quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

mistérios de persépolis

tem seus mistérios este recolhimento na época do rei momo. e sua beleza. já fui uma boa foliã. daquelas de pular cinco noites e não saber exatamente onde acordava; isto quando dormia. meu pai achou que eu estava em alguns destes hiatos do tempo. ele também é um bom folião. ou era. lembrei-lhe que o tempo passa. e que até a sua caçula era agora uma senhora. rimos juntos do meu ar fatalista. ele e seus desejos de peter pan.

ano passado estava em recife com minha amiga marie e nathalie. havia o aconchego da casa da cy e do alberto. e aquele carnaval inclassificável de tão poderoso. está tudo aqui dentro de mim. meu amigo francês me escreve perguntando se não vou. ele vai. seu Brasil é com "s", segundo me diz. mas sente que era mais fácil encontrar milena em paris. digo-lhe que moro na mata e estou envolta em mistério. digo-lhe também que em recife está o melhor carnaval do Brasil - com s. carnaval para o povo, sem abadás, sem cordão de isolamento. e que não tenha medo do povo. vá de chinelo verde, camiseta regata e sua alma bonita. e que não esqueça de ir em Calhetas e Porto de Galinhas. meus olhos já pousaram por lá. e arrebentaram de tanta beleza. sim, meus zóinhos. os mesmos que contemplavam o telhado pela frestra da cortina de tecido cru. já com as malas e os mapas, ele me diz que enche os olhos de emoção quando lhe conto.

"e sabe de persépolis? agora li em português." Persépolis é a HQqueviroufilme da iraniana Marjane Satrapi. apaixonei-me desde que vi o trailer nos últimos dias que estava em Paris. o filme sairia depois. e esta HQ é ainda hoje um exemplo de como minha dispersão pode ser inoportuna - últimos dias, ainda muito a pesquisar na biblioteca do pompidou. mas chego enfeitiçada pelo trailer e o procuro na seção de quadrinhos. e fico lá umas boas três horas lendo persépolis enquanto os livros de derrida definham em cima da mesa. depois me chicoteio de culpa. só mais de um ano depois vi o filme em sampa. e mais um ano para lê-lo em português. agora - envolta em alegria.

eu acho que Persépolis conquistou o mundo porque tem aquilo que toda boa autobiografia tem: "parece" ser tudo verdade, mas uma verdade filtrada pelo tempo. então pela "verdade" trespassam o humor, a ironia, a reflexão, a graça - "graça" é uma palavra muito usada pelos escritores românticos alemães, que também ando lendo.

pois vivo assim este carnaval. ainda tem os filmes. e tem ele, calmo e ansioso na medida certa. e tem as palavras dos amigos. mari e mari, dê, marie, fabiola, cy, lu, binho; para eles, eu conto. e recebo de volta palavras tão bonitas. e o que me vem? me vem muita beleza.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

fragmentos para ele

"Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus - enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
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Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer, eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom.
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Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah, você não come áçucar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas".
(Fragmentos da primeira crônica de Pequenas epifanias,
de Caio Fernando Abreu).
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Depois Caio continua. Avisa que nada demais aconteceu. Cansaço ou medo de tentar. Dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Mas eu estou em outra aprendizagem. Em plena aprendizagem. Justamente a de pedir. A de dizer. Talvez por isso esteja sendo tão bonito. E tão diferente. Intempestivamente bonito. E diferente.
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Pequenas epifanias

Só que os escritores são seres muito cruéis,
estão sempre matando a vida à procura de histórias.
Caio.
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Sono de pesar o olho. E não durmo. Deito ao lado da sobrinha. Leio meu livro. E nada. Lembro então de momentos doces como algodão doce da esquina da infância e venho até ao computador antes que eles me fujam. Borboletas presas pelas asas por alguns segundos. Tantas. Dias absolutamente delicados. Apesar das obrigações em volta, tudo suspenso pela delicadeza. Assim.
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No ônibus, olhando o escuro da lua pela janela, tento lembrar dos filmes a que assisti e não anotei. Me vem inteira A história de Adèle H, de François Truffaut. E eu fico pensando naquele amor que de tudo toma conta até à loucura. E de novo me vem à mente que é a idéia de amor que amamos primeiro. A tal ponto que um dia o objeto de amor passa por nós e não mais reconhecemos - mudos e alheios para algo além da própria dor. É tão bonito isto. Sempre achei Truffaut muito mais gênio do que Godard. Truffaut aparentemente tão simples, conta histórias que parecem desprentensiosas, mas, de repente, vendo o mundo passar lá fora, ou aqui dentro, ela cai como um raio sobre nós, deixando um rastro de beleza.
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E também me vem aos lábios um sorriso ao lembrar de Gelsomina, papel de Giulietta Masina, em La Strada. Lembro de Almodóvar insinuando que, quando visitou a ela e a Felini, percebeu que havia ali uma situação de dominação - ela pequenina e tímida diante do gênio. Ele, severo e pouco sensível. Ora, ela mesma um gênio, será que não sabia? Uma palhacinha triste. Corpo e alma entregues ao ensejo de nos fazer rir e chorar.
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Então, chego aqui na Maneca e tem uma caixa de livros me esperando. Folheio apressadamente vários. Aqueles pesados de tão obrigatórios. Aí leio o primeiro parágrafo da primeira crônica de Pequenas epifanias, de Caio Fernando Abreu. E não o largo mais. Queria que ele me protegesse da minha própria dureza. Do que disse e ouvi de feio nestes dias. Ah, jesuscristinho, estou convicta de que destes dias levarei apenas a delicadeza. Que nenhuma maldade seja suficientemente mais memorável do que estas pequenas epifanias. Não me deixe repetir estas maldades que brotam das nossas bocas como a flor de Pirandello só porque nos pegam distraídas e porque achamos que devemos nos sentir parte das grandes boiadas. Caio doi tanto que me desfalece. Eu fico entre dizer que ele é um grande escritor ou um escritor das infinitas miudezas, o que dá no mesmo. Tão humano que as folhas parecem sangrar. Aí, chego às páginas em que ele também lembra de Truffaut e Gelsomina. E me vem um arrepio - e fico quase tão esotérica quanto Caio, desconfiando destas confluências, destes encontros que parecem acasos, mas bem poderiam ser chamados de milagres, por que não?
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domingo, 8 de fevereiro de 2009

leitura e escrita

Foto: Untitled 129, de Cindy Sherman, 1983.

não importa quantas vezes eu o leia. ou releia. a cada vez é um espanto. choro, às vezes convulsivamente, quando o leio. não porque ele me faça chorar, mas porque sofro com tanto sofrimento contido, com tanta dor represada. choro pelo homem e pelo escritor - que deve ter sofrido para realizar a arquitetura das suas palavras. pois a cada vez desejou o silêncio impossível, o dizer nunca mais. graciliano ramos é assim. uma ferida aberta e inclassificável na nossa literatura. o mais sofrido. o mais inteiro. e o mais em pedaços. não existe nada mais dolorido, sinceramente doído, do que os mil não-ditos que antecedem o suicídio de Madalena em S. Bernardo.
eu vivo os dias. mas não quero falar deles por enquanto. vivencio-os com uma delicadeza já suspeitada. e também com muito temor. escrevo. não aqui, no blog. que é sempre uma brincadeira que vem da infância. mas escrevo um artigo e cada palavra é também doída, mas sem a transcendência de graciliano. é trabalho chifrim para pôr no currículo lattes. desimportância obrigatória. fujo o tempo inteiro, mas me encho de irritação e ansiedade quando tenho que sair da frente do computador. hoje encontrei a resposta do perrengue. está lá escrito na página 29 de um livro sobre graciliano, o que significa que foi adquirido há cinco anos. a frase: "Quando eu tocar Graciliano com minha escrita, terei feito algo importante". pois é o que agora eu tento aos 34 anos, remodelando um pequeno texto antigo. mas me dou conta de que não sou capaz de escrever algo importante sobre graciliano. ninguém ainda foi. nem antonio candido, o mestre, que diz coisas muito certinhas, bem feitinhas, no livro ficção e confissão, mas não alcança a dor de graciliano. o tempo todo sou atravessada por outros textos. e descubro que odeio a escrita de artigo. parece-me letra morta sem nenhuma paixão. análise análise análise. a escrita teórica no Brasil é de uma carolice sem fim. não há um único escritor de peso que "viaje na maionese" para servir de inspiração. cientistas socialistas estruturalistas imitadores diluidores. eu não fico atrás. por isso, fico com vontade de escrever à la alberto lins caldas, que radicaliza até me dá medo. eu concordo até a medula, mas temo o plágio. então, continuo minha escrita de neo cientista que escreve em um blog que não pode ser colocado no currículo. quem escreve em blog não é escritor nem crítico. não é nada. é só um serzinho viscoso e narcisista que escreve para o umbigo e para crer que faz algo na vida que merece ser registrado. mas os dias. os dias chovem. lá fora. aqui dentro, um sol enorme. eu olho pelo vidro da varanda. é meu xodó. como tudo que é bonito, me enternece. é uma bonita imagem. nada a ver com a imagem da cidade lá fora. eu vejo daqui apenas a rede vermelha, o cinzeiro dele eternamente confinado ao ar livre da varanda e um pedaço do céu. não é só do céu que eu gosto. gosto do conjunto. gosto de pensar que moro à beira da estrada, embora daqui eu não possa vê-la. só posso ouvir o barulho dos carros que não param de ir e vir. também gosto de pensar que qualquer dia eu irei. e não irei sozinha.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

