. Constatei que ele está em toda parte por lá, como um fantasma. Tomara que você goste.


    domingo, 1 de novembro de 2009

    Loki, de Arnaldo Baptista

    Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?


    Loki
    é um cd excepcional. Lançado em 1974, no ano em que nasci, continua tão belo, tão atual, tão visceral, como se tivesse sido lançado ontem. Minto. É dificil encontrar um cd hoje em dia que tenha tanta verdade - sabe quando quase se vê as veias latejando, aquela dor latente, demorada? é assim o cd de Arnaldo Baptista. Eu nascia enquanto ele ia cada vez mais longe na sua caminhada rumo à morte. Salvo por um anjo depois de alçar voo, virou menino outra vez. É o que se pode ver no documentário que carrega o mesmo nome deste cd. O documentário é lindo, mas não é visceral como o cd. Falta a dor que está exposta em cada música. Como ele é um sobrevivente, retiraram a tristeza do documentário. Mas a tristeza está no cd de 1974 e está também no último que ele lançou - Let in bed. Mesmo menino, Arnaldo está marcado. Viver a vida como se ela fosse arte tem seu preço. Ou não é nada disso. Talvez tudo seja tão difícil porque o que ele experimentou foi "o barato de ser ser humano". E como é dificil "ser ser humano!" Não há fórmulas. Às vezes, pensamos que estamos no rumo, que está tudo certo, aí vem o vento e leva tudo. "Será que é difícil esquecer os males?". Ou a gente se brutaliza! É tão perturbador ouvir um cd desse tipo. Parece que doi. E ao mesmo tempo dá uma felicidade, uma alegria por estar viva e ter tido a oportunidade de ouvir uma belezura desta. Ah, viver é tão perturbador. Tem destes encontros que nos dão tudo e nos tiram tudo. Arnaldo viveu isto de modo extremo. E ele sabia disto: "O que é isso, meu amor?/ Será que eu vou morrer de dor?" Sim, morreu. Mas o anjo estava bem ali para fazê-lo menino outra vez. Ainda bem.
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    * postagem para o Tatupai, que amou este cd desde a primeira audição e que a cada vez fala dele com os olhos brilhando.