vide depoimentos

E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas,
é uma ofensa à humanidade.

Clarice Lispector, em A descoberta do mundo, p. 37.

Tocando em sentimentos que são meus, percebo que, diferentemente, ninguém fica indiferente. As sensibilidades que afloraram nos depoimentos, creio, têm a ver com a estrutura profunda de desigualdade no Brasil. Não digo do Brasil, mas no Brasil. Isto que Rê chamou de "culpa burguesa" só existe por causa desta desigualdade. Sentimo-nos repetindo com as pessoas que trabalham nas nossas casas um sistema injusto de mais-valia, cuja mão-de-obra vale muito pouco. No fundo, a questão é esta: pagamos uma miséria; mesmo aqueles que pagam o salário mínimo, porque qualquer um que o faz está na condição de saber que viver com um salário mínimo é de uma injustiça sem tamanho.

Rubiane tem razão: que mantenhamos ao menos esta sensibilidade, para não coisificarmos as relações, embora eu saiba do risco de esta virar hipocrisia. Em países mais desenvolvidos, embora seja uma leva de "sem papéis" que fazem estes serviços, a relação é mais igualitária. Na classe média, não existe a figura da "empregada doméstica", uma vez que o salário mínimo é muito alto. Trabalhando para agências, e não diretamente para as pessoas, as diaristas conhecem muito bem seus direitos. Na Casa do Brasil, em Paris, onde eu morei por um ano, eu limpava a parte de cima do guarda-roupa porque existe uma lei que diz que as diaristas só devem limpar o que o seu braço alcança. E se eu não retirasse os lençois, elas não os trocavam, porque tinham a obrigação de deixar os lençois limpos, só se os sujos tivessem retirados da cama. E nada que fosse além dos móveis "catalogados" eram afastados ou retirados do chão, então se eu não colocasse sandálias, livros, bolsas, roupas, em cima da mesa, no dia da faxina, a parte do quarto em que estes objetos se encontravam não era varrida. Tudo no papel, legalizado e cumprido. Aqui, se uma família tem uma empregada, na grande maioria, os filhos não aprendem nem a colocar a roupa no cesto de roupa suja.

Algo de que eu gostava muito (e a maioria dos brasileiros detesta) é a cultura de não-servilidade que existe por lá. Ninguém para colocar as compras nos saquinhos, levar até ao carro, etc.; também não existe a figura dos frentistas. Nem os vendedores são bajuladores (e sim, técnicos, que sabem todas as informações precisas de um produto e nos dizem as vantagens e desvantagens de comprá-lo, mesmo que seja mais barato que um outro similar.) Os brasileiros, mal-acostumados, quando não encontram um bando de serviçais, chamam isto de falta de educação! Eu achava uma maravilha e ia percebendo que estas profissões existem apenas por que se pode pagar uma miséria para quem trabalha nelas. Duvido que um dono de supermercado no Brasil pagasse a empacotadores, se tivesse que pagar um salário mínimo de 1200 euros. Então, até a cultura da servilidade vem desta desigualdade social que corrompe as relações. E não pensem que sou ingênua a ponto de pensar que outras formas de desigualdade não existem por lá. Porém, ao menos, não existem estas, tão à flor da pele. Ninguém pense que pode tratar mal um vendedor, um garçom, um fiscal de ônibus e eles vão baixar a cabeça com medo de serem despedidos. Pelo contrário, eles vão nos dar uns gritos e não se importarem nadinha com nossos gritos histéricos, nossa falta de educação e nossa vontade de sermos servidos - disfarçados malemale por uma simpatia forjada tão própria do brasileiro quando está no estrangeiro, passando a considerar-se o "melhor povo" do mundo.

No Brasil, uma empregada doméstica, que recebe o salário justo, ganha de um a dois salários minimos. Eu, uma profesora universitária federal, ganho cerca de doze salários mínimos e estou naquela faixa de "classe média baixa baixa". Um professor universitário da França ganha entre um a três salários mínimos. E não é classe média baixa, baixa. É intelectual respeitado - que faz sua comida, lava seus pratos e leva seu carrinho ao supermercado para não entupir o mundo com sacolas plásticas. Então, como não ser sensível a estas diferenças? No entanto, eu quero crer como a Mari: nada é estanque. Não existe oportunidade para todos (esta é talvez a mais maléfica das falácias!), mas existem as brechas - um torneiro mecânico vira presidente, uma empregada doméstica vira doutora em lingüística, uma filha de carroceiro se apaixona pelas Letras e também vira doutora, embora de um troço chamado literatura cada vez mais devalorizado, e passa a ganhar em um mês o que seu pai aposentado leva doze meses para ganhar. Isto talvez seja o que ainda nos faz acreditar e nos indignar. É talvez o que explique os depoimentos - compreensivos e conflitantes.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Da ordem da casa

DA ORDEM, DO RITUAL "Quando vou começar um livro, tenho surto de arrumação na casa. Me dá uma fobia de jogar papel fora; de chegar no escritório, arrumar tudo, tirar pó. Deixar tudo organizado, limpinho. Aí, caneta na mão, fico olhando aquela página em branco."
Cristovão Tezza

Agora, tenho uma diarista. O que era para ser alívio, a cada quarta-feira é motivo de angústia. De outros modos, já disse aqui que a casa me pressiona. me impressiona. Eu tenho mania de limpeza, resultado de uma educação rígida em que uma casa mal varrida implicava em varrê-la outra vez e uns pratos não lavados resultavam em uma surra no meio da noite. Ainda tem o agravante de eu ser alérgica, inclusive a poeiras, nestas cidades empoeiradas. O resultado foi a tal mania de limpeza. Mas eu estou enjoada. Continuo com a mania mas não quero mais perder tanto tempo com uma pressão que se repete, impiedosamente, a cada dia. Desejo, talvez, perder o medo das surras - agora para sempre imaginárias. Ou, parando de fazer psicanálise de botequim, desejo simplesmente ler meus livros em paz. Daí, a diarista. Mas se a própria Clarice Lispector se sentia intimidada com as empregadas, imagina eu, vinda de uma gente trabalhadora, explorada, sempre a pedir desculpas pela existência, como são os nordestinos, ou ao menos como são os cearenses da minha linhagem, que, na maioria dos casos, nunca foram empregadores, e sim empregados, embora jamais "empregados domésticos", por ordem da santa senhora das surras noturnas, que sempre repetia que filha dela não era para limpar chão dos outros - já havia chão demais na nossa casa, que ela nunca cansou de alongar seus domínios.

No primeiro dia que a diarista veio, quase pedi desculpas por haver tanta roupa por passar. Se não estou enganada, balbuciei algo como "Da proxima vez, não haverá tanta roupa, é porque acumulou. Eu estive muito ocupada...". No segundo dia, ficamos umas quatro horas de bunda para cima limpando uma cerâmica que eu cometi a barbaridade de colocar cera quando não devia, o que resultou em uma cor que, devendo ser branca, havia se transformado num amarelidão medonho. Eu disse "ficamos". Para mim, pareceu imoral continuar dormindo enquanto alguém ficaria de bunda pra cima sozinha consertando uma barberagem minha. Ela não se fez de rogada e tascou uma frase como: "Eh, quando fazemos uma bobagem, temos que pagar por isso, sofrer por isso". Mordi o lábio para perguntar se ela era protestante ou o mordi para não cair na tentação de insinuar meu ateísmo latente, ou, no melhor dos casos, minha negação absoluta a qualquer idéia de castigo divino. A intimidação se avizinha sempre da timidez. E, naquele momento, era eu a empregada a engolir um desaforo que gostaria de ter dito. Jesuscritinho me perdoe qualquer ofensa, é o que devo ter pensado.

No entanto, eu continuo com fé que, com a alvura da cerâmica devidamente recomposta, logo conseguirei dormir o sono dos justos enquanto outra faz o serviço de casa que eu não quero mais fazer; afinal, parece-me certo procurar alternativas para não gastar tanto tempo com arrumação de casa, sem que isso signifique passar a viver na sujeira, algo que eu tenho certeza de estar além das minhas forças. Uma casa limpa, para mim, é sinônimo de sossego, único modo de poder ler, estudar, escrever. Parece doideira? Mas quem não tem suas doideiras escondidas na manga? Pensar assim me consola. Ao menos, até a próxima semana, quando espero ter coragem de pedir a ela que limpe os vidros da porta e das janelas, enquanto eu folhearei despreocupada algum livro. Por falar em livros, hoje respirei aliviada quando ela disse que a próxima quarta-feira seria para limpá-los. E acrescentou que eu não me preocupasse porque ela tinha as "manhas": limpava prateleira por prateleira, recolocando-os como estavam. Creio que não me mexi. Era sério o risco de me ajoelhar aos seus pés.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Dias de cronópio

"Neste país onde as coisas se fazem por obrigação ou por fanfarronada, gostamos das ocupações livres, das tarefas sem importância, dos simulacros que de nada adiantam." Julio Cortázar.
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semana toda entre livros de fotografia. cortázar, em um dos seus livros-colagem, cita uma frase de seu amigo andy warhol. esta: "eu gosto de gostar de coisas". se eu tivesse vivido no tempo de fazer brasões, eu mandaria fazer um e daria um jeito de colocar esta frase para me representar. eu gosto tanto de gostar de coisas que às vezes eu mesma me irrito. mas na maior parte do tempo eu me deleito. tenho um grave defeito de gostar de brincar de gangorra. basta a
cosacnaify anunciar uma daquelas suas promoções-relâmpagos de 50% de desconto que eu já me resigno e sei que vou fazer peraltices. foi assim que vários livros de fotografia chegaram aqui; do mesmo modo, há uns dois meses chegaram vários de cinema e de artes. e o pior é que eles chegam e eu esqueço todos os meus deveres de cidadã com deveres. esqueço e me perco neles. "cuba por korda", "abbas kiarostami", "o lugar do escritor", as fotos portáteis de antonio saggese e cris bierrenbach, "antropologia da face gloriosa", "si por cuba", não são livros que se contentam de irem para a estante e virarem objetos mortos. eles pedem antes o amor tátil. o folhear atento e emocionado, o dormir nos seus braços na tarde quente. e acordar com o rosto colado em um deles sem saber se já é tarde. nunca é tarde. é o que eu penso, ajudado por eles. nunca é tarde para gostar de coisas. para gostar da vida. para colocar nela a delicadeza e a emoção. eu tenho muito medo, nunca disse que não tinha. mas antes dizia menos. a imagem da mulher independente. agora, eu expresso tudo mais facilmente, ainda que cheia de silêncios. se me dizem que sabem que eu estou nesta cidade a contragosto, eu não desminto. mas duvido que tenha alguém mais consciente de minhas escolhas do que eu mesma. escolhas ou acasos, eu abraço tudo. e vivo. e vivo bem. não me faltam brechas. e sempre me surgem seres lindos para me ajudarem a construir estas brechas. sim, aqui é só um instante. que dure muito, que dure pouco, é só um instante, um instantâneo. como as fotografias, mas sendo minha vida. eu não quero dor, mas agora que já perdi o medo, se um dia vier outra vez, vai doer outra vez e passar outra vez. é a vida. e o que fazemos dela e o que ela faz sozinha - como os raios que nos partem e quebram nossos sorrisos ao meio.
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e de tanto me perder no meio destes livros de fotografia - que são lindos, são delicados, são repletos de histórias e de vidas e de imagens - eu lembro que eu mesma fotografo, embora não seja uma fotógrafa, não tenha a delicadeza e a presteza de uma grande fotógrafa. porém, no meio da madrugada, enquanto ele, na rede da varanda, morre de rir com "cem anos de solidão" e me pergunta o tempo todo se eu lembro de tal trecho, e eu, amaldiçoando a minha parca memória, digo-lhe que não lembro e que ele pare de me torturar; eu mexo no meu arquivo de fotografias e seleciono estas que estão aí abaixo.
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foram tiradas na minha viagem a Natal, quando meus amigos - minha amiga-comadre de infância, por quem eu sinto um verdadeiro e inesgotável amor - saiu de minha cidade natal para estar comigo nesta cidade Natal cheia de lembranças. eu já contei aqui. faltaram as fotos. sempre esta falta.

Album de fotografias - Natal

















































































terça-feira, 27 de janeiro de 2009

larvas dos dias

"Todo povo quer ver no palco apenas o padrão mediano de sua própria superficialidade; seria preciso, portanto, entretê-lo com heróis, música ou loucos".
Schelegel, em O dialeto dos fragmentos.
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admiração profunda por algumas pessoas. alegria por elas existirem e por fazerem parte da minha vida. algumas palavras que me dizem são verdadeiros tesouros. esta admiração me faz ir avante e, muitas vezes, retroceder. vontade de escutar. como escuto esta senhora-alma-de-menina que vem aqui nas tardes quentes e me hipnotiza com suas histórias. para agradecer, fico com vontade de rezar em silêncio as orações que nunca aprendi. é meu universo particular, a exemplo de marisa monte, a quem assisto ao DVD e choro. um choro que é memória do passado e agradecimento pelo presente. é uma estocada de emoção à cata daquela noite em que andei de bicicleta por paris, depois de chorar por duas horas durante seu show. quando a revi em são paulo também estava frio. mas não houve caminhada solitária pela cidade. as noções de distância e de emoção já devidamente diferenciadas.
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brinco de gangorra com o cartão de crédito nas livrarias eletrônicas - mil e um interesses e obrigações. devido ao ódio ao romantismo indianista desta terra tupiniquim, impor aos alunos o romantismo de todos os mundos. que eles saibam que a literatura vai muito além de um josédealencarzinho obrigatório. mil e uma intenções que sem que eu perceba finalmente me dão um corpo de estudo, e não apenas de leitura. rasbico textos, corrijo outros e salvo e compro uma bibliografia em português, pois é de literatura brasileira que preciso enquanto leio no domingo chuvoso thomas bernhard, este austríaco abismal. em cada linha, a expressão do horror. admiração profunda. um certo oco advindo da estocada no estômago devido a palavras tão fortes. o que é a vida senão este sucessivo movimento de contratempos. ainda thomas bernhard.
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também brinco de gangorra com a música. o canto dos escravos de clementina de jesus, tia doca e geraldo filme me lembram de imediato porque amo a música apesar do meu ouvido tosco. eu queria dizer ao mundo, e que todos ouvissem, que o cão de rômulo fróes, assim como o sou-nós, de marcelo camelo, são caixinhas de preciosidades inigualáveis. deixando as formigas corromperem meu querer de deus, eu vou abrir um desvão e ouvi-los um a um, reiteradamente, com este moço, enquanto nos embebedamos de vinho, e eu falo ou silencio, sonolenta e feliz, e ele fala e silencia, insone e belo.
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domingo, 25 de janeiro de 2009

O cronópio Julio Cortázar e outros cronópios

Estas frases abaixo são do voltume 1 de A volta ao dia em 80 mundos, dois livrinhos geniais de Julio Cortazar, indicação que eu fisguei nos dias maravilhosos que passei na casa da Dêamada, em São José do Rio Preto - aquele tipo de cidade que amo porque amo algumas pessoas que lá habitam. Devido à fisgada, eu li também os dois volumes de Último round, que têm a mesma estrutura. Se estes livros não tivessem sido publicados há mais de 40 anos, com certeza teriam sido, antes, blogs. Suas estruturas anti-estruturas, que aceitam como oferendas todas a sorte de colagens, são pequenas máquinas de invenção, criatividade, humor, ironia, ternura, etc. etc. etc. Cabe muito nestes etc.: poemas, ensaios, contos, notícias, desnotícias, fotografias do Cortazar e de outros, desenhos ... A ideia parece ter sido registrar tudo que lhe interessava, como um grande caldeirão onde se faz uma sopa com todos os restos da geladeira. E quem já leu qualquer outro livro deste escritor deve saber o quanto ele é genial (de fato, este é um adjetivo que se pode abusar ao nos referirmos a ele). Para mim, Todos os fogos, o fogo é um dos melhores livros de conto de toda a literatura. E O jogo da amarelinha é daqueles livros que esticam ao máximo qualquer conceito de literatura. Porém, deixemos de conversa, e vamos às frases, não sem antes confessar de que eu adoraria tê-las inventado e que elas pudessem representar o que, para mim, é este "Nenhum lugar":

"Tudo que vem a seguir participa o máximo possível (nem sempre se pode largar um caranguejo cotidiano de cinqüenta anos) dessa respiração de esponja em que continuamente entram e saem peixes de lembrança, alianças fulminantes de tempos e estados e matérias que a seriedade, uma senhora ouvida em excesso, consideraria inconciliáveis. Eu me divirto pensando neste livro e em alguns de seus previsíveis efeitos na referida senhora, um pouco como o cronópio Man Ray pensava em seu ferro de engomar cheio de pregos e outros estupendos objetos quando afirmou: "De maneira nenhuma eles deviam ser confundidos com as pretensões estéticas ou o virtuosismo plástico que em geral se espera das obras de arte. Naturalmente - acrescentava a corujinha de óculos pensando na tal senhora -, os visitantes da minha exposição ficavam perplexos e não se atreviam a divertir-se, porue uma galeria de pintura é considerada um santuário onde não se brinca com a arte".

Tem mais:

"Já se deve ter notado que aqui chovem citações, e isto não é nada perto do que vem pela frente, ou seja, quase tudo. Nos oitenta mundos da minha volta ao dia há portos, hotéis e camas para os cronópios, e além disso citar é citar-se, como ja disseram e fizeram mais de meia dúzia, com a diferença de que os pedantes citam porque veste bem e os cronópios porque são terrivelmente egoístas e querem monopolizar seus amigos..."

E como falei da Dêamada, vale uma explicação: ela não se conforma de que eu não tenha lido ainda Histórias de cronópios e de famas, porque ela diz que eu sou um cronópio. E me chama de Cronopinha, quando eu lhe digo algo que parece uma travessura, mas eu estou começando a ter certeza de que ela é a verdadeira cronópia; esta moça que não gosta de claridade e que, por causa disso,quando estou lá, vem se arrastando com os olhos fechados e os braços esticados até a "minha" janela para fechá-la. Só depois disto, ela se senta na beira da cama e iniciamos ali nossas conversas infindaveis, para horror da Djoia, que morre de ciúmes e fica latindo a nossa volta.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Persona

Ontem, assisti a Persona, de Bergman.
Creio que não preciso dizer que.
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Há momentos em que basta o espanto.
O de agora é cheio de.
Sinto que vivi até agora para chegar até aqui.
Para me contrapor.
E ao mesmo tempo parecer absolutamente tranquila.
Persona, impossível morrer sem.
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Album de férias

"este grão numa longa espiga de verão". Julio Cortazar.
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Eu tenho uma queda por diários. Resultado de anos de escrita. Parei em 2002, acho, quando eu mesma me espantava com o que escrevia, como se houvesse uma outra Milena, desconhecida para mim e para aqueles com quem eu convivia. Daí a "queda" ser a razão de este blog pender constantemente para as miudezas do dia-a-dia. Porém, como já insinuei, acho diário um bicho perigoso, ainda mais se qualquer um pode ler. Por isso, as entrelinhas.

No entanto, vem-me sempre a vontade de registrar os dias, quando são bonitos. Minha memória não tem zoom. Então, faço deste lugar o meu zoom::: para não esquecer. Não quero esquecer que minha irmã Mácia, com meu sobrinho-afilhado, sairam de Fortaleza para virem à floresta, unicamente porque nos amam. E que meu irmão também saiu de Sampa e veio. E fizemos uma festinha de ano-novo na casa da Maneca, em Porto Velho, que foi uma maravilha. A foto para o ábum de família ficou linda!

E Porto Velho é pertinho da Bolívia. Na maior parte do tempo, não nos damos conta de que moramos em um estado de fronteira. As visitas nos fazem lembrar. Então, fomos em Guayaramerin, que já é a Bolívia, basta atravessar o rio de "voadeira". Lá, não tem o que fazer, além de fazer compras de coisas desnecessárias, a preço baixinho. Foi um dia divertidíssimo, sob o sol escaldante. O nível de "serotonina" deve ter ido às alturas, porque fazer comprinhas de bobagenzinhas (fivelinhas, tigelinhas, bolsinhas, meias, chapéus) não tem preço de tão bom!
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E em Porto, o rio está sempre lá para aqueles momentos de distração, em que afloram a doçura, a delicadeza. E isto não faltou. Mudos de palavras, embaraçados com o que não queremos nomear, mas queremos sentir. Ele foi e voltou e foi outra vez. E suportou três Milenas em uma viagem de 10 horas, sendo que a menos reclamona sou eu. As outras duas - irmãs nas fobias e na tagarelice - têm medo da menor curva! Ui!
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E em Porto tem meus amigos - amigos que amo. Com quem sinto um enorme prazer em estar; mesmo que seja num momento como o de agora, em que sinto uma necessidade quase física de solidão - o tempo para ler meus livros, ouvir meus cds. Porém, ser arrancada desta necessidade para viver uma noite regada a vinhos e muita risada, também não é momento que se possa esquecer.


Eu tenho a firme convicção de que momentos como estes, todos estes, devem ser vividos - que por mais que seja fascinante a solidão cultivada por causa dos livros, ela não deve substituir o contato com as pessoas. Ir para um sítio para que o sobrinho possa pescar - nem que seja levando o livro com o risco de molhar no barco - tem o ar de eternidade.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A definição


Eu tenho uma certa inveja de quem sabe definir; ainda mais se for uma definição exata, em que tudo parece estar no lugar e nada escapulir ou faltar. É claro que só temos inveja do que nós mesmos não sabemos. Eu sou muito ruim em definições, em conceitos. Às vezes, mordo os lábios atrás de algum conceito estudado - e logo esquecido.

Qualquer livro de Octavio Paz, o teórico-poeta por excelência, causaria inveja não apenas em quem tem inveja de criadores de conceitos ou escrevinhadores de definições. Todos os seus livros são bem escritos. E não apenas isto. Em todos os seus livros, pulsa um conhecimento que é já sabedoria.

Não é diferente em Marcel Duchamp ou o castelo da pureza, livrinho que reúne seus dois ensaios sobre este artista. Delicia de ler; delícia de aprender. E abaixo, a tal definição que me deixou boquiaberta. A de ready made:


"Os ready-made são objetos anônimos que o gesto gratuito do artista, pelo único fato de escolhê-los, converte em obra de arte".


Perfeito, não? Ele continua:


"Ao mesmo tempo esse gesto dissolve a noção de obra. A contradição é a essência do ato; é o equivalente plástico do jogo de palavras: este destrói o significado, aquele a idéia de valor. Os ready-made não são antiarte, como tantas criações do expressionismo, mas a-Rtísticos. A abundância de comentários sobre o seu sentido - alguns sem dúvida terão provocado o riso de Duchamp - revela que o seu interesse não é plástico, mas crítico ou filosófico. Seria estúpido discutir sobre a sua beleza ou feiúra, tanto porque estão mais além da beleza e da feiura como porque não são obras mas signos de interrogação ou de negação diante das obras. O ready-made não postula um valor novo: é um dardo contra o que chamamos valioso. É crítica ativa: um pontapé contra a obra de arte sentada em seu pedestal de adjetivos. A ação crítica se desdobra em dois momentos. O primeiro é de ordem higiênica, um asseio intelectual: o ready-made é uma crítica do gosto; o segundo é um ataque à noção de obra de arte".

In: PAZ, Octavio. Marcel Duchamp ou o castelo da pureza. Tradução: Sebastião Uchôa Leite. São Paulo: Perspectiva, 2007.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Com as conversas de Almodóvar


O que me seduz em um livro como este não é a possibilidade de ler sobre o que pensa o Almodóvar sobre a sua obra. Isto é, não estou atrás de uma análise justa, à primeira mão, de seu cinema. O que me fascina é a emoção. A emoção que eu sinto através das suas palavras emocionadas ao falar não apenas sobre seu cinema, mas também sobre o mundo e sobre ele mesmo. É como se fosse possível saber que sua respiração é agitada, que seu andar é rápido, que ele não fica sentado durante muito tempo, embora estas informação não estejam ali, nas conversas. A radiografia do humano, que posso ver nos seus filmes, também posso vê-la nas suas palavras, na sua paixão pelo seu trabalho de cineasta. Uma radiografia anárquica, colorida, plural, que coloca a nu tantas das hipocrisias do humano.

E, por outro lado, é inevitável que o livro sirva também para atiçar a vontade de rever os filmes. Aí, sim, é uma espécie de voyeurismo::: são os olhos de Almodóvar que tomo emprestado. São com seus olhos que revejo determinada cena, determinado ângulo, determinada música. Sinto vontade de pregar o olho em todas as cenas, para trazer dali algo novo. E é o que faço aos poucos neste início - não só do ano. Mas o início de muitas emoções novas.

A quase leitura de Os irmãos Karamázov


É sempre um momento poderoso ler Dostoiévski. As sombras descem. E meus olhos ficam ainda menores - como se houvesse um susto, ou um temor. O que se passa? Ainda mais Os irmãos Karamázov, um livro quase mítico para todos os leitores brasileiros que amam Dostoiévski e não sabem russo. Foi longa a espera por uma tradução direta do russo. Quando eu soube que finalmente havia saído a edição da Editora 34, com tradução de Paulo Bezerra, o desejo de possui-lo foi intenso. Todo desejo primário é o da posse. Comprei-o imediatamente, embora soubesse que não teria tempo de lê-lo. Agora, estou lendo-o. Ou quase lendo-o. E, embora muita coisa aconteça a minha volta, a impressão é de que estou em algum lugar da Rússia; um lugar feito de conflitos e contradições. E é por assim estar que eu me demoro a realmente começar. Tenho medo de marcar o início do ano com a leitura deste livro. Talvez porque eu lembre exatamente os momentos da minha vida em que li O idiota e Crime e castigo e, embora tenham sido momentos de acontecimentos vitais na minha vida, são estas leituras que, no filtro do tempo, continuam vívidas na minha memória. Não exatamente as histórias, porque não tenho uma memória privilegiada, mas o que senti ao lê-las. É este sentimento - ou um sentimento parecido - que talvez agora exija de mim um retardo, uma demora.
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Hoje li Fausto Zero, de Goethe.
Ontem, Pier Paolo Pasolini, de Maria Bethânia Amoroso.
Nos intervalos, finalizei o Livro I de Os irmãos Karamazóv.
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O que me espera no Livro II?
Amanhã, lerei Dialogos com Leucó, de Cesare Pavese. Relerei.
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Minha irmã Maneca, minha irmã Mácia e meu sobrinho irão embora amanhã. Passaram a semana comigo. Ora dormitando, ora vendo filmes, ora andando pela mata, ora... Antecipo o vazio de amanhã e perco o sono.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

sempre as horas

achei que em janeiro estaria em paris. muito do que achei no ano passado não aconteceu. talvez aí resida a beleza::: no transtorno fundante da vida. neste emaranhado de surpresas e acasos. casos. não estou em paris. talvez porque o medo do outro seja o que mais interrompa o amor. eu me imaginei lá espectadora de um amor. porque o amor tem muitas faces. eu amaria os dois. e seria amada por eles. e o amor deles hoje se faz de outra forma, percorre outros caminhos. perdemos paris a três. porém, não temos paris, mas temos a nossa história. os nossos dias. as nossas horas. como eu disse a ela: "isto é nosso. ninguém mais nos rouba". e choramos agarradas - na rede vermelha. e é assim que agora estou aqui em porto do velho. por caminhos misteriosos, 2008 foi o ano de ficar mais próxima da família, de aprender como se faz, de querer aprender. o resultado é que os irmãos passaram o ano novo juntos. uma veio do ceará. o outro, de sampa. e mais um, do mato. reunimo-nos, aqui, na casa da irmã mais velha. e foi bonito. na primeira vez que tentamos, depois de crescidos, houve vários estranhamentos. nos amávamos ainda, mas já não sabíamos como conviver com tanta diferença. até o preço da carne foi motivo de discórdia. o preço da cerveja, então, teria sido o dissenso, se não houvesse a gargalhada. neste ano, elas me ligaram perguntando se compravam logo a cerveja. compraram. eu cheguei na manhã do dia 31, encantada com o ombro onde pude dormir durante quase toda a viagem. no resto, ficamos de olhos abertos vendo a chuva na estrada. sim, talvez seja esta a beleza. acho que não foi dificil para ele, apesar de sua alma atrapalhada ter feito um furo no teto da minha irmã. um furo no teto, quando a vontade era que tudo corresse bem... ele se sentiu protagonista de uma daquelas comédias em que tudo dá errado, mas tudo acaba em gargalhada. muita risada na primeira hora do ano. e muita preguiça nos dois dias seguintes; preguiça regada a churrasco. tatus em família.

estou aqui, pois, em porto. onde me sinto em casa. lendo, enquanto com os ouvidos ouço as histórias das minhas irmãs. elas repetem a mesma história inúmeras vezes. e são teimosas. sorrindo complacente, eu me pergunto se faço o mesmo. se sou assim. desconfio que sim. talvez todos façamos isto; afinal, as nossas histórias são o que nos provam que estamos vivos, que temos uma vida.

tenho aprendido isto. será que tenho aprendido mesmo? talvez desaprendo. sei que em julho paris estará menos frio. e talvez eu esteja lá lamentando não poder usar meus chapéus. agora, aqui em porto, está muito quente. e tem muita vida circulando. eu carrego para cima e para baixo "conversas com almodóvar" e leio partes dele em voz alta para o ney, atrás da sintonia que pressentimos. almodóvar me faz sentir tão viva. parece que carrego em mim todas as suas cores, todas as suas intensidades. sinto vontade de tantas coisas. sinto desejos.

que nada me tire os desejos. o poder de desejar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

se

uma retrospectiva, se soubesse. uma previsão, se pudesse. mas, assim, cheia de ternura - do filme, do livro, de deixar o tatu na rodoviária, das manas dormindo logo ali ao lado, do mano na rede, dela tão bonita desejando que o casal da série se reconcilie logo para ela poder dormir -, eu entro em devaneios. e guardo-os todos aqui, no coração que bate.
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domingo, 28 de dezembro de 2008

reflexões do meio da noite

um dia, quando estava fazendo a tese, o msn não funcionou. não o fato do msn não ter funcionado, mas minha reação. dolorida. histérica. fui em todas as alternativas que minha ignorância permitia. e nada. sentia meu corpo tremer. e veio o choro convulsivo. eu só queria alguém para conversar. não para dizer que não conseguia fazer a tese, mas sim para o contrário. para dizer que estava tudo bem. isto é, para mentir. é a loucura da tese. a loucura da solidão, que só percebemos muito tempo depois, quando a tese está feita. quando a solidão não existe mais. e temos a impressão de voltarmos à normalidade. agora, quase nunca entro no msn, a não ser para falar com minha melhor amiga. e damos altas risadas, se fosse possível ouvir as risadas, expressas por simples e incompletos rsrsrs. agora estou em paz. agora, fico horas na rede - a que balança e faz ruído que deve atrapalhar o vizinho. muito menos do que queria, mas o suficiente para ler um livro inteiro e chorar e sorrir com ele. estou em paz. e estou feliz. e por isso perdôo; o perdão como forma de esquecimento - e cantarolo, se assim soubesse: não há o que perdoar. há tão-somente oito meses de traição. de abandono. e vejo que eu mesma abandonei muito antes. e mesmo assim sinto. porque sempre desejei alguém mais forte do que eu, mais lindo do que eu - que tivesse coragem de me dizer o que eu mesma não tive coragem de dizer. e não foi assim. foi tão normal, tão novela das seis, tão homem funcionário público - o que havia de diferente na nossa relação? e a resposta é um grande nada vazio. não conseguimos ser nós mesmos - a parte mais difícil. talvez toda mulher sinta estes anseios que nada têm a ver com a máscara de libertação que demoradamente construímos. vejo os destroços. e sinto uma certa tristeza nos destroços. porque o perdão só vem quando o amor se vai. se esvai. aquele foi. eu procuro em mim aquele amor pelo amado e só sinto a dor da traição, porque foi ela que tocou em algo que dói apenas em mim e tem a ver com as dores daquela criança que nunca deixei de ser. mas agora a criança acredita de novo. não apenas no amor, mas em tudo. acredita na vida que a adulta construiu. acredita que ela é bonita. é estressante, mas é bonita. é todo ela envolta por uma fantasia. a fantasia de viver em um mundo bonito para além do mundocão. e isto se deve não apenas ao ney, embora ele tenha uma grande porção. ele é bonito. gosta de tudo que eu gosto, e não apenas porque eu gosto. gosta com seu ar blasé, com seu jeito super ativo; tem horas que leio um livro e ele joga no meu celular supercaroesuperchique que eu jamais usarei as funções; comprei apenas porque é bonito e é vermelho - ; até que se cansa e vai embora quando a clausura do meu apartamento lhe sufoca. e volta dizendo que sente saudade. e eu sinto nitidamente que ele sempre irá. porque ele sabe o que quer, para além de mim. e me sinto feliz com isto. ele vai sem nenhum rancor, apenas porque reconhece que sou uma senhora esquisita. talvez seja apenas agora porque é o princípio e juramos dizer sempre a verdade doaaquemdoer - mas o que importa o futuro se o porvir é sempre incerto? é daí que vem o perdão. quando eu sinto que estou muito melhor, repetindo na minha vida aquela música que Bethânia canta com tanta dor. eu digo quase sem dor. apenas com este peso de quem pensa as palavras::::: e as palavras me dizem agora que estar reclusa no ano que quase inicia é um desejo antigo e ansiado. abro as portas apenas para eles. o resto do tempo divido entre minhas fobias, minhas manias, minhas tarefas e minhas paixões. leituras músicas armários arrumados livros limpos um a um. sim, ninguém agora pode me atingir. estou forte e inteira e amada. e amo. amo todos. e amo.
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se eu não voltar aqui antes do ano novo, quero dizer que este blog, embora eu escreva sempre como quem escreve para si mesma, tem um imenso prazer de saber que meia dúzia de pessoas o lê vez ou outra.
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feliz ano novo a todos.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

na rede

ontem, na rede, curtindo uma daquelas ressacas derivadas pelas excursões ao mundo de baco:

"O círculo se fechou. Nada termina jamais. Onde quer que alguém plante raízes brotadas do seu eu mais puro ou verdadeiro, ali encontrará um lar".

na noite anterior, aquela do cristo e do papai noel, vinho do porto bebido como se fosse vinho italiano, argentino, chileno, se não fosse tão doce. mas tinha o italiano, o chileno, os dois argentinos. e tínhamos nós emoldurados de beleza. e tinha a música, a que amamos. a isto não nomeio para que fique apenas a memória de uma noite feliz de natal que mais pareceu uma noite pagã. a de nós quatro. talvez uma das mais felizes noites de natal da minha vida. se é que houve muitas. nunca uma com tanto vinho e tanta doçura. este natal finalmente existe. e com direito a presente. mais um. e lindo.

quanto à citação, é de Liv Ullmann, da sua autobiografia Mutações. antes mesmo de ler meus livros essenciais, eu provo a impureza dos gêneros. ultimamente, muito interessada em livros que não são estritamente literatura. o outro livro pela metade é Uma viagem pessoal pelo cinema americano, de Martin Scorsese - é de enlouquecer de vontade de ver os milhares de filmes comentados. e os outros dois que acabei de ler - Um castelo de pureza, de Octavio Paz e Um diário de Florença, de Rainer Maria Rilke, também fazem parte destes gêneros impuros: o primeiro é um ensaio (brilhante, diga-se de passagem) e o outro, como o próprio nome diz, é o diário de um poeta, escrito para a sua interlocutora ausente, Lou Salomé, por quem ele estava apaixonado. e estou no segundo tomo de O último round, de Julio Cortazar, dois formidáveis exemplares do que a escrita pode alcançar quando faz da colagem, da impureza, o seu limite. pois assim o limite passa a ser não ter limite.

sim, eu não me reconheço. e se choro e se sorrio, também leio desesperadamente, como se fosse uma questão de identidade, como se minha já enorme biblioteca me exigisse o tempo que não tenho e que, culpada, roubo das tarefas que deveria cumprir. agora mesmo, estou cumprindo uma, mas me disperso e venho aqui, me disperso e leio 20 páginas de Mutações, quando deveria estar fazendo uma proposta de ementa para o mestradoquenemseisevaiexistir. perplexa, sinto que não sei o que quero dizer aos alunosseporventuraumdiaexistirem. talvez como rilke, tudo que eu queira dizer seja, "leiam". não importa o quê, desde que esta leitura lhes faça perder o sono. e suas tarefas. se assim for, a leitura vai ter deixado de ser mero passatempo e terá se tornado algo vital, essencial, na vida; como eu acho que é na minha vida. e na vida de meia dúzia de pessoas que eu tenho o prazer de conhecer. mas no mundocão de hoje, ser e sentir desse modo é muito perigoso. sobretudo, impróprio.
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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

é quase natal

... é quase natal e eu não sinto que seja. estou feliz. sim, estou feliz. mas quase não me reconheço. choro bem alto para me reconhecer. depois passa. me acalmo. e volto para o natal que ainda não existe para mim. ensaio compras de presentes. mas compro apenas para o binho e o manu. eu sei exatamente o que eles querem. eu gosto da coisa exata. custa-me reconhecer, mas gosto. e eu que sempre achei que voava sem pára-quedas. agora, eu quase imploro. depois volto atrás. rio de mim mesma. e aviso que não sou assim. apenas estou - estado passageiro. e sigo feliz. doze horas dentro de um ônibus lendo sem parar. isso depois de oito horas na mesma estrada em sentido contrário. cinco horas de aula. uma noite no meio. e uma prova aplicada. o ônibus quebra. as pessoas gritam. um senhor conta causos. o homem ao meu lado fede. uma senhora simpática quer conversar. uma troca-troca de ônibus, de cadeiras, de mexericos. e eu continuo lendo. exausta, sento no chão da rodoviária de uma destas de beira de estrada e choro como chorei há anos atrás lendo relato de um certo oriente em uma rodoviária igual sem tirar nem pôr. eu que me sinto toda diferente. agora leio o diário de florença - e lembro da noite cheia de delicadeza - o que seria da vida sem os amigos para nos indicar livros? e choro porque lembro. e choro pensando em veneza, em roma... e em florença que ainda não conheço. e rilke, imperativo, me diz: "olha". e esbraveja contra todos que não têm sensibilidade. cético louco apaixonado jovem monumental. então eu choro. nem que seja para dizer que tenho sensibilidade. posso não ter memória agudeza sapiência, mas tenho sensibilidade. e é com ela que me faço. mesmo que esta sensibilidade muitas vezes atrofie e eu veja e sinta e queira apenas o meu umbigo. tem sempre o momento em que eu me dou inteira. por ora, reivindico a contradição. o sorriso e a lágrima na mesma intensidade. nunca mais almas pela metade, se fosse crente eu pediria isto. descrente, eu tento escapar. crente, eu faço carinho no cabelo. em algum lugar, tenho um castelo de pureza. nem que seja este que agora folheio. é o que agora penso enquanto ouço bem alto o clube da esquina.
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outros outubros virão/ dos homens que são/ prefere o rio/ prefere remar/ falo assim sem saudade/ falo assim sem tristeza/ falo por acreditar/
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misturo as letras. vivencio as músicas. quase me reconcilio com elis ouvindo-a assim ao lado de milton. a voz doce dele entremeado com a voz dura de quem só reconhecia a dor. plenos de sol e de luz.
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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

madrugada

Um instante de beleza é uma alegria para sempre. Domingos de Oliveira
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amanhã, eu vou sentar aqui; hoje, eu vou sentar aqui e fazer o presente da minha amiga oculta, porque ela merece e porque terei entregue, corrigidos com olhos de lince, todos aqueles textos. a maioria tateia. alguns têm alma e têm medo. outros, medo nenhum e nenhuma alma. eu me descobri em muito sendo professora. uma das descobertas é que não dou conta de tanto livro - ruim - para ser lido. e que não suporto erros gramaticais, embora multiplique minhas vírgulas na ânsia de errar. e ele dorme. eles sempre dormem e eu fico a velar um sono que não é meu. e quem velará meu sono? tenho sempre a terrível impressão. esta dor amorosa que me faz encher os olhos de lágrimas é a dor de agora. ele dorme tão bonito enquanto eu envelheço mais um pouco entre tantas ordens do dia - que se estendem pela noite adentro. pilhas de livro, carrega meu papai noel; eu espicho o olho sonhando com o dia em que terei tempo de me balançar na rede - a rede que agora range enquanto ele dedilha seu violão; indeciso entre uma nota e uma música. eu ouço lendo fábulas. e gosto do que dizem as fábulas: um alma e um medo - tum tum tum! solto um riso solto. depois ele some do rosto e quase tombo. a delicadeza e o horror de cyane - em linhas finas - se encarregam de dizer que ainda é tempo - para além do tempo. e eu insisto::: leio três paginas de octavio paz. outras dez de rilke. e bêbada, mostro-lhe francis bacon. e lhe digo de um modo estranho que o disforme é o que corrompe minha alma. e ele parece compreender quase tão bêbado como eu. no almoço, ele lamenta que já bebemos todos os vinhos da casa. porque ouvir maysa comendo um almoço feito a dois pede um vinho. eu lhe prometo comprar quantos vinhos for desejado. eu lhe prometo tudo e nem percebo. agora o quarto é todo escuro. e posso dormir até mais tarde. bem mais tarde.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Meu papai noel


passei por uma loja cheia de papais noéis e pensei com ar desolado: "não há nada em casa que identifique que é época de Natal... bem que eu poderia comprar algo". dei um passo para entrar na loja e hesitei. foi a adulteza que me fez hesitar: "Milena, natal é uma data como outra qualquer; é apenas para os bobos consumirem; talvez se um dia houver crianças correndo pela casa faça algum sentido... não agora em que apenas você a habita". e fui para a casa vazia de crianças carregando a adulteza e a tristeza infinda que lhe acompanha. mas eu sou uma pessoa de muita sorte; almas de crianças me recolhem a todo o momento. foi assim que um papai noel chegou aqui; provavelmente um daqueles que eu desejei sem dar o passo à frente que faz com que o desejo valha a pena. a alma de menina da Nilza me trouxe um papai noel carregado de corujinhas - não no saco, mas na barriga! imaginem: um papai noel grávido de corujinhas de toda espécie é ou não é a própria imagem da perfeição para uma colecionadora de corujas e de meninezas? agora ele fica aqui a me olhar, bem na minha mesa de estudo; um rei no reino da bagunça, a me lembrar da minha alma de menina, a me lembrar do tanto de sonhos e de desejos que eu quero lhe pedir para me ajudar a realizar.
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e Nilza também disse que me sente como uma filha, e eu, tão carente de mãe, choro e choro lendo as suas palavras. fico cheia de silêncios. suas palavras mereciam um tanto de outras palavras, mas eu silencio de espanto. eu nunca sei como um ser egoísta como eu provoca o amor em alguém. e sem saber, resta-me agradecer aos céus por colocar pessoas como ela no meu caminho. isto deve ser a maior prova de que papai noel existe. sim, ele existe. e agora me olha com seus olhinhos curiosos.

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o que me incomoda é este céu aberto – e vermelho. porém, se não for aberto, perde o sentido para mim. se não é meu sangue que escorre, de que valeria escrever? não quero me preocupar se algum escroto vier aqui e tirar conclusões sobre o que escrevo, como se tivesse adquirido a chave de mim e pudesse entrar a qualquer hora. de madrugada, apenas meus amigos têm a chave. apenas eles podem entrar e eu continuar dormindo; senhores absolutos da casa que cuido para eles. os que vêm aqui e que eu amo sabem mais de mim do que qualquer outro. estes que vêm sem nenhuma alma não podem sentir a alma que aqui habita. não que os que nunca vi não saibam de nada. sabem. mas é um saber frio – como tudo aquilo que está distante. e muitos que nunca vi têm alma e calor nas palavras. é porque de fato eu quero um espaço amoroso. o amoroso é minha figura. uma busca obsessiva de lugares de espanto e de amor. e eu quero o espaço amoroso que não me estrangule – que me ouça ou me cale com a delicadeza de uma pena de ganso. aquela mesma que eu deixei perdida no lago onde estive sozinha. eu continuo com medo – e às vezes ranjo os dentes no escuro. o mesmo escuro que alcançou meus olhos por dias infindos da infância. sim, já estive cega. sei o que é abrir os olhos e ver uma pasta cinza bem à frente. eu achava que esta experiência havia levado todo o medo do escuro. mas faz pouco que descobri que o escuro do outro causa muito mais medo. como é que eu não soube disto antes? sim, é de mim que tenho medo – é do medo em mim que eu sinto medo. porque agora eu olho para um outro e vejo tudo cinza à minha frente, mesmo que a delicadeza esteja tão evidente no sorriso maroto e meio tímido. mas a aranha desce morta de trás do quadro que arrancamos da parede para colocar os anzóis e as adagas de cyane. os anzóis e as adagas que fazem saltar os olhos. sim, sempre há quem nos perfure os olhos. mesmo assim, tomamos de empréstimo o vermelho do almodovar e por enquanto estamos a salvo. nada pode ainda nos fazer mal. e se algum escroto vier aqui e achar que eu disse algo indevido, é porque o adjetivo que lhe impus lhe cabe muito bem.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Sobre "beijo de amor" e "amo-te"

não uma. ou duas. mas umas cinco pessoas perguntaram sobre o que eu sentia. como me sinto? quando me perguntaram, eu sorri. ora, era para sorrir; chorar é que não dava mais. aquele sorriso de quando ouvimos uma fofoca indevida que deveria doer bem ali onde não dói mais. o que sentir quando sei que minhas expressões se espalham? e são ditas pelo outro a uma outra que não a mim? ora, sinal que funciona. mas perde o valor? é sinal de maldade, de impiedade, de falta de cuidado para comigo? estas perguntas vêm junto no pacote. também vem junto um misto de desprezo e ironia. sim, um dia tudo se perde. eu sorrio de um sorriso indefinido, e entre divertida e surpresa [a surpresa é sempre uma forma de negação do horror causado pela ação inesperada do outro], esboço respostas que catalogo, agora, aqui. a quem se diz “beijo de amor” quando se diz “beijo de amor”? a quem se diz “amo-te” quando se diz “amo-te”? estas expressões me pertencem? quem mais ao redor de mim as usava antes de eu usá-las? creio que ninguém. mas isto faz com que sejam minhas? ou de certa forma eu as doei? e o que é devido? se eu as doei, elas me pertencem ainda? sempre achei “eu te amo” uma frase maravilhosa. nunca me recusei a dizê-la. eu assim digo; como assim beijo. eu beijo irmãos, sobrinhos, amigos, amores, conhecidos – todas as pessoas que amo ganham sempre de mim um “eu te amo”, e mais abraço apertado, beijo melado. o toque, este que tantos têm medo, eu toco. talvez por isso – pelo tanto dizer – algumas vezes eu sinta necessidade de dizer “eu te amo” diferentemente. então eu invento. primeiro inventei “amo-te”, aproveitando o pouco uso da proclise no português brasileiro. e doei o “amo-te” a uma pessoa. criei para ela. para ser mais do que “eu te amo”. foi também por isso que criei o “beijo de amor”. e achei tão bonito que também assim o disse a minha princesa. beijo de amor para dois. outra forma de acréscimo ao meu gosto pelos diminutivos, pelos cortes nos nomes próprios, pelo tratamento “exclusivo”; é minha alma dengosa que gosta. é de mim. é por isso que eu continuo sorrindo quando me dizem que o "amo-te" e o "beijo de amor" estão em outras bocas. falta-lhes imaginação? sobra imaginação em mim? talvez nem uma coisa nem outra. talvez seja excesso de ternura, de amor. porque estas expressões começaram a ser ditas por mim para isto: para alastrar uma ternura, um amor, que no momento da invenção se queriam e se imaginavam únicos. mas ternura é reiterativa; espalha-se e se reconstrói quando parece que se desfaz. da minha parte, por fim, convém dizer que por pruridos ou por excesso de imaginação eu não uso agora o "amo-te" ou o "beijo de amor", a não ser para alguns amigos. e sequer digo “amado”. amado ainda me parece um nome próprio. essas palavras, de certo modo, expressam a inteireza do que um dia deu certo e foi bonito. como “inventora”, como “autora”, eu me permito crer que posso inventar outras expressões e me desgarrar destas como quem sabe que o que criamos deve sair livre pelo mundo, deve se apropriar de outras ilusões, sob o risco de se perder para sempre. por isso, agora eu invento novas palavras. e quero crer que me recrio. recrio meus gestos. reaproprio-me do meu corpo. e este novo corpo que inventa pede um outro tanto. eu ando me recusando a ser igual. a dizer o mesmo. eu ando à caça de ainda mais delicadeza. e de pessoas ainda mais delicadas entre tantas que já habitam em mim. eu quero toda por inteiro me reinventar. e nessa reinvenção estar ao alcance de alguém. e para este alguém, eu me quero toda diferente. para que o amor não seja repetição. seja também algo novo.

e o que me disseram estas quatro ou cinco pessoas que me perguntaram como eu me sentia foi que ainda e por muito tempo “amo-te” e “beijo de amor” serão palavras minhas. mesmo que eu não as profira. e que sejam proferidas por outros.
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foto: minha sombra e, atrás dela, a arte de cy à espera da parede.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Sob os céus de Roma



nas páginas da internet, leio que 5 milhões de pássaros invadiram os céus de Roma. enquanto as autoridades não sabem o que fazer, eu me lembro do inverno de 2006, quando eu e mari estávamos sob este mesmo céu durante cinco dias. no último dia, já sozinha, eu carregava apressada minha mala, dois pacotes, o quase frio, a cabeça de vento, quando me surpreendi com o barulho das asas. em êxtase, só tive ação para clicar estas duas fotos. últimas imagens que agora, sem que meus olhos vejam, se repetem nos céus de Roma.
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Dor


na manhã que parece noite, nossos olhos vêem - talvez pela última vez - as pedras do rio madeira. as pedras daquela tarde. e daquele pôr do sol. e daquela noite sem fim. e desta manhã. o "progresso" vai deixar tudo embaixo d'agua. como é que se chama o nome disso?

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prece às avessas de uma professora

eu leio. mas é difícil para mim. sofro. não sei ler com hora marcada. texto marcado. tanto livro no mundo e uns dez na minha frente por obrigação. é como querer nos obrigar a trepar sem tesão algum. chafurdamos na lama imaginando outra cena, até que quase é. mas não é. depois fica aquilo apodrecendo até ao limite do insuportável. o curso de letras é cheio de cadáveres. e eu não finjo. muitos destes escritores para nada servem; talvez para fazer um leitor se enfastiar até quase à morte. tudo cadáver. um verdadeiro leitor nunca vai ler certos livros que nós, coitados, somos obrigados a. é uma tortura chinesa sem prazer algum. eu não quero saber quem é afonso lopes, jerônimo baía e muitos outros que estão nestas malditas coletâneas de histórias da literatura e vão parar em ementas dos cursos por pura preguiça de quem as faz. ou por puro não-saber. ou por puro descaso. e nos resta escandir versos mortos. uma masturbação sem borboleta. oh jesuscristinho, quero de novo minhas borboletas sem hora marcada. quero de novo a verdadeira literatura. aquela que me embriaga. que me deixa insone. que me deixa revoltada. mas de uma outra espécie de revolta que não esta.
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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

emoção é a palavra

ouvimos este cd com a alma na mão. o coração aos saltos. e saem tão espontaneamente palavras de admiração. é um momento único, um músico único, como diz o apresentador do festival de montreux. em 1979, eu tinha apenas 5 anos. ele, ainda nem tinha nascido. e agora rimos feito meninos ouvindo as peripécias deste senhor de cabelos todos brancos nas terras do velho mundo. a verdadeira arte, seja qual for sua manifestação, não envelhece nunca. pulsa como um coração em contato com o coração do outro.

eu tenho tanto a dizer do espanto destes dias. mas por que espanto, falta-me o tempo. olho agora para os irmãos karamazov. carrego a caixa como quem embala um bebê. dentro dela, os desejos. e os anzóis vêm em minha direção. cadê cyane que está bem aqui na minha frente? suas adagas e seus anzóis, estão. mas sinto sua falta na janelinha virtual.

e o que dizer a nilza, que me leu e escreveu assim tão bonito? "adorei, amei, me encantei. chorei até umas horas. Meu pai vem é lindíssimo, de uma singeleza, como vc gosta de dizer, delicadeza, meiguice. Seu prof tem toda razão, a sua escrita escorre quente, humana, de parto natural. Vc já deve ter fãs n°1 aos montes, portanto quero ser só a leitora de outros mais escritos como estes".

por inteira, me emociono. e mais do que nunca sinto que o caminho é este. o caminho do bem-querer. da gentileza. do cuidado. da dedicação. da concentração. e também da dispersão. da noite longa. dos olhos cúmplices e marotos. do entregar-me inteira à aventura do viver, mesmo que a lágrima caia. mesmo que os enganos existam. há e haverá sempre uma varanda com vista para a estrada. a varanda da imaginação. e durante a noite corre um vento frio. um sopro quente. e a ternura.

sim. ainda minhas meninas. diazinhos beijando-as todos os dias. com gosto de batata recheada feijoada peixe sushi sashimi. as delícias da mesa; tão boas que não deveriam engordar. e tão bonito maneca me deixando na rodoviária dirigindo seu super carro, adiantando a cabeça para receber meu beijo enquanto pergunta quando voltarei numa saudade que parece antecipada pela presença. logo. logo.
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e a manhã com cara de noite. passeio pela chuva até ao rio que agoniza. a vitrola interna exteriorizando um sem-fim de cumplicidades. e a noite com cara de madrugada. olhos doces e sabidos a me ouvir. e eu, com meus zoinhos cada vez menores, a escutá-los. depois a rua vazia recebe nossos passos trôpegos. chaplins ébrios carregados de memórias imaginando alto o diário de florença.
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sim, a vida. hermeto eterno. o fogo. e o espelho que quebra no momento de ir para a parede. e ainda pina bausch e leonilson sobre a mesa à minha espera. e julio cortazar, que me lembra denise. de quem sinto saudade. e aqueles olhos doces me trazem também marie, de quem também sinto saudade. e mari me lê por aqui. ficaria vermelha, se fosse branquela. sendo preta, ruborizo por dentro.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Ainda May B

may b demora a sair de mim. talvez por isso vasculhe a net à cata de. encontrei belas fotos do fotógrafo olivier rickebusch. os fantasmas no meio do deserto. e também palavras de maguy marin.
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"Arriver à déceler ces gestes minuscules ou grandioses, de multitudes de vies à peine perceptibles, banales, où l'attente et l'immobilité "pas tout à fait" immobile laissent un vide, un rien immense, une plage de silences pleins d'hésitations. Quand les personnages de Beckett n'aspirent qu'à l'immobilité, ils ne peuvent s'empêcher de bouger, peu ou beaucoup, mais ils bougent".
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é isto mesmo. a imobilidade total é apenas miragem. "pouco ou muito, ... eles mexem". o "nada imenso" de beckett é insuportável. mas como disse rimbaud, "o insuportável é que não há nada insuportável